Neste país onde existem duas Igrejas católicas, uma aprovada por Pequim e outra reconhecida pelo Vaticano, uma abertura gradual vem permitindo que os fiéis sejam menos perseguidos.

Dom Li Jinfeng é um paroquiano estranho e diferente dos outros: o bispo de Fengxiang, um grande povoado poeirento da província do Shaanxi, faz parte do movimento católico da Igreja clandestina chinesa. Ele exerce ilegalmente o seu ministério, mas conta com o apoio benévolo dos dirigentes locais do Partido Comunista… Trata-se de uma situação singular, mas que não é mais tão inédita assim na China de hoje, onde já evoluíram as relações entre o Estado e certos “resistentes” de uma comunidade de católicos para os quais a autoridade do Vaticano era, no passado, a única que contava.

O bispo vive no pequeno presbitério situado atrás de uma igreja cujo estilo pode ser descrito sem risco como barroco, por ser uma espécie de monumental confeitaria arquitetônica que ninguém poderia qualificar de clandestina. Com cerca de vinte metros de altura, ela domina um grande pátio com abertura para uma das grandes ruas da cidade. Plantada no coração de Fengxiang, mas desprovida de toda existência legal, a igreja simboliza todas aquelas “zonas cinzentas” que, na China, atropelam as linhas que separam o proibido, o autorizado e o tolerado.

As relações que o bispo cultiva com as autoridades constituem um sinal das mudanças que ocorreram entre as duas Igrejas: a oficial, dependente do regime, não reconhecida por Roma, e a subterrânea, que obedece ao Vaticano e resiste há muitas décadas ao poder chinês. Quatro milhões de fiéis pertencem à primeira, enquanto cinco a nove milhões freqüentam a segunda. Dom Li Jinfeng é um homem de baixa estatura, de 87 anos, com ótima saúde, alerta e astucioso, com o olhar vivo por trás de um grande par de óculos. Ele fala e lê em latim, aprendeu sozinho rudimentos de italiano e até mesmo de francês.

O seu passado resume por si só as vidas destruídas dos católicos da China Popular. Preso em 1958, sete anos depois da ruptura dos laços entre o Vaticano e Pequim, e no momento em que a repressão contra os crentes de todas as religiões haviam endurecido, ele será removido constantemente de careceres para campos de trabalho, até o final da sua detenção, em 1973. Naquele momento, ele é obrigado a integrar uma unidade para antigos detentos, e torna-se então mineiro.

“Eu consegui, graças a Deus, passar por todas essas provas sem ser prejudicado em demasia”, observa ele hoje, sentado em seu pequeno escritório abarrotado de livros. “Na mina, eu era guarda e não tinha obrigação de descer até o fundo do buraco, mesmo que eu aceitasse de vez em quando fazer isso para ganhar um pouco de dinheiro suplementar”.

Dom Li recupera a liberdade em 1979. O seu predecessor, doente, muito idoso, lhe pede para assumir a sucessão. Em 25 de abril de 1980, ele é nomeado bispo, na clandestinidade absoluta. “A bula do papa, de pele de cordeiro, que anunciava a minha nomeação foi enviada para Hong-Kong, pois eu não podia recebê-la diretamente aqui…”

O prelado nunca aceitou aderir à Associação patriótica dos católicos, fundada em 1982. Esta entidade reúne os católicos de uma Igreja às ordens do poder central, que nomeia ela mesma seus bispos, em geral fazendo pouco caso das orientações da Santa Sede. “Os membros que a Associação enviava para cá, que conheciam evidentemente a minha existência, pediram-me para me juntar a eles em várias oportunidades. Eu sempre recusei, julgando que não era possível tornar-me um membro de uma organização que não reconhecia o Santo Padre…”

Mas, apesar da sua resistência à “formatação”, o bispo forjou “uma relação muito boa com os dirigentes locais”, segundo a sua expressão. Essa boa convivência permitiu-lhe garantir a segurança dos seus 20.000 fiéis, dos seus 40 padres – dos quais 10 estudam no exterior, um deles na França – e dos seus 39 monges e religiosas. “Esta situação é um caso bastante único”, admite.

