Entre 12.000 e 17.000 missionários sul-coreanos vêm atuando com o propósito de difundir a mensagem cristã no exterior por todo o planeta. Neste ranking, a Coréia do Sul está colocada logo atrás dos Estados Unidos (40.000). Os seus missionários estão presentes nas regiões mais perigosas.

Um homem idoso, numa atitude de meditação, que apóia a sua testa em suas mãos juntas, com os cotovelos descansando sobre um genuflexório: esta imagem é a do pai de Bae Hyung-kyu, o pastor de 42 anos que esteve retido como refém pelos talebans junto com 22 outros coreanos do sul, e cujo corpo crivado de balas foi descoberto em 25 de julho em algum ponto do deserto da província afegã de Ghazni.

Esta imagem constitui mais uma demonstração do enraizamento da fé cristã neste país de tradição budista, no qual, apesar de tudo, cerca de 30% da população é protestante (8,5 milhões) ou católica (5,1 milhões). As igrejas sul-coreanas também se caracterizam por estarem entre as mais ativas do mundo quando se trata de difundir a mensagem cristã no exterior.

Entre 12.000 e 17.000 missionários sul-coreanos vêm atuando com este propósito por todo o planeta. Neste ranking, a Coréia do Sul está colocada logo atrás dos Estados Unidos (40.000). Os seus missionários estão presentes nas regiões mais perigosas. Em 2004, um aspirante a pastor e intérprete foi degolado no Iraque pelos seus seqüestradores.

Eles também se mostram atuantes do lado chinês da fronteira com a Coréia do Norte, onde a meta é ajudar os refugiados a emigrarem rumo a algum país do sudeste asiático, de onde eles são encaminhados para a Coréia do Sul. Muitos desses missionários foram presos pelas autoridades chinesas e permanecem detidos até hoje.

A “Jerusalém da Ásia”

O pastor Bae, que havia renunciado a uma carreira de empregado numa grande empresa para estudar a teologia, era um desses missionários que viajam periodicamente para o exterior, no quadro de ações humanitárias. Ele era membro da pequena comunidade presbiteriana de Saemmul, em Bundang, na periferia de Seul. Ele partira para o Afeganistão com um grupo de jovens com idades de 20 a 35 anos, com o objetivo de praticar ações humanitárias na região de Kandahar.

Seo Jung-bae, cuja filha e o filho estão entre os reféns, enviou um apelo aos seqüestradores no qual ele tentou lembrar-lhes dos seguintes fatos: “Os meus filhos foram até vocês para proporcionar-lhes ajuda, pensando que os afegãos eram seus amigos”.

Depois das Filipinas, a Coréia do Sul desponta como o país da Ásia mais evangelizado. A fé cristã, introduzida na península a partir do século 18 por coreanos que haviam tomado conhecimento na China de textos deixados pelos jesuítas (expulsos em 1722), foi inicialmente clandestina, a seguir perseguida, e expôs seus fiéis ao martírio. Ela conheceu uma expansão com a abertura do país, no final do século 19.

A Coréia tornou-se então uma terra de missões. As Igrejas protestantes, logo seguidas pela Igreja católica (principalmente por obra das Missões Estrangeiras de Paris), foram particularmente ativas na parte norte do país. Durante os anos 1920, Pyongyang era considerada como a “Jerusalém da Ásia”, por abrigar importantes congregações presbiteriana e metodista.

Em muitos casos, são os descendentes desses cristãos do Norte que, refugiados no Sul depois da chegada dos comunistas em 1945, mostraram ser os mais atuantes em evangelizar a República Popular Democrática da Coréia (RPDC). Na parte sul do país, foi um arcebispo francês e vicário apostólico, Gustave Charles-Marie Mutel, que promoveu a construção em Seul da catedral de Myong-dong, em 1895.

Do tempo das ditaduras militares no sul, que se mantiveram no poder até o início dos anos 1990, a mensagem da igreja católica, em função do seu compromisso social de defender os direitos e a dignidade do indivíduo, foi difundida além dos limites da comunidade dos fiéis. Neste contexto, a catedral de Myong-dong foi um dos locais de encontro e de refúgio para os dissidentes.

As grandes igrejas protestantes (e a multidão de seitas diversas que se desenvolveram na sua esteira) dão mostras atualmente de um proselitismo que chega a beirar a militância, com o objetivo de atrair os jovens e arrecadar doações. A realização de missões no exterior faz parte deste ativismo.

Fonte: Le Monde