Segundo pesquisa, 37% disseram ser “espiritualizados”, mas não “religiosos”; número é maior que o de os ateístas, judeus, muçulmanos e episcopais.

“Espiritualizado, mas não religioso.” Tantos americanos se descrevem dessa forma que os profissionais de pesquisa agora dão à frase sua própria categoria nos questionários. Em uma pesquisa de 2012 do Projeto Pew de Pesquisa e Vida Pública, quase um quinto dos entrevistados disse não ter afiliação religiosa –e quase 37% desse grupo disseram ser “espiritualizados”, mas não “religiosos” (SBNR, na sigla em inglês). Eles representavam 7% de todos os americanos, um grupo maior que o de os ateístas, e muito maior que o de judeus, muçulmanos e episcopais.

Sem causar surpresa, os SBNR, como este grupo costuma ser chamado, estão atraindo muita atenção. Quatro livros recentes oferecem pontos de vista sobre esses americanos que parecerem querer alguma conexão com o divino, mas que não se sentem afiliados à religião tradicional. Há a pastora que quer atraí-los, duas estudiosas que querem entendê-los e o psicoterapeuta que quer ajudá-los.

O livro da reverenda Lillian Daniel, “When ‘Spiritual But Not Religious’ Is Not Enough” (“Quando espiritualizado, mas não religioso não basta”, em tradução livre, Jericho, 2013), nasceu como um breve ensaio para “The Huffington Post”, no qual ela expressou irritação com a previsibilidade que encontrou nas pessoas espiritualizadas, mas não religiosas.

“Nos aviões”, escreveu Daniel no ensaio, em 2011, “eu temo a conversa com a pessoa que descobre que sou uma pastora e deseja usar o tempo de voo para explicar para mim que ele é ‘espiritualizado, mas não religioso’. Essa pessoa sempre compartilha isso como se fosse algum tipo de entendimento ousado, exclusivo dela, audaciosa em sua rebelião contra o status quo religioso”. Em pouco tempo, “ele está me dizendo que encontra Deus no pôr do sol”.

“Essas pessoas sempre encontram Deus no pôr do sol”, disse Daniel. “E em caminhadas pela praia.”

O ensaio se espalhou online, com milhares de “curti” no Facebook e repostagens. Daniel teve retorno de tantas pessoas que decidiu expandir seu ensaio. No livro, Daniel, uma pastora congregacionalista de uma igreja perto de Chicago, argumenta que a espiritualidade se encaixa confortavelmente na complacência, até mesmo no hedonismo –afinal, quem não gosta de caminhadas na natureza?– enquanto a religião é melhor em desafiar as pessoas a enfrentarem a morte, combater a pobreza e se oporem à injustiça. A religião, ao unir as pessoas, na comunidade, em intervalos regulares, facilita a conversa constante sobre assuntos que vão além de si próprio.

“O livro é meio que para a pessoa que, de certa forma, está com um pé dentro e um pé fora da religião”, disse Daniel em uma entrevista recente. “Elas sabem que pode ser significativo, mas não sabem como argumentar a respeito, ou contar uma história sobre a vida religiosa que não soe detestável ou julgadora.”

Daniel, por sua vez, argumenta de forma forçosa, aparentemente despreocupada com quem possa ofender.

“Ser espiritualizada de modo privado, mas não religiosa, não me interessa”, ela escreve. “Não há nada desafiador em ter pensamentos profundos sozinha. O que interessa é fazer esse trabalho na comunidade, onde outras pessoas podem pedir para que prove o que está dizendo ou discordem de você. Onde a vida com Deus fica rica e provocativa é quando você explora uma tradição que você não inventou sozinha.”

Mas Linda A. Mercadante, que leciona na Escola Teológica Metodista, em Ohio, contesta essa descrição do espiritualizado, mas não religioso. Em “Beliefs Without Borders: Inside the Minds of the Spiritual, but Not Religious” (“Crenças sem fronteiras: dentro das mentes dos espiritualizados, mas não religiosos”, em tradução livre, Oxford), publicado em março, ela argumenta que as pessoas espiritualizadas podem ser teologicamente profundas.