Um dia, dirigentes comunistas o visitaram para pedir-lhe para cooperar com o governo. Após infindáveis discussões e negociações, os diferentes protagonistas acabaram optando pelo compromisso, preferindo desistir de uma confrontação estéril. Afinal, para o poder, dom Li é também o garante da boa-conduta dos seus fiéis… Católicos da Igreja subterrânea também vieram visitá-lo, tempos atrás. Eles não conseguiam acreditar que ele ainda era um membro do seu movimento. “Eu não ameaço o poder ao trajar a mitra, nem ao erguer a coronha”, diz ele com malícia. Se deixarmos de lado as questões religiosas, estou plenamente de acordo com as autoridades!” Que contraste para o velho bispo! Em novembro de 2001, policiais invadiram o presbitério. Eles lhe ordenaram “levar consigo muitas roupas”, e o mantiveram preso por várias semanas. Ao libertá-lo, aconselharam-no rispidamente a se submeter a “sessões de reeducação”!

A situação de dom Li é “inédita”. Mas ele não é mais o único a ter optado pelo caminho do compromisso, segundo comprovam vários exemplos de “colaboração” com as autoridades por parte de prelados que no passado eram clandestinos. Este novo tipo de relações contribuiu para descontrair o ambiente em todo o distrito. Basta sair de Fengxiang para se convencer disso. Não longe da cidade, a cerca de meia-hora de uma pista que corta altas plantações de milho, uma igreja com dois campanários, construída em 1995, interrompe a monotonia da paisagem. No final do trajeto, chega-se à aldeia de Wa Yaoutou, de 400 habitantes, dos quais 300 são católicos.

“Nós não temos problema nenhum com as autoridades”, explica o Sr. Wang, um camponês cujo pai e o avô eram católicos. Sentado na minúscula sala de estar da sua casa construída na única rua da aldeia, aos pés da igreja, ele se dá por satisfeito com a situação: “Em caso de eventuais dificuldades, basta ir falar com o bispo”. A algumas centenas de metros de lá, as religiosas “clandestinas” de um convento têm pontos de vista semelhantes. A Madre superior recorda-se de que “há três anos, representantes do governo local vieram nos pedir para não morarmos mais juntas. Eles acabavam de descobrir que aqui é um convento! Mas, de dois anos para cá, tudo está indo bem. Alguns dirigentes do partido aparecem de vez em quando para conversar tranquilamente conosco”.

A algumas dezenas de quilômetros dali, mais adiante no campo, num outro convento de monges franciscanos, os Irmãos admitem que a sua situação de “clandestinos” melhorou consideravelmente. O convento organiza-se em volta de um conjunto de edifícios bastante vasto, uma grande capela, um refeitório, uma cozinha, células monásticas, salas de trabalho, uma horta… Ou seja, tudo o que é preciso para garantir a esta dezena de reclusos um grau relativo de autarquia.

O irmão Scotus, que retornou recentemente de uma estada de alguns anos nos Estados Unidos, lamenta, ainda assim, “gozar de uma liberdade religiosa ainda limitada”. Em 1992, conta ele, a polícia invadiu o mosteiro e expulsou todos os jovens novatos. Apenas os mais idosos foram autorizados a permanecer. Mas as coisas mudaram: “Desde o reconhecimento de dom Li pelas autoridades, este último tem condições de garantir a nossa proteção”.

No momento em que estão falando de uma possível abertura diplomática entre o Vaticano e Pequim, tais aproximações entre autoridades e bispos despontam como um sinal de que mudanças estão por vir. O Vaticano não esconde a sua intenção de reconhecer a República Popular, e se diz disposto a renunciar ao seu apoio a Taiwan. Mas esta perspectiva não parece constituir uma prioridade para o governo central em Pequim. “A China ainda não se decidiu [a normalizar as suas relações com o Vaticano]”, estima Beatrice Leung Kitfun.

Para esta especialista das relações entre o Vaticano e Pequim, adida cultural na universidade de Macau, a atitude do governo chinês adota atitudes das mais “esquizofrênicas”: ele pretende prosseguir as discussões com os enviados do papa, mas sem verdadeiramente ter a intenção de ver essas negociações chegarem a um resultado. “Restabelecer relações diplomáticas com o Vaticano obrigaria Pequim a aliviar o seu controle ideológico”, explica ela, numa entrevista publicada recentemente no diário de língua inglesa de Hong-Kong “The South China Morning Post”.

Segundo esta universitária, a hierarquia pequinesa ainda considera as religiões como forças suscetíveis de “galvanizar” movimentos sociais que poderiam pôr o sistema em perigo.

