O investigador especial da ONU para o racismo condenou na semana passada a ascensão da islamofobia, especialmente na Europa, onde segundo ele a tendência é explorada por alguns partidos de direita.

Doudou Diène, relator especial da ONU sobre o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e outras formas de intolerância, também acusou o partido mais popular da Suíça, o direitista Partido do Povo Suíço (SVP/UDC) de incitar ao ódio racial.

Ele pediu a suspensão da polêmica campanha do partido com cartazes em que ovelhas brancas expulsam a patadas uma ovelha negra de uma área que representa a Suíça, com o slogan “Pela segurança de todos.” O SVP/UDC acusa estrangeiros de cometerem a maioria dos crimes graves no país.

“No atual contexto, a islamofobia constitui a forma mais grave de difamação religiosa”, disse Diène em um discurso e um relatório ao Conselho de Direitos Humanos, cujos 47 membros estão debatendo a difamação religiosa.

Cada vez mais líderes políticos, órgãos de comunicação e intelectuais “equiparam o Islã à violência e ao terrorismo”, e alguns buscam “silenciar práticas religiosas ao proibir a construção de mesquitas”, disse Diène.

Falando em nome da Organização da Conferência Islâmica (OIC), o Paquistão qualificou de “alarmante” o crescimento da islamofobia. Seu representante, Masood Khan, chamou de blasfemos os cartazes eleitorais suíços e também as caricaturas do profeta Maomé, publicadas originalmente na Suécia e que provocaram indignação em todo o mundo islâmico.

Ele disse que a OIC, que representa 57 países com 1,3 bilhão de muçulmanos, condena todas as formas de terrorismo.

“A mídia internacional continua usando ações equivocadas de uma pequena minoria extremista como pretexto para denegrir todo o mundo muçulmano, bem como a religião do Islã.”

O senegalês Diène disse em seu relatório de 21 páginas que a islamofobia cresceu depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 contra os EUA.

No mundo todo, vários partidos tradicionalmente democráticos “recorrem à linguagem do medo e da exclusão, criam bodes expiatórios e alvejam minorias étnicas e religiosas em geral, e imigrantes e refugiados em particular”.

Na Europa, os muçulmanos enfrentam crescentes dificuldades para estabelecer locais de culto e realizar práticas como jejuns ou sepultamentos religiosos, segundo o enviado da ONU.

“Partidos políticos com plataformas antiislâmicas aderiram a coalizões de governo em vários países e começaram a colocar em prática suas agendas políticas. Enfim, a islamofobia está em processo de permear todas as facetas da vida social.”

O SVP/UDC propôs um referendo para proibir a construção de minaretes em mesquitas do país, onde há 350 mil muçulmanos. Uma proposta similar tramita em Colônia, na Alemanha.

A delegação suíça defendeu seu sistema de democracia direta, onde várias questões são levadas a referendo todos os anos, mas admitiu que “às vezes há opiniões exageradas e lamentáveis sendo expressas”.

“O governo suíço declarou repetidamente seu compromisso em combater o racismo, e o governo suíço vai continuar adotando uma posição clara contra todas as formas de discriminação e xenofobia”, disse o embaixador suíço Blaise Godet.

Fonte: Reuters