O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a falar sobre o polêmico tema do aborto nesta terça-feira e defendeu que o Estado dê um tratamento adequado ao assunto. Além disso, afirmou que a lei atual não reflete a realidade do país.

“A legislação não trata da veracidade dos acontecimentos”, disse o presidente, que mais uma vez se declarou pessoalmente contra o aborto, mas a favor de um debate amplo sobre o tema.

“Não acredito que tenha uma mulher neste país que seja favorável ao aborto, como se o aborto fosse uma coisa que as pessoas quisessem fazer porque querem fazer”, afirmou o presidente na primeira entrevista coletiva do seu segundo mandato.

“Agora, como chefe de Estado, eu sou favorável que o aborto seja tratado como uma questão de saúde pública, porque é preciso que o Estado dê atenção a pessoas que tiveram gravidez indesejada”, acrescentou Lula, ao responder sobre a adequação da lei em vigor, que prevê a prática do aborto quando a mãe é vítima de estupro ou corre risco de morte.

Na semana passada, durante viagem ao Brasil, o papa Bento 16 fez uma condenação veemente ao aborto e chegou a manifestar, ainda a caminho do Brasil, o apoio a lideranças da Igreja mexicana que ameaçaram excomungar parlamentares católicos por serem favoráveis à legalização da prática na Cidade do México.

O presidente Lula disse, no entanto, que “todo cidadão católico ou não, cristão ou não, sabe que existe quantidade exagerada de abortos” no Brasil e que o Estado precisa dar um tratamento adequado a isso.

A controvérsia em torno do tema se acirrou nos dias que antecederam a chegada do papa ao Brasil. Autoridades do governo e religiosas se confrontaram sobre o assunto e, no início da visita do papa, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, pediu aos brasileiros para debaterem mais a questão do aborto. Temporão, que se declarou católico e disse não temer uma excomunhão, chegou a declarar que se os “homens engravidassem essa questão já estaria resolvida”.

Mais discussão

Durante a entrevista coletiva, Lula sugeriu que a televisão se envolva e promova um debate sobre o aborto com a sociedade.

A discussão já começou a acontecer na Rede Record, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo evangélico Edir Macedo. Desde a última semana, a TV vem exibindo vinhetas nas quais uma mulher defende seu direito de realizar ou não um aborto e, na noite de segunda-feira, a rede levou ao ar um programa jornalístico sobre o assunto.

O programa mostrou vários testemunhos de mulheres de baixa renda que foram submetidas a intervenções em clínicas clandestinas e argumentos favoráveis ao direito de decisão da mulher. O apresentador salientou, no entanto, que a emissora quer apenas colaborar para o debate.

Uma proposta de ampliar a discussão sobre o aborto à população através de um plebiscito está em tramitação no Congresso Nacional. Segundo uma pesquisa do Instituto Datafolha de abril, 65 por cento dos brasileiros acreditam que a legislação do aborto deve permanecer como está.

Recentemente, outros países majoritariamente católicos, além do México, reformularam suas políticas sobre o aborto. Em fevereiro, Portugal realizou um plebiscito sobre a legalização e a maioria dos eleitores que votaram foi a favor do fim da proibição ao aborto. Depois disso, o presidente português, Aníbal Cavaco Silva, sancionou a lei que permite o aborto nas 10 primeiras semanas de gestação.

Fonte: Reuters