Ainda assim, a mudança de comportamento dos fiéis, assim como dos seus padres, pode acabar atropelando realidades que no passado eram petrificadas: “99% dos católicos da Igreja oficial reconhecem o papa e querem que os seus bispos sejam legitimados por Roma; aliás, 85% destes últimos foram reconhecidos pelo Vaticano”, sublinha o pesquisador Jean-Paul Wiest, um especialista no catolicismo chinês da universidade de Hong-Kong.

Este estudioso acrescenta: “Hoje, a Associação patriótica pode vir a ser gangrenada, ou bloqueada do interior por cristãos fiéis a Roma, o que mostra a qual ponto a preocupação do governo de Pequim de criar uma Igreja separada voltou-se contra ele”. Com isso, um duplo movimento parece estar se delineando: clandestinos pactuam com o poder, enquanto os oficiais buscam o aval de Roma…

A boa-vontade que Bento 16 mostrou ao convidar para um encontro no Vaticano, em 2005, três bispos designados pelas China, segue esbarrando apesar de tudo nas intransigências de Pequim: esses três bispos não puderam ir a Roma, enquanto a Associação patriótica não hesitou, em 2006, a nomear três novos prelados sem se preocupar com a aprovação do papa. As situações variam, apesar de tudo, conforme as províncias. A do Hebei, por exemplo, situada nos arredores de Pequim, é um caso de escola.

Apenas no distrito de Gaosheng, coabitam um milhão de católicos, sendo que 80% deles abraçaram radicalmente a causa da clandestinidade, mas as prisões de “subterrâneos” continuam, segundo afirmam os seus representantes. Em lugares como esses, certos prelados ameaçam os seus fiéis de ex-comunhão caso eles ousarem comparecer a missas rezadas por padres da Igreja oficial.

Num baluarte de “clandestinos” provinciais, nós pudemos conhecer um dos representantes de uma resistência ainda selvagem. A atitude deste padre de cerca de 40 anos, que vive num “mosteiro” clandestino que mais se parece com uma casa de campo anônima, no bairro católico de uma cidade industrial envolta nas fumaças de uma espessa poluição, condiz com a sua situação: ele nos faz prometer de não revelar nem a sua identidade, nem o nome da sua cidade, nem mesmo o da sua província, por temer uma repressão que o fez sofrer sobremaneira, alguns anos atrás. “No meu distrito”, diz, “as perseguições ainda são numerosas. Recentemente, nove padres foram presos, dos quais dois foram libertados mais tarde, por razões de saúde”.

Ele mesmo foi preso em duas oportunidades. A primeira em 1992, que lhe valeu vários dias de residência vigiada num hotel. A segunda em 1996, quando ele passou um mês num centro de detenção. Entretanto, ele admite que fora do seu próprio distrito “a situação melhorou de modo geral na China. Na maior parte do tempo, os padres são presos por poucos dias apenas. Antes do ano de 2000, a duração das detenções variava entre um e três meses”. Mas, ainda assim, continua sendo muito difícil avaliar o número de padres ou de bispos ainda encarcerados na China ou condenados a longas penas.

O padre se recusará a nos fazer visitar o seu “mosteiro”, por temer que um estrangeiro possa ser visto penetrando na sua casa. Ele nunca reza abertamente a missa. Nenhum fiel o visita. Sob o seu teto, ele vive junto com uma meia-dúzia de Irmãs, todas vestidas “à paisana”. Quando nós o encontramos, discretamente sobre uma ponte, ele chegou de moto, levando na garupa uma freira com capacete e trajando um casaco anorak…

No ano passado, ele organizou reuniões secretas para convencer alguns dirigentes da Igreja clandestina a não cederem às sereias governamentais que os conclamavam a se juntarem à Igreja oficial. Este homem é uma espécie de missionário. Ele afirma “pregar a boa palavra e organizar leituras bíblicas em cerca de dez províncias”. Para ele, o governo de Pequim é um “governo de pagãos” que não deveria nomear os bispos.

Este padre, um clandestino itinerante, proibido de possuir um passaporte, parece isolado nessas remotas províncias onde nem o Vaticano, nem a Igreja oficial estão em condições de controlar os atos dos padres. Tal como comprova o seguinte caso, extremo, no Hebei: há três anos, um deles desertou repentinamente da sua paróquia e se juntou aos delírios de um culto protestante que professa que Jésus voltou para a terra sob a aparência de uma chinesa. Foi preciso que homens de fé e de razão interviessem para impedir que o iluminado fizesse escola, e impedir assim a danação de almas simples, tentadas por este novo caminho…

Fonte: Le Monde