Missa de domingo, batizado, casamento ou curso para noivos. A vira-lata Letícia sempre está presente nas cerimônias que acontecem na igreja da Cruz Torta, no Alto de Pinheiros (zona oeste de SP).

O interesse dela, porém, não está nas celebrações, mas, sim, em seu dono: o padre Ilson Frossard, 81. “Ela é minha sombra”, diz, sem exageros.

Bem à vontade e sem latir uma única vez, ela circula pelo altar, olha para o padre, se coça, espreguiça, olha mais uma vez para o padre, abana o rabo e passeia entre os fiéis –alguns lhe fazem um afago. “Dá até uma descontraída na missa”, conta Gislene Machado, 35, que costuma assistir à cerimônia de domingo ao lado do marido, Sidney Bant, 38. E se o freqüentador quiser levar seu animalzinho? O padre não se opõe.

Com a pelagem branca, manchada de preto e rabo peludo, Letícia não tem idade certa. “Ganhei-a já adulta há uns seis anos. Ela tinha sido atropelada e estava sendo tratada na veterinária onde levo os meus outros cachorros”, relembra o padre, que tem ainda outros oito cães –o décimo morreu há menos de um mês.

Desde então, Letícia não desgrudou mais do dono. Anda para todos os lados com ele e sem coleira. Cuidadosa, atravessa as ruas movimentadas pela faixa de pedestre. “É mais fácil eu ser atropelado do que ela de novo”, brinca o padre.

Uma vez, em visita à catedral da Sé, acabou sendo expulsa por um vigia enquanto o padre Ilson se distraiu. Ficou perdida por dez horas. O dono, aflito, procurou-a pela igreja e nas redondezas da praça, mas, após busca incessante e porque devia voltar à paróquia para celebrar um casamento, pediu ao incrédulo dono do estacionamento onde deixara o carro para lhe telefonar no caso de a cachorra aparecer no local. Foi com alívio e sem estranhamento que recebeu o recado para ir buscá-la. “Desde esse dia, ficou depressiva, mais quieta”, conta.

“Zoológico”

Ordenado padre há 53 anos, ele está à frente da Cruz Torta –oficialmente paróquia Nossa Senhora Mãe do Salvador–, faz 35 anos. “Minha primeira e última paróquia”, diz.

Natural de Divino, cidade mineira com menos de 20 mil habitantes, vive em São Paulo “desde sempre” –nos últimos anos em uma casa de campo em Cotia, ou Embu (“tanto faz, fica ali perto da rodovia Raposo Tavares”), com os seus nove cachorros. Para passar o dia na paróquia, vão apenas alguns. No local, há também quatro gatos. “Eu tinha lá fora pavão, ganso, pato, galinha-d’angola, macaco, mas recebi uma carta anônima ameaçando dar veneno aos animais se eu não os tirasse dali. Não teve jeito, levei tudo embora”, conta resignado.

Até Jesus

Na visão da Arquidiocese de São Paulo, o gesto do padre Ilson de permitir a presença da cachorra é visto sem desrespeito nenhum. “É uma atitude muito bonita. Não há incômodo nenhum nem atrapalha. Tem algo de franciscano mesmo”, afirma o padre Juarez Pedro de Castro, secretário de comunicação da arquidiocese.

“Se quando Jesus Cristo nasceu havia uma vaca e um burro presentes, porque haveríamos de considerar a cachorra no altar uma falta de respeito?”, questiona. Segundo o padre Juarez, toda paróquia pode receber animais nas suas cerimônias, mas, que ele saiba, apenas a Cruz Torta conta com a cena “pitoresca”, nas palavras dele.

Fonte: Folha Online