Às vésperas de completar 60 anos na quinta-feira, Israel nunca foi tão seguro – e, ao mesmo tempo, tão impopular no cenário internacional. Construção de muro proporciona a sonhada segurança, mas país só perde em impopularidade no mundo para o Irã.

Mais de 1 milhão de turistas invadiram Jerusalém durante o feriado da Páscoa Judaica, há duas semanas. A última vez que tanta gente desembarcou na cidade foi em 1987. Nesses 20 anos, os turistas se mantiveram distantes de Israel e, principalmente, de Jerusalém, por causa dos atentados palestinos. Às vésperas de completar 60 anos na quinta-feira, Israel nunca foi tão seguro – e, ao mesmo tempo, tão impopular no cenário internacional. Uma pesquisa da BBC divulgada há um mês revela que Israel só perde para o Irã nesse quesito. Para 52% dos mais de 17 mil entrevistados em 34 países, Israel exerce influência negativa no mundo.

Seis décadas depois de sua fundação, Israel não inspira mais, no mundo, a admiração dos primeiros anos de existência – quando era visto como a única democracia do Oriente Médio lutando para se desenvolver numa região politicamente complexa e geograficamente árida. O prestígio do país ficou arranhado em grande parte por causa das medidas de linha dura tomadas por seus líderes para acabar com os ataques de grupos radicais palestinos cujo objetivo principal é acabar com o Estado judeu.

O governo israelense conseguiu sufocar a segunda intifada, a revolta palestina contra a ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, na qual mais de mil israelenses e 3 mil palestinos morreram entre os anos 2000 e 2006. O ritmo dos grandes atentados suicidas despencou de 25 por ano, entre 2000 e 2005, para apenas dois, de 2006 a 2008. Apesar dos lançamentos diários de foguetes Qassam da Faixa de Gaza pelo Hamas e pela Jihad Islâmica, as principais cidades do país são, hoje, ilhas de tranqüilidade se comparadas a São Paulo ou Rio. Os restaurantes, shopping centers e cinemas de Tel-Aviv, Jerusalém e Haifa vivem lotados, apesar de ainda contarem com guardas armados nas portas, revistando bolsas e sacolas.

Muro da separação

Israel, no entanto, paga um preço alto por essa relativa calmaria. O país começou a perder prestígio internacional depois que decidiu construir o chamado “muro de segurança” na Cisjordânia – parte cerca de arame farpado, parte barreira de concreto. Originalmente, o projeto, de autoria da esquerda israelense, sugeria a delimitação de uma fronteira clara entre Israel e um futuro Estado palestino, enfraquecendo os direitistas que pregam a continuação da ocupação da Cisjordânia. Mas, no auge da intifada, em 2002, o muro acabou servindo para um objetivo diferente: a separação total entre israelenses e palestinos.

Para afastar os palestinos também das maiores colônias israelenses dentro da Cisjordânia, o então primeiro-ministro Ariel Sharon aprovou um traçado para o muro que corta pedaços do território, praticamente anexando-os a Israel. Paralelamente, o Exército israelense aumentou o número de postos de controle na região, transformando viagens curtas em via-crucis para milhares de palestinos. O conjunto de medidas fez com que a barreira passasse a ser chamada de “muro do apartheid” pela liderança palestina e por personalidades internacionais, como o ex-presidente americano Jimmy Carter.

Para muitos, a obsessão de Israel por segurança é justificada. Afinal, não é segredo que seis décadas não bastaram para que o país fosse aceito pelo mundo árabe, mesmo tendo conseguido assinar acordos do paz com o Egito e a Jordânia. O presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, não perde a oportunidade de prometer “apagar o regime sionista do mapa”. Grupos radicais palestinos também pregam a “libertação” de toda a região por meio do sacrifício de “mártires”, os terroristas suicidas. O Hezbollah, grupo xiita libanês apoiado pela Síria, promete ajudar.

Isso explica o fato de que, apesar da indiscutível força militar de Israel, boa parte dos israelenses não tem certeza se o Estado judeu existirá daqui a 60 anos. Uma pesquisa recente mostrou que, para 52% dos jovens, o país corre risco.

As bravatas de líderes radicais acentuam a herança do Holocausto nazista, trauma que faz parte da identidade israelense. “Quem não teme pelo futuro do Estado judeu esqueceu rápido demais as lições da História”, afirma o ativista de direita Israel Harel. O mesmo pensa o cientista político Yehezkel Dror: “Se o Ocidente, com suas interpretações superficiais da realidade e preocupações humanitárias pontuais, forçar Israel a fazer concessões, o custo será alto para o país e ainda maior para a comunidade internacional”, adverte.

Para o cientista político Shlomo Zener, os traumas e temores nacionais não podem justificar a severidade no modo como são tratados os palestinos. Para ele, a ocupação da Cisjordânia e de Gaza corrompeu o espírito libertário dos primeiros israelenses, que lutaram para criar um Estado moderno, sem perseguições, que servisse de modelo ético depois do extermínio de 6 milhões de judeus na 2ª Guerra. “Vivemos a síndrome da perseguição eterna. E pessoas com medo podem ser perigosas”, alerta Zener.

Fonte: Estadão