A decisão do Vaticano de reafirmar o celibato para os sacerdotes católicos foi considerada pelo ex-franciscano e teólogo brasileiro Leonardo Boff (foto) como uma nova demonstração de “rigidez da Igreja Católica Romana”.

Em declarações à Efe, Boff, ex-franciscano que renunciou ao sacerdócio em 1992 e está casado, disse que a Igreja “se esquece que existem outras quatro igrejas católicas, embora menores, nas quais o celibato é facultativo”.

Além disso, afirmou que “todas as demais igrejas, entre elas as evangélicas, deixaram o celibato como algo facultativo”.

Segundo Boff, com o tempo a Santa Sé terá que abordar o assunto, pois faltarão sacerdotes. “Muitos jovens gostariam de trabalhar na Igreja e não o fazem porque consideram o celibato uma imposição muito rígida”, declarou.

Para o teólogo brasileiro, para quem o celibato é uma criação jurídica e não um mandato cristão, “a Igreja Católica Romana vai na contramão da tendência geral de todas as igrejas e se torna co-responsável pela crescente falta de padres no mundo todo”.

De Buenos Aires, a presidente honorária da Federação Latino-Americana de Sacerdotes Casados, Clelia Luro de Podestá, lamentou a decisão do Vaticano e disse que sua entidade continuará defendendo o direito dos sacerdotes de se casarem.

“Caminhei por todo o mundo com meu marido pedindo o celibato optativo e esperando que apareça um Papa que entenda esta posição e não fazer uma Igreja paralela, que a nosso entender não serve”, disse à Efe a viúva do ex-bispo católico argentino Jerónimo Podestá.

“Nós acreditamos que é uma opção para se integrar no mundo, com as pessoas, com as comunidades de base”, declarou Luro, para cuja organização, que integra nove países, a Igreja “é o povo de Deus”, embora “não deixamos de reconhecer o Papa”.

Na mesma linha de Boff, ela disse que “há muitos bispos no mundo” que pedem a permissão de matrimônio para os sacerdotes, pois muitos deles deixam o ministério por causa da obrigatoriedade do celibato.

Na Colômbia, o secretário da Conferência Episcopal, monsenhor Fabián Marulanda, disse à Efe que se trata de “um tema em certa forma recorrente e polêmico”.

Segundo Marulanda, com o celibato “não estamos diante de um dogma de fé”, pois “é uma graça, um dom”, e a Igreja “não considera nem necessário nem oportuno mudar esta regra, que embora não tenha sido estabelecida e não tenha um fundamento bíblico” é muito apreciada.

Por esta razão, considerou “difícil que se renuncie a ela”.

Marulanda acrescentou que “a Igreja tem um sistema de formação para que os candidatos ao sacerdócio saibam qual é o compromisso e também para que testem a si mesmos e não aspirem, a primeira vista, o sacerdócio”.

Da República Tcheca, cuja hierarquia católica regularizou vários casos de homens casados que foram ordenados durante o comunismo, flexibilizar a questão do celibato sacerdotal “não está na ordem do dia”, disseram à Efe fontes ligadas ao arcebispo Miloslav Vlk.

De acordo com a Santa Sé, cerca de 30 sacerdotes casados que exerciam seu Ministério na clandestinidade durante a ditadura comunista (1948-1989) regularizaram sua situação naquela época passando para o rito greco-católico, que contempla o casamento para os sacerdotes.

Para o presidente da Comissão de Comunicação da Conferência Episcopal da Guatemala, o bispo Gonzalo de Villa, não é nenhuma surpresa que o Vaticano reafirme a vigência do celibato.

“Evidentemente, não é surpresa alguma, pois é a política mantida pela Igreja Católica por mais de um milênio”, declarou o bispo à Efe.

Menos parco em seus comentários foi o porta-voz da Igreja Patriótica católica chinesa, Liu Bainian, que afirmou estar “totalmente de acordo” com a decisão da Santa Sé.

“É natural que os sacerdotes mantenham o celibato, pois cumprirão seus votos com Deus”, disse o porta-voz da Igreja Patriótica, que embora desligada de Roma, por vezes concorda com as decisões do Papa.

O Vaticano encerrou ontem novamente as portas para a readmissão ao Ministério dos padres de rito latino casados e reafirmou o “valor do celibato sacerdotal segundo a tradição católica”.

Fonte: EFE