O Vaticano mantém silêncio e trata como assunto local a greve de fome do bispo de Barra (BA), d. Luiz Flávio Cappio, que realiza um protesto contra o projeto de transposição das águas do rio São Francisco.

Apesar do jejum já durar 15 dias, nenhum clérigo brasileiro em Roma – nem mesmo d. Claudio Hummes, prefeito da Congregação para o Clero – foi chamado para intervir no caso e conversar com o bispo.

Trata-se de uma postura bem diferente da adotada há pouco mais de dois anos, quando d. Cappio fez greve de fome pela primeira vez pelo mesmo motivo e recebeu advertências do Vaticano e da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

Procurada pela reportagem da BBC Brasil, a assessoria de imprensa do Vaticano disse que, até o momento, a situação tem aspecto local e que a Nunciatura brasileira, representação oficial do papa no Brasil, deveria responder sobre o assunto.

Em Brasília, por sua vez, o núncio apostólico d. Lorenzo Baldisseri alegou por meio de sua secretária que está ocupado demais para falar sobre o tema e aconselhou a reportagem a procurar a CNBB.

“Puxão de orelha”

“Acredito que o Vaticano não queira chamar a atenção de d. Cappio mais uma vez pelo mesmo problema. Ele sabe que não está correto fazer greve de fome”, disse um bispo que pediu para não ser identificado. “É melhor para todo mundo que as coisas se resolvam dentro do próprio Brasil.”

Outro religioso afirmou que seria mais adequado não dar repercussão internacional ao caso. De acordo com ele, “é aconselhável que a Igreja e o governo do Brasil consigam resolver seus problemas internamente, porque ninguém quer puxar a orelha do bispo novamente e tampouco se intrometer em assuntos políticos do governo”.

Na Itália, a imprensa já começa a questionar também o silêncio da Santa Sé sobre o protesto de d. Cappio.

Reportagem publicada pela agência de notícias Ansa na noite de segunda-feira e reproduzida por outras agências de notícias italianas lembra que todos estão calados e que a CNBB se limitou apenas a publicar um comunicado em que pede ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva maior diálogo.

Nesta terça-feira, a direção da CNBB e o presidente Lula deveriam discutir uma solução para a greve de fome do bispo de Barra.

D. Cappio condiciona o fim da greve à paralisação da obra e ao arquivamento do projeto de transposição das águas do São Francisco. O bispo defende a revitalização do rio.

Já o governo afirma que manterá o projeto, que aproveitará parte do excesso de água do São Francisco para perenizar rios e açudes da área mais seca do Nordeste, e alega que a transposição beneficiará 12 milhões de pessoas em Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.

Fonte: BBC Brasil