Será lançado em breve no mercado o livro “A revolução cubana e a vida de pastores e crentes evangélicos”, da pesquisadora cubana Caridad Masson Sena. O livro traz a entrevista de 12 pastores, de dez denominações evangélicas estabelecidas na Ilha.

A autora, que se autoproclama não-religiosa pois nasceu “com a revolução”, inicia seu ensaio citando Marx, Engels e Lenin, o que era uma obrigação nos trabalhos de Ciências Sociais em Cuba durante o longo período de ateísmo, interrompido oficialmente em 1991 por acordo do Quarto Congresso do Partido Comunista Cubano (PCC).

“Observei, afirma a autora, como nos últimos tempos o protestantismo agrupou uma numerosa comunidade, desenvolveu alguns projetos sociais dignos de consideração e conseguiu estabelecer, a meu juízo, um intercâmbio positivo entre essas denominações e o Estado”.

A autora aponta que em 1998, entre as 54 denominações protestantes inscritas legalmente na Ilha (há muitas, mas atualmente sem inscrição legal, algumas em trâmite de legalização), 25 tinham “características pentecostais”. É neste campo que se verifica atualmente o maior crescimento de fiéis.

“Não conheço que Fidel (Castro) tenha-se identificado com o ateísmo”, disse um dos entrevistados, Silvio Platero, antigo servidor público do Departamento para o Atendimento de Assuntos Religiosos do Comitê Central do PCC e atual subdiretor do Centro de Estudos sobre América.

Ele assegurou que o presidente cubano “não foi o criador nem o impulsionador do ateísmo científico” em Cuba. Trata-se de disciplina introduzida de maneira paulatina nos textos e no sistema de ensino do país a partir da influência das experiências dos países socialistas.

Platero admitiu que em Cuba o único partido não admitia cristãos e que crentes foram discriminados. O pastor Raúl Suárez Ramos, da Fraternidade Batista de Cuba, presidente e fundador do Centro Memorial Martin Luther King Jr., que foi reeleito deputado nas recentes eleições, assegurou que por causa da sua crença religiosa “meus filhos não estudaram o que queriam, tiveram que estudar o que lhes foi permitido”.

Suárez comentou, na entrevista, a experiência vivida no acampamento de trabalho obrigatório das chamadas “Unidades militares de ajuda à produção”. Em 1965, relembrou, foram conduzidos para tais unidades pessoas ociosas, delinqüentes, padres – entre eles o cardeal Jaime Ortega – pastores evangélicos e seguidores das Testemunhas de Jeová.

“Foi uma experiência familiar muito difícil”, disse, garantindo que é um dos poucos pastores que saíram dessa experiência sem ressentimento. Suárez afirmou que em Cuba, atualmente, “a maioria não pode viver com o que ganha em pesos cubanos. Todos os cubanos de hoje têm que buscar um extra para poder viver”.

Caridad Masson assinala que “nos primeiros anos posteriores a 1959 (do triunfo da revolução, encabeçada por Fidel Castro), cerca de 70% dos pastores abandonaram o país, quase todos estrangeiros”. Nos anos 90 do século passado, no entanto, a Ilha viu o início de um “avivamento religioso, particularmente interessados dentro das igrejas evangélicas-protestantes”.

Os pastores entrevistados pertencem à Igreja Presbiteriana Reformada, Convenção Batista de Cuba Oriental, Fraternidade Batista de Cuba, Igreja Episcopal de Cuba, Igreja Cristã Pentecostal, Missões Ampliadas Mundiais, Movimento Apostólico de Deus em Cristo Jesus, Grupo Evangélico de Gideões, Missão Mundial e Adventistas do Sétimo Dia.

Espera-se que o livro seja posto à venda na XVII Feira Internacional do Livro de Cuba 2008, de 13 a 24 de fevereiro, na capital, e até o dia 9 de março em 39 cidades da Ilha.

O tema religião e racismo registraram interesse nos últimos tempos nas Ciências Sociais cubanas, junto ao debate que se desenvolve em alguns círculos acadêmicos oficiais sobre o futuro do processo revolucionário cubano.

Fonte: ALC