Uma mulher no centro de um debate sobre o direito de morrer na Itália foi transferida nesta terça-feira a um hospital onde ela poderá morrer após 17 anos em coma. Ativistas contra a eutanásia abordaram os funcionários da ambulância que a transportou, com alguns gritando “não matem ela”.

A Igreja Católica e ativistas pró-vida fizeram uma campanha para manter Eluana Englaro viva, denunciando o que classificam como sua execução. Outros afirmam que o pai de Englaro está tentando dar a ela a morte digna que ela gostaria de ter.

Sua transferência na nesta terça-feira reiniciou um debate nacional.

O caso de Englaro levantou comparações na Itália com o de Terry Schiavo, a mulher americana que esteve no centro de um debate sobre o direito de morrer até a sua morte, em 2005. O marido de Schiavo, que queria a remoção dos tubos que a alimentavam, contra a vontade dos pais dela, venceu uma polarizada disputa nos EUA que chegou ao Congresso, ao então presidente George W. Bush (2001-2009) e à Suprema Corte.

Em 2007, o Vaticano também entrou no debate, condenando a morte de Schiavo como “arbitrária e apressada”. A igreja classificou a remoção do tubo que a alimentava como uma violação dos princípios do cristianismo e da civilização.

Neste fim de semana, o papa Bento 16 afirmou que a eutanásia é uma “solução falsa” para o sofrimento. Seu ministro da Saúde, cardeal Javier Lozano Barragan, disse ao “La Repubblica” que a remoção do tubo que alimenta Englaro é “um assassinato abominável, e a igreja sempre dirá isso alto”.

Englaro foi transferida em uma ambulância de Lecco à cidade de Udine, nas primeiras horas desta terça-feira, a uma clínica que aceitou realizar o procedimento.

Um pequeno grupo de ativistas anti-eutanásia se reuniu e abordou a ambulância quando ela saía de Lecco, gritando “Eluana, acorde”, “não matem ela” e “Eluana está viva”.

A italiana está em coma desde um acidente de automóvel em 1992, quando ela tinha 20 anos. Seu pai tem liderado uma batalha judicial para poder desconectar o tubo que a alimenta, insistindo que essa seria a vontade da filha.

Um corte italiana aceitou seu pedido no ano passado, criando uma reviravolta política no país católico.

Vittorio Angiolini, advogado da família, se recusou a comentar quais serão os próximos passos que resultarão na morte de Englaro. Relatos da imprensa afirmam que o procedimento de desconexão do tubo que alimenta a mulher começarão nos próximos dias e pode levar semanas para a sua conclusão.

Amato De Monte, o anestesista que acompanhou Englaro na ambulância, disse que ela é bem diferente da jovem mulher apresentada pela imprensa.

Ele defendeu a decisão do pai da italiana em meio às crescentes críticas, afirmando que “Eluana não irá sofrer pois Eluana morreu há 17 anos”.

Membros do governo conservador do premiê Silvio Berlusconi criticaram a medida, e o ministro do Bem Estar Social, Maurizio Sacconi, disse que o governo está investigando a transferência.

Por lei, a Itália não permite a eutanásia.

Pacientes têm o direito de recusar tratamento, mas não há uma lei que lhes permita dar orientações do tratamento que gostariam de receber se ficam inconscientes.

Há reivindicações por uma legislação que preencha a lacuna, mas o assunto é carregado de questões emocionais e religiosas, e as posições diferem dentro dos blocos políticos.

Fonte: Folha Online