Irmã Célia Cadorin perdeu as contas de quantas pílulas milagrosas de frei Galvão tomou durante os 16 anos em que postulou pela causa do frade franciscano, fazendo cerca de 60 viagens entre Roma e Brasil e gastando o equivalente a 316 mil reais para o processo que finalmente chega ao fim, com sucesso.

O beato frei Galvão será o primeiro santo nascido no Brasil, após a cerimônia de canonização que será celebrada pelo papa Bento 16 em São Paulo, no dia 11 de maio.

O trabalho de postuladora, que inclui reunir provas de vida, virtudes e santidade, começou em 1982, quando foi defender a causa da santa madre Paulina, nascida na Itália, mas que se mudou para o Brasil aos 9 anos de idade.

Bem-humorada, Cadorin diz que não há muita diferença entre os dois, apenas “que um é homem e o outro, mulher”. Mas lembra que ambos trouxeram desafios quase divinos, como quando passou um mês nos arquivos secretos do Vaticano à procura de um documento essencial para santa Paulina.

“Frei Galvão teve uma dificuldade que não consegui superar, que era achar a certidão de batismo”, disse Cadorin à Reuters na terça-feira, no Mosteiro da Luz, fundado em 1774 pelo religioso, no centro de São Paulo. “Virei o Vale do Paraíba durante dois meses. E não achei.”

Segundo ela, não se sabe o dia e o mês em que ele nasceu, apenas o ano. Isso ficou comprovado devido a um testemunho feito por ele na Cúria de São Paulo, quando tinha 19 anos, para seu irmão que na época queria ser jesuíta. No documento, ele diz seu nome, idade e cidade natal.

Foi no consistório da última sexta-feira, reunião de cardeais e bispos presidida pelo papa, que ficou decidido que frei Galvão será canonizado no Brasil, abrindo uma exceção importante, já que isto sempre foi feito no Vaticano. Outras canonizações decididas no mesmo dia, de santos de outros países, ocorrerão em Roma.

Futuros santos e beatos

O franciscano deve abrir a porta para muitos outros futuros santos brasileiros. Cadorin também é vice-postuladora de Francisca de Paula de Jesus, conhecida como Nhá Chica, e ajudou no início do processo de irmã Dulce, ambas com milagres reconhecidos e que devem virar beatas em 2008.

No próximo semestre, estão agendadas três beatificações no país. Atualmente, só existem dois beatos brasileiros, frei Galvão, que será só até maio, quando vira santo, e José Anchieta. Para Cadorin, não é o Vaticano que está dando mais atenção ao Brasil, maior país católico do mundo, e sim o Brasil que resolveu trabalhar.

“Nós que acordamos, não é o Vaticano. Os brasileiros achavam que não dava, estavam amarrados muito por causa do dinheiro. E o dinheiro Deus dá, o povo ajuda”, disse.

“O mosteiro, o frei, é tudo feito por aquele trocadinho que o pobre dá. Então, aquela esmolinha que ele dá aqui, que foi sendo guardada e guardada, deu para pagar tudo.”

Cadorin, que não cobra por seus serviços, afirmou que, na primeira parte do processo, de 1991 a 1998, quando aconteceu a beatificação do frei, gastou cerca de 90 mil dólares, o que no câmbio de hoje corresponderia a 190 mil reais, incluindo viagens, estadia e estudos. Na segundo etapa, os custos ficaram entre 45 e 50 mil euros, cerca de 126 mil reais.

“Eu só vinha ao Brasil por serviço, porque certas coisas você tem o segredo, não pode falar nem por telefone, sobretudo quando se trata de milagres”, disse a irmã, que agora mora em São Paulo, no bairro do Ipiranga.

Cadorin, que estudou línguas neolatinas e teologia, contou que esteve 14 vezes com papa João Paulo 2o, mas que não teve a chance ainda de conhecer Bento 16. “João Paulo 2o me chamava de Paulina Galvão”, lembrou, rindo.

Fonte: Estadão