Uma pastora presbiteriana ordenada cujo pai era católico e cuja mãe era judia, Mercadante até mesmo passou pelo seu próprio período de espiritualizada, mas não religiosa –apesar de agora pertencer à Igreja Menonita. Para seu projeto, ela entrevistou 85 SBNR, então usou programas de computador para ajudar a analisar as transcrições dessas entrevistas. Ela descobriu que essas pessoas espiritualizadas também pensam sobre a morte, o pós-vida e outros assuntos profundos.

Por exemplo, “eles rejeitam o céu e inferno, mas acreditam no pós-vida”, disse Mercadante recentemente. “De certo modo, eles se encaixariam no contexto cristão progressista.” Como não gostam das instituições, os SBNR também recuam diante das deidades em torno das quais essas instituições são construídas. “Eles podem gostar de Jesus, ele pode ser o guru deles, ele pode ser um dos muitos bodhisattvas, mas Jesus como Deus não está na tela de radar deles”, disse Mercadante.

Quando Courtney Bender, que atualmente leciona na Universidade de Columbia, saiu à procura das pessoas espiritualizadas, mas não religiosas, em Cambridge, Massachusetts, onde vivia na época, ela as encontrou não em caminhadas solitárias pela natureza, mas em todos os tipos de grupos –o que complica o estereótipo delas como pessoas solitárias anti-instituições. Ela descreveu o que descobriu em “The New Metaphysicals: Spirituality and the American Religious Imagination” (“Os novos metafísicos: espiritualidade e a imaginação religiosa americana”, em tradução livre, Chicago, 2010).

Eles “participam de tudo, de grupos de discussão místicos até rodas de percussão e aulas de ioga”, disse Bender em uma entrevista. E ela descobriu que a espiritualidade “não é sui generis”, mas aprendida em comunidades que persistem com o passar do tempo, e que na verdade vai contra a concepção que as pessoas espiritualizadas têm de si mesmas, ela disse. “Há algo na teologia dos grupos espiritualizados que, na verdade, muda o foco de seus praticantes de pensarem como se encaixam em uma longa espiritualidade contínua.”

Em outras palavras, a imagem própria deles “os faz pensar, ‘eu não preciso de história, eu não preciso do passado'”, disse Bender, acrescentando que eles acham que “eu não sou religioso, uma coisa do passado –e sou espiritualizado, algo do presente”.

Mas as pessoas que se consideram espiritualizadas estão na verdade inseridas em práticas comunais, apesar de não igrejas ou denominações religiosas. Bender as encontrou na “medicina alternativa e complementar”, por exemplo. “As pessoas encontram essas coisas na clínica de massagem shiatsu ou ao irem a um acupunturista”, ela disse.

“Outra que é muito importante é nas artes”, ela acrescentou. “Pessoas envolvidas em tudo, da pintura à dança” também acabam discutindo seu conceito do divino.

Logo, a espiritualidade é solitária ou comunal? É teologicamente engajada ou apenas focada na “natureza” e “gratidão”, como teme Daniel? A julgar por “A Religion of One’s Own: A Guide to Creating a Personal Spirituality in a Secular World” (“Sua própria religião: um guia para criação de uma espiritualidade pessoal em um mundo secular”, em tradução livre, Gotham, 2014), por Thomas Moore, cujo “Cuide de Sua Alma” é um dos maiores best-sellers de autoajuda, a espiritualidade pode ser qualquer coisa que alguém quiser. Em seu guia para desenvolvimento de uma espiritualidade sob medida, ele encoraja as pessoas a extraírem elementos da religião, da antirreligião –qualquer coisa que funcione para elas.

“Todo dia eu adiciono algo à religião que é só minha”, escreve Moore. “Ela é construída em anos de meditação, cantos, estudos teológicos e na prática de terapia –para mim, uma atividade sagrada.”

No mínimo, nós poderíamos concluir que “espiritualizado, mas não religioso” não é necessariamente vago ou insosso. Não é nada, apesar de poder correr o risco de ser tudo.

[b]Fonte: The New York Times via UOL[/b]