Popularizada por todo o Brasil, a ioga promete alívio para as pessoas, mas a técnica corporal acabou envolta em polêmicas com direito a virar caso de polícia neste mês. E agora a tradição indiana tem de conviver com suspeitas de práticas ilegais medicinais e até assédio sexual.

Esta semana, o advogado Ismar Marcílio de Freitas Júnior deve entrar com uma ação cível no Ministério Público apontando prática ilegal de medicina por parte de Cristovão de Oliveira, que anteriormente ganhara fama e fizera publicidade pessoal como professor de ioga e massagista de celebridades como a modelo Fernanda Lima, a apresentadora Luciana Gimenez, o empresário Pedro Paulo Diniz e o filósofo Mario Sergio Cortella.

A sorte virou para Oliveira no começo de novembro, quando 12 pessoas que faziam retiro em sua casa em Mairiporã (Grande São Paulo) foram hospitalizadas com quadros médicos de desidratação profunda, diarréia e confusão mental. O Hospital e Maternidade Emed, da vizinha cidade de Caieiras, declarou que causa foi a ingestão excessiva de água e pediu a abertura de inquérito se Cristovão colocou a vida de seus alunos em perigo com o ritual de limpeza corporal que ele aplicou. Suspeita-se que ele teria dado também aos praticantes chá de sene, erva usada como laxante que é vendida em lojas de produtos naturais.

“Esse senhor é um curandeiro. As autoridades têm que apurar o exercício dele, se a clínica dele tem alvará ou não”, afirmou o advogado que defende as famílias de clientes e funcionários do professor de ioga, que se declaram assustadas com a situação. Ele só não entrou com a ação porque as cinco pessoas que denunciaram as práticas de Oliveira não querem aparecer diante da mídia (alguns delas deram depoimentos à imprensa, mas exigindo anonimato).

A maioria dos alunos hospitalizados voltou para a vivência de um mês na casa de Oliveira, para a qual pagaram R$ 3.000, e não prestaram queixas pela intoxicação. Mas alguns se desligaram. Um exemplo é Pedro Moreno, 32 anos de idade e 12 anos de ioga. Ele dirigia o centro do professor no bairro de Perdizes, mas decidiu se afastar.

“Meu senso ético não é compatível com as coisas que estão acontecendo lá dentro. Ouvi rumores de abuso sexual”, disse Moreno à reportagem do UOL. As insinuações ganharam destaque nas reportagens dos semanários atrás de histórias sensacionais, entrevistando garotas que anonimamente contam casos de sessões de massagem que, segundo elas, terminavam em bolinação e sexo. Por outro lado, os pais apareceram em reportagens televisivas de costas e com a voz distorcida, falando que seus filhos estão “abduzidos” por Oliveira.

“Não existe essa história de lavagem cerebral. As pessoas estão lá porque querem”, afirma o mesmo Moreno. A ioga de Cristovão pode ser classificada como de “alto impacto”, com muita exigência física para “ir além da exaustão”, como o próprio professor define. Sua massagem não fica atrás em agressividade: as primeiras sessões estão descritas como “muito dolorosas” e os clientes saem com hematomas nos locais mais pressionados.

Um ponto que se discute é a formação de Oliveira. Ele afirma ter ficado mais de um ano na Índia aprendendo a variedade “ashtanga vinyasa”, conhecida dentro da ioga por ter exercícios mais pesados.

Mas seu ex-sócio Mário Reinert dúvida da formação desde que visitou em 2005 a cidade Mysore, no sul da Índia, para onde vai anualmente e passa três semanas por temporada. “Ele inventa postura e exercícios, como criou essa história de tomar litros e litros de água para se limpar”, afirmou Reinert.

Não há um sistema de certificação para a área. “Qualquer um pode fazer um curso de final de semana ou nenhum curso, se preferir, e abrir seu instituto. Basta colocar um nome em sânscrito e posar de mestre para que os mais ingênuos considerem o trabalho sério. Não basta ir para a Índia. A Índia está cheia de charlatães profissionais”, sentencia o professor Marcos Rojo, PhD em Ciência da Ioga, coordenador do curso de pós-graduação em ioga na UniFMU e autor do livro “O que é Ioga?” (Brasiliense).

Ele acredita que para ser professor é preciso ter nível superior. “Hoje, em qualquer área de conhecimento, para se considerar professor é preciso um curso de nível superior. Deve-se ter um mínimo de didática, anatomia, fisiologia e outras disciplinas que norteiem um bom professor, independentemente da tradição a qual ele pertença”, complementa.

Rojo lembra que os indianos são muito cuidadosos com suas técnicas. Sobre os rituais que envolvem a limpeza do aparelho digestivo, usado antes de prática intensa de ioga, ele conta que não são feitos em grupo e “não é todo mundo que pode fazer” e “é muito pouco recomendada”.

Já a massagem ayurvédica na Índia é feita por pessoas do mesmo sexo do paciente, justamente para não haver uma ação invasiva. “O primeiro passo da ioga é a não violência e isto significa não violência em todos os níveis”, lembra quando o assunto são as massagens pesadas de Oliveira. “As massagens aplicadas pelo professor em questão, não são massagens ayurvédicas, ou da cultura indiana”, afirma Rojo.

Oliveira não quer se pronunciar sobre o caso. Por meio de sua advogada, Ellen Mesquita, disse que as acusações são “especulações e inverdades”. Nos bastidores, acredita que desafetos estão aproveitando o caso hospitalar para criar uma onda difamatória sobre esse iogue que ganhou projeção com suas três escolas.

Fonte: UOL