As igrejas precisam fazer uma reflexão a respeito de suas concepções sobre sexualidade e uso de preservativo. A avaliação é da representante do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs Tânia Mara Vieira Sampaio, que integra a Comissão Nacional de DST e Aids.

Segundo ela, as igrejas precisam “revisitar o passado” para tentar “redimensionar o presente” e compreender as novas questões relacionadas à sexualidade.

“Nesse tema, o grande problema está relacionado a questões de poder que ainda têm um viés patriarcal e androcêntrico”, afirmou. “Mexer nas questões de sexualidade não é mexer nos dogmas que estruturam as doutrinas cristãs, é mexer em relações de poder nas instituições Igreja e nas demais instituições da sociedade. Por isso temos muita dificuldade em entrar no diálogo sério sobre sexualidade”.

Para a diretora do Programa Nacional de DST e Aids, Mariângela Simão, o surgimento da Aids trouxe o questionamento sobre uma série de valores, atitudes e dogmas. Nesse contexto, ela avalia que é importante o diálogo entre o poder público e as diferentes religiões do país.

“O sistema de Saúde tem limite de atuação. As igrejas permeiam a vida das pessoas de forma mais intensa. Então, qualquer atividade, qualquer acordo para que a gente possa atuar mais interativamente na proteção das pessoas e na prevenção da epidemia da Aids é sempre bem vindo”.

Segundo ela, o papel do governo é atuar no trabalho de prevenção e no repasse de informações sobre as doenças e as formas evitá-las. “Mas o uso ou não desse conhecimento para se proteger é uma questão pessoal, e o Estado não deve entrar na individualidade”, ponderou.

“Essa é uma situação muito polêmica e difícil de ser enfrentada por muitas igrejas. Falar abertamente de sexualidade e tratar abertamente de como se prevenir não usando apenas questões morais, tudo isso tem que ser posto na mesa”, disse Simão.

As duas participaram ontem (6) do seminário Aids e Religião: Desafios e Respostas do Campo Religioso no Enfrentamento da Epidemia de Aids no Brasil. O evento, promovido pelo Programa Nacional de DST e Aids, do Ministério da Saúde, termina amanhã, em Brasília. O objetivo é entender as diversas religiões brasileiras e suas implicações no campo da saúde, em especial em relação à Aids e ao HIV.

De acordo com Simão, ao final do seminário, será elaborado um documento que balizará a posição brasileira na Conferência Mundial de Aids que será realizada em agosto, em Toronto, no Canadá.

Fonte: A Tarde Online