O líder dos 77 milhões de anglicanos do mundo, arcebispo Rowan Williams (foto), de Canterbury, disse que a comunidade anglicana talvez tenha de se dividir para pôr fim a um embate cada vez mais acirrado em torno da ordenação de bispos homossexuais.

Em uma manobra que, segundo analistas, acabará por excluir os norte-americanos da comunidade anglicana mundial, Williams propôs que as igrejas sejam instadas a assinar um pacto, permitindo que algumas tornem-se integrantes mais plenos da comunidade do que outras.

“As igrejas preparadas para assumir isso, como uma expressão de sua responsabilidade com as outras, estariam dispostas a limitar suas liberdades locais em nome de uma participação mais ampla. Outras podem não querer fazer isso”, disse em uma longa declaração divulgada por seu gabinete na terça-feira.

“Chegaríamos a um cenário em que haveria igrejas ‘constituintes’ da comunidade anglicana e outras ‘igrejas em associação’, ligadas por laços históricos e talvez pessoais, alimentadas a partir das muitas fontes comuns, mas sem se associar com uma comunhão sacramental única e irrestrita e sem dividir as mesmas estruturas constitucionais.”

Membros conservadores e liberais da comunidade anglicana enfrentam-se desde que, em 2003, foi ordenado bispo Gene Robinson. Robinson transformou-se no primeiro bispo abertamente homossexual dos 450 anos de história da Igreja.

Os anglicanos da África, em especial, condenaram a manobra, afirmando que a homossexualidade é proibida pela Bíblia e que era moralmente condenável.

A disputa aprofundou-se no começo deste mês, quando a Igreja Episcopal dos EUA escolheu uma bispa liberal para liderá-la. A mulher é a primeira representante do sexo feminino a comandar a Igreja Episcopal. A ordenação de mulheres como bispos foi aprovada pelos anglicanos 30 anos atrás.

Em meio a esforços para pacificar a comunidade anglicana, cada vez mais dividida, a Igreja Episcopal dos EUA aceitou, na semana passada, tentar evitar a ordenação de mais bispos homossexuais mas, segundo comentaristas, a manobra não seria suficiente para acalmar as desavenças.

Falta de estrutura

Em sua proposta, que, conforme ressaltou, não era nenhum tipo de decreto e que deveria ser debatida detalhadamente ao longo dos próximos anos, Williams disse que a Igreja tinha de mudar para sobreviver.

“O que falta para nossa comunidade é um conjunto de estruturas maduras e capazes de lidar com as divergências de opinião surgidas inevitavelmente em um mundo de comunicação global dinâmica e de grande variedade cultural”, afirmou.

“Os acordos tácitos existentes entre nós precisam ser traduzidos de forma clara –não para o bem de um mecanismo de controle central, mas a fim de garantir que continuemos falando a mesma língua.”

O Conselho Anglicano Americano, um grupo conservador dentro da Igreja Episcopal que se opôs à ordenação de Robinson, recebeu com satisfação a proposta de Williams, mas disse que medidas provisórias eram necessárias para impedir que paróquias saíssem da Igreja Episcopal antes de um plano ser adotado.

Algumas igrejas e dioceses pediram para ser colocadas sob o comando de bispos mais conservadores da África e da América Latina e, de acordo com o Conselho Anglicano, mais medidas do tipo podem surgir dentro em breve.

As desavenças dentro da comunidade anglicana dos EUA também ameaçam provocar batalhas jurídicas em torno de bens da Igreja.

“Tememos que dezenas de milhares de indivíduos abandonem o anglicanismo para sempre a menos que uma intervenção imediata e preventiva seja realizada”, afirmou o órgão em um comunicado.

“A situação da Igreja nos EUA está se deteriorando rapidamente e é fundamental agir agora a fim de evitar a ‘balcanização’ de toda a comunidade anglicana.”

Alguns comentaristas disseram que o plano de Williams representaria um “cisma”. O jornal The Times, da Grã-Bretanha, afirmou na quarta-feira que o plano acabaria tirando os norte-americanos da comunidade anglicana mundial e advertiu: “As repercussões dentro da Igreja norte-americana serão profundas”.

Fonte: Último Segundo