O colunista da Folha de São Paulo, Tony Góes, criticou em sua coluna, os líderes evangélicos, principalmente, Silas Malafaia e Marco Feliciano e disse que “muita besteira vem sendo dita”.

Confira a coluna abaixo:

A incorporação do Ministério da Cultura pelo da Educação vem causando reações apaixonadas. Artistas estão ocupando prédios públicos e realizando protestos, até mesmo no Festival de Cannes.

A gritaria é tão grande que Michel Temer recuou. Ao perceber que havia comprado uma briga inútil (a economia proporcionada pela medida é pífia) e desgastante (a classe artística tem grande poder de mobilização), o presidente interino está analisando outras propostas sobre o que fazer com as atribuições do extinto ministério.

Para aliviar outra de suas gafes, Temer também quis por uma mulher no comando do novo órgão. Cinco delas já recusaram o convite, inclusive Marília Gabriela, Bruna Lombardi e Daniela Mercury. As redes sociais chegaram a brincar que a próxima seria Gisele Bündchen.

Mas nem todas as manifestações sobre o assunto foram contra a extinção do MinC. Muita gente apoiou a medida, iludida pela noção errônea de que qualquer iniciativa estatal de fomento à cultura só serve para distribuir benesses aos apaniguados do governo.

Poucos entendem como funciona a Lei Rouanet. Menos ainda encaram a cultura como uma política fundamental do Estado. Não é preciso nem citar a França, onde o Ministério da Cultura é peça-chave da máquina governamental. Aqui mesmo ao lado, no Peru, sucessivos presidentes vêm encampando políticas de apoio ao setor, com resultados surpreendentes.

O saldo positivo dessa polêmica é que mais brasileiros estão discutindo o tamanho que o Estado deve ter, e não só na cultura. O negativo é que muita besteira vem sendo dita. E as mais reluzentes saíram das bocas de Silas Malafaia e Marco Feliciano, os líderes evangélicos de maior projeção do país.

Malafaia, com sua ortografia inventiva e a delicadeza que lhe é peculiar, tripudiou dos que chama de “esquerdopatas” em seu perfil no Twitter. Em seguida embarcou num acalorado bate-boca com seus detratores, um desperdício de tempo e neurônios de todos os lados.

Ainda mais chocante foi o vídeo divulgado pelo deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) nesta terça-feira (17). O pastor jamais se notabilizou por propor legislação, mas não perde uma oportunidade de aparecer quando surge uma controvérsia.

Agora ele manda a classe artística procurar o Ministério do Trabalho, implicando, de maneira ofensiva, que são todos vagabundos.

Tudo isto seria engraçado, não fosse um pequeno detalhe. Todas as religiões gozam de isenção tributária, garantida por uma cláusula pétrea da Constituição. Criada no final do século 19 para amaciar a separação entre a Igreja Católica e a incipiente república brasileira, esta lei hoje fornece abrigo fiscal a centenas de aproveitadores.

Afinal, quem é que mama nas tetas do governo? Produtores teatrais que recebem autorização para captar uns caraminguás junto à iniciativa privada, e muitas vezes não conseguem nem um tostão? Ou seitas criadas há poucos anos, com o objetivo velado de faturar alto sem prestar contas ao Erário?

[b]Fonte: Folha de São Paulo[/b]