Rio – Unidos na fé, mas separados por interesses corporativos. Assim são os parlamentares da bancada evangélica que, se fossem agrupados num só partido, teriam hoje a terceira maior bancada da Câmara, com 60 deputados — um a mais que o PSDB.

Alvo de desconfiança de parte do eleitorado, que teme a mistura de religião e política, esses parlamentares enfrentam agora o estigma da corrupção: segundo o relatório preliminar da CPI dos Sanguessugas, 45% da bancada participaram de fraudes na compra de ambulâncias.

A lista inclui o presidente da Frente Parlamentar Evangélica, deputado Adelor Vieira (PMDB-SC). A tese de que a “bancada de Cristo” comunga da mesma escritura política é contestada pela socióloga Maria das Dores Machado, que acompanha os parlamentares fluminenses há cinco anos.

No livro “Política e religião”, que será lançado quinta-feira pela Editora FGV, a professora da Escola de Serviço Social da UFRJ mostra que a competição entre os grupos religiosos é cada vez mais acirrada e que não há consenso nem em temas polêmicos, como a legalização do aborto. No ano passado, o uso científico de células-tronco, combatido por evangélicos e católicos conservadores, foi aprovado com o apoio dos 16 deputados da Igreja Universal.

“Eles votaram unidos por determinação do Conselho de Bispos, que negociou diretamente com o Palácio do Planalto. A bancada é mais unida em questões corporativistas, como a liberação de música em templos, do que em temas morais. O pragmatismo é enorme”, diz a socióloga, que visitou templos, recolheu material de campanha e entrevistou 29 parlamentares desde 2001. Segundo Maria das Dores, a estrutura centralizada da Universal lhe permite controlar a atuação dos parlamentares, eleitos com apoio das emissoras de rádio e TV da igreja. Em entrevista reproduzida no livro, o vereador carioca Monteiro de Castro, assassinado em 2004, explica a ligação: “Eu me candidatei a vereador com o apoio total da igreja. Hoje sou vereador e conseqüentemente sou empregado ou funcionário da Universal”.

A pesquisa também mostra que a igreja de Edir Macedo tem adotado bandeiras de movimentos sociais, como a defesa das minorias.

O bispo Caetano Amado, líder do PL na Assembléia Legislativa do Rio, entrou na política para atrair o rebanho afro-descendente da Universal.

“Eu vim para ser o candidato negro da igreja e o João Mendes veio para ser o candidato negro a deputado federal”, conta Amado.

Nos últimos anos, o sucesso da Universal nas urnas levou outras igrejas a imitar sua estratégia agressiva na caça aos votos dos fiéis.

“A competição se acirrou. Na campanha municipal de 2000, a Assembléia de Deus ainda tinha pudor de distribuir santinhos nos templos. Dois anos depois, isso mudou”, conta Maria das Dores.

Fonte: Diário do Nordeste