O porta-voz do Conselho Representativo das Associações Negras (CRAN), Louis-Georges Tin, foi editor de um Dicionário da Homofobia (PUF, 2003). “As tradições religiosas com frequência contribuem para reforçar a homofobia”, afirma Tin.

Confira entrevista abaixo:

Le Monde: Em 17 de maio, será realizada a 6ª edição do Dia Mundial Contra a Homofobia, que você criou. Não há uma multiplicação excessiva dessas datas anuais consagradas a este ou aquele tema da sociedade?

Acho que não. Essas datas permitem que a sociedade civil se aproprie da agenda política e introduza nela temáticas de certa forma negligenciadas por seus dirigentes. Elas respondem, portanto, a uma exigência democrática.

Como você decidiu, em 2005, propor esta data?

Propus esta data a inúmeras associações em todo o mundo, que acharam a ideia muito interessante e a adotaram. Eu também a propus às autoridades públicas, e depois ela foi reconhecida oficialmente pela União Europeia, pela França e por vários outros países.

Esta data foi escolhida porque foi no dia 17 de maio de 1990 que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais. É uma data internacional, positiva, que nos convida também a pedir que se faça pelos transsexuais no futuro o mesmo que foi feito pelos homossexuais no passado.

A França foi o primeiro país do mundo a retirar a transsexualidade da lista de doenças mentais, em 2009, durante o Dia Contra a Homofobia e a Transfobia, e esperamos que ela leve esta batalha para a OMS.

O que é feito nesta data?

Em mais de 60 países em todo o mundo, haverá conferências, exposições, festivais, ações nas ruas. Decisões políticas são tomadas. Na França, há mais de 150 eventos em mais de 40 cidades.

Em 2010, o tema será a “Homofobia e as Religiões”. O que vocês esperam obter das diversas autoridades religiosas?

As tradições religiosas com frequência contribuem para reforçar a homofobia, por isso escolhemos o tema. Este ano, não pedimos que os crentes e especialmente os responsáveis religiosos aprovem a homossexualidade mas, algo bem diferente, que desaprovem a homofobia. Principalmente quando se trata de violências cometidas em nome de um Deus, qualquer que seja. Não pretendemos entrar no terreno da teologia, que não é o nosso; pedimos aos teólogos que venham para o terreno dos direitos humanos, que concerne a todos nós.

Assim, na França, organizamos um colóquio na Assembleia Nacional, do qual participaram os representantes oficiais da Conferência dos Bispos da França, da Federação Protestante, do Grão-Rabinato, da Mesquita de Paris e da União Budista da França. Foi um evento totalmente inédito.

Nós redigimos, junto com a Igreja da França, uma oração universal pedindo o respeito à dignidade de cada um, por ocasião desta data. Para o Islã da França, é também uma ocasião histórica para abandonar o preconceito que quer que os muçulmanos sejam obrigatoriamente homofóbicos.

O que você pensa das declarações recentes de um cardeal que relacionou a pedofilia na Igreja à homossexualidade?

Ele só disse o que muitas pessoas homofóbicas, na Igreja ou fora dela, pensam normalmente. Por outro lado, a novidade foi o escândalo internacional que essas declarações suscitaram. Há alguns anos, quem teria se incomodado com isso além de alguns militantes? É sinal de que os tempos estão mudando. Está na hora do Vaticano se dar conta disso…

As ações homofóbicas estão aumentando na França?

Não há uma pesquisa global sobre o assunto. Nós temos os números da associação SOS-Homofobia, que estão aumentando. Mais é difícil de saber se isso significa um aumento da realidade homofóbica ou da propensão a denunciar essa realidade. Entretanto, muitas pessoas que deveriam denunciá-la ainda não o fazem, com medo de se expor à uma estigmatização social. Seriam necessárias mais pesquisas sobre a vitimização na França, para estabelecer com mais precisão o grau da violência homofóbica ou transfóbica.

Você compartilha da opinião daqueles que dizem que a recusa do casamento homossexual na França é uma homofobia do Estado?

Eu concordo. Acredito que houve um tempo, em certos países, em que os casamentos entre negros e brancos eram proibidos, isso não era racismo? Há países em que as mulheres não podem se casar como querem, isso é não é sexismo? Há países onde os homossexuais não podem se casar como querem. Acho que a conclusão é óbvia.

Em 2006, você dizia que 80 países ainda consideravam a homossexualidade um crime, isso ainda é assim?

E em sete países, principalmente no arco do Oriente Médio, a pena de morte é exigida contra os homossexuais, com base na sharia. Em 2006, lançamos um apelo “pela descriminalização universal da homossexualidade”. Esta petição foi amplamente apoiada por personalidades como Jacques Delors, artistas como Meryl Streep, prêmios Nobel como Desmond Tutu, Dario Fo, etc.

Nossa campanha resultou numa declaração à Assembleia Geral das Nações Unidas, apresentada por Rama Yade, em 2008. Mas trata-se apenas de uma declaração, um texto, simbólico, forte, mas sem valor de lei. É necessária uma resolução, e para isso nós devemos convencer mais Estados, obter uma maioria e uma decisão que em seguida deva ser aplicada.

Além das questões institucionais, como o casamento, como você avalia a situação social da homossexualidade na França hoje?

As coisas estão melhores. Dois terços dos franceses são favoráveis ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Há cada vez mais ações no âmbito social, e algumas medidas importantes no âmbito governamental. Mas, principalmente para os jovens, a homofobia continua forte. Mesmo num ambiente racista, uma criança negra tem todas as chances de crescer numa família negra onde a sua “diferença” não é percebida como tal. Isso não existe para os jovens homossexuais, que em geral crescem em famílias heterossexuais.

Portanto, se são expostos à homofobia social, eles não necessariamente encontrarão dentro de sua família o apoio de que precisam. Muitos exemplos mostram que eles assumem um risco importante ao fazê-lo. Inúmeras famílias ainda rejeitam seus filhos quando eles revelam sua homossexualidade. Os jovens preferem, portanto, ficar no silêncio, o que é uma fonte de depressão, de aflição. Nos pátios das escolas, no mundo dos esportes, na vida cotidiana, os insultos homofóbicos ainda são frequentes, às vezes sem importância para aqueles que os fazem, mas muito duros para os que os recebem.

A França é um país de refúgio para os homossexuais perseguidos em suas nações?

Mais ou menos, mas é necessário levar em conta a situação reservada aos imigrantes. Os países mais abertos à homossexualidade não são necessariamente os mais abertos à imigração.

Nos encontramos recentemente com o gabinete de Eric Besson e esperamos medidas fortes para que os funcionários responsáveis pelo direito de asilo recebam uma melhor formação para acolher os refugiados perseguidos por conta de sua orientação sexual ou de sua identidade de gênero. Mas ainda não chegamos lá…

Fonte: Le Monde