Em 20 de maio de 1983, a revista científica “Science” publicou um artigo de autoria de doze pesquisadores franceses, no qual identificavam o agente responsável pela Aids, o LAV, sigla para “Lymphadenopathy Associated Virus”, que seria rebatizado de “vírus da imunodeficiência humana” (HIV).

Por ocasião da descoberta, eles se mostraram confiantes de que uma vacina seria elaborada rapidamente. Hoje, 25 anos mais tarde e depois da morte de 25 milhões, ainda existem incontáveis obstáculos científicos que impedem a sua descoberta.

“Na época em que descobrimos e isolamos este vírus, nós não conseguimos prever nem a amplidão da epidemia que estava por vir, nem a complexidade dos mecanismos biológicos da infecção”, reconhece Christine Rouzioux, uma co-descobridora do HIV, professora na universidade Paris Descartes, e virologista no hospital Necker.

Transmitido por via sexual ou sangüínea, o HIV apresenta problemas inéditos: é um retrovírus, formado por RNA*, que provoca uma infecção crônica. Ou seja, trata-se de uma problemática dupla, em relação à qual os pesquisadores tinham pouco know-how em matéria vacinal. O HIV incorpora de maneira definitiva o seu material genético dentro daquele das células imunizadoras, em particular os linfócitos T CD4 nos quais ele se multiplica. Ele as destrói de modo a liberar seus vírions (partículas viróticas infecciosas), que infectarão outras células.

“Durante os anos 1990, nós tentamos desenvolver vacinas que visavam a estimular a produção de anticorpos, de modo a bloquear as partículas virais circulando no organismo”, explica Frédéric Tangy, o chefe do laboratório de genômica viral e de vacinação do Instituto Pasteur em Paris. “Mas o retrovírus, ao multiplicar-se, opera mutações, o que torna esta estratégia ineficiente”. Então, os pesquisadores tentaram ativar a produção de linfócitos CD8, chamados de “matadores de células”, que reconhecem e eliminam as células infectadas. Mas, para poderem funcionar, os CD8 precisam dos CD4. Uma vez que estes são infectados e depois destruídos, o sistema imunológico fica bloqueado.

“Controladores de elite”

“Até o momento, continuam desconhecidos os mecanismos que permitiriam proteger eficazmente contra esta infecção viral”, constata Françoise Barré-Sinoussi, co-descobridora do HIV e responsável da unidade de regulação das infecções retrovirais no Instituto Pasteur. A pesquisa passara a se focalizar na segunda linha de defesa, a imunidade específica, induzindo a produção de anticorpos. Mas a fase decisiva parece ser mais precoce: “Durante as horas que se seguem à exposição, o HIV altera os sinais da imunidade inata, a qual constitui a primeira barreira de defesa contra toda infecção”, prossegue Françoise Barré-Sinoussi.

Segundo Christine Rouzioux, o estudo dos “controladores de elite” pode fornecer informações preciosas. Trata-se de pessoas infectadas que possuem linfócitos CD8 tão eficientes que, sem precisarem de qualquer tratamento, eles fazem com que a carga viral não possa ser detectada. Esta vantagem deve-se a um perfil genético particular.

Quando o tratamento anti-retroviral tornou o vírus não-detectável dentro do sangue, nem por isso o HIV desapareceu, e nem mesmo anos depois da infecção. Jérôme Estaquier e seus colaboradores do Inserm, do CNRS e do Instituto Pasteur (as três principais entidades francesas de pesquisas científicas voltadas para a saúde) mostraram em 2007 que os gânglios linfáticos da região intestinal constituíam os principais reservatórios do vírus. Resta encontrar um meio para desalojá-los dali.

Enquanto os anti-retrovirais são capazes de deter a infecção, sem curá-la, nenhuma pista visando a encontrar uma vacina deu resultados, apesar dos investimentos de US$ 1 bilhão anuais em favor das pesquisas, no plano mundial. Contudo, a vacina continua sendo a única esperança de lutar contra uma epidemia que não pára de progredir, em particular nos países em desenvolvimento onde o acesso aos anti-retrovirais permanece reservado para poucos.

O HIV NO MUNDO

Em dezembro de 2007, a Onuaids e a Organização Mundial da Saúde (OMS) recensearam 33,2 milhões de portadores do HIV. Em 2007, 2,5 milhões de novos casos de infecção foram registrados e 2,1 milhões de mortes ocorreram em conseqüência da Aids. Esses números apontam uma redução das ocorrências em relação aos anos anteriores, principalmente pelo fato de ter sido introduzida uma maior precisão nas estatísticas levantadas, o que foi o caso na Índia onde ocorreu uma “revisão drástica” dos métodos.

*Nota do tradutor – Os retrovírus são assim chamados porque o seu material genético é constituído por RNA (Ácido Ribonucléico) e não por DNA (Ácido Desoxirribonucléico). Para enfrentar os retrovírus, é necessária uma enzima, a transcriptase reversa, para realizar um processo de transcrição reverso. Ou seja, é preciso produzir DNA a partir de RNA.

Fonte: Le Monde