Em 19 de setembro, o canal de televisão americana CBS vai estrear “Kid Nation”, um novo programa de reality show que será protagonizado por crianças. Durante a primavera, quarenta meninas e meninos com idades de 8 a 15 anos foram “abandonados” à sua própria sorte, ao longo de quarenta dias, em Bonanza City, uma aldeia situada no deserto do Novo México.

Diante das objetivas das câmeras, esses jovens pioneiros tiveram de se virar sozinhos para reconstruir uma cidade e uma sociedade, sem que lhes fosse permitido manter qualquer contato com os seus pais, nem obter qualquer conselho dos poucos adultos que estavam com eles, simplesmente alguns psicólogos cuja tarefa consistia em “manter a paz”.

Os familiares assinaram contratos de 22 páginas em que autorizavam os produtores a embarcarem os seus rebentos rumo a um lugar “perigoso”. Uma das cláusulas os proibia de falar do programa para pessoas não envolvidas no projeto, sob pena de uma multa de US$ 5 milhões (R$ 10 milhões).

Faltando três semanas para a exibição do primeiro episódio, pouco se sabe em relação aos detalhes do conteúdo do reality show. “É o mesmo que ficar acampado em condições difíceis”, explica Peggy, a mãe de um menino de 12 anos que participou do programa. Mas “Kid Nation” já vem sendo o objeto de várias queixas.

Uma mãe, cuja filha de 12 anos foi queimada no rosto quando estava cozinhando, atacou os produtores na justiça. A sua queixa motivou o secretário da justiça do Estado do Novo México a ordenar um inquérito sobre as condições de trabalho durante as filmagens.

Trabalho de menores

“É horrível, eu nunca tinha visto um tamanho desprezo pela vida das crianças”, denuncia Paul Petersen, que trabalhou como ator na juventude e que dirige o A Minor Consideration, um grupo encarregado de vigiar o trabalho dos menores na indústria do cinema e da televisão. Por sua vez, a Federação Americana dos Artistas da Televisão e do Rádio (Aftra), que representa os artistas, vai investigar a ocorrência de eventuais violações das leis sobre o trabalho das crianças, durante aquelas filmagens.

“A Aftra irá efetuar todas as diligências legais e morais, com o objetivo de proteger os direitos dos artistas e das crianças que participaram deste programa”, declarou Kim Roberts Hedgpeth, o seu diretor executivo.

Os responsáveis do canal CBS vêm falando em “acusações irresponsáveis” e afirmam ter respeitado todas as medidas de prudência e de segurança. A emissora se defende, valendo-se das leis que enquadram o emprego das crianças, bem menos estritas no Novo México do que na Califórnia (um Estado que limita os horários de trabalho, e obriga os empregadores a reservarem várias horas para a educação, todos os dias…).

Tanto que a indústria do cinema e da televisão, que emprega crianças como atores, está dispensada de aplicar a legislação federal sobre o trabalho dos menores.

Fonte: Le Monde