Os gastos, o luxo e a ostentação da viagem do papa Bento XVI ao Brasil estão deixando parte da Igreja Católica brasileira constrangida. No lugar do motivo original da visita – que é abrir a 5ª Conferência-Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, um megaencontro de bispos do continente, em Aparecida -, os holofotes têm sido jogados sobre as reformas milionárias dos locais onde o papa se hospedará.

Também têm sido alvo das atenções as novas 60 TVs de plasma da Basílica de Aparecida, o cálice em ouro, prata e bronze de R$ 3.500 da missa no Campo de Marte, as toalhas e os lençóis de marca bordados para Bento, a garrafa de vinho de R$ 350 no almoço papal, a cozinha do mosteiro que funcionará durante as 24 horas do dia para a comitiva do Vaticano, e as mais de 400 peças de porcelana francesa feitas exclusivamente para o visitante ilustre.

Os custos estão sendo divididos entre pessoas e empresas voluntárias, a Igreja e os cofres públicos (as prefeituras de São Paulo, de Aparecida e de Guaratinguetá, o Estado de São Paulo e o governo federal).

“Tanta comida, tanta bebida, tanta renda, tanto luxo… Isso tudo é um contratestemunho. Vai contra o testemunho de Jesus Cristo, que nunca se deixou tratar como rei. Quando entrou num palácio, foi para ser chicoteado”, critica d. Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás e conselheiro da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

“O importante não é a visita do papa, mas a conferência dos bispos. A conferência é tão importante que até o papa vem por causa dela”, acrescenta o padre José Antonio de Oliveira, de Barbacena (MG). “O luxo da viagem é o que dá ibope na mídia, mas está deixando as pessoas com uma visão equivocada.”

O padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo da Rua, de São Paulo, concorda. “Vivemos a cultura do superficial”, resume. “É claro que alguém precisa cuidar dos preparativos. O papa não pode tomar sopa pronta de saquinho. Mas, por favor, não é com isso que temos de nos preocupar.”

A sete chaves

Até agora, a viagem de Bento XVI custou ao Brasil pelo menos R$ 20 milhões. Esse valor inclui, entre muitos outros itens, a segurança do papa, as ambulâncias, os postos de saúde e os hospitais para as pessoas que vão acompanhar a visita, as obras na Basílica de Aparecida, no Campo de Marte, no Seminário Bom Jesus e na Fazenda Esperança, o recapeamento de ruas e a construção de um reservatório de água em Aparecida, os folhetos das missas, e as vestes, a alimentação e a hospedagem dos bispos que participarão do encontro com Bento XVI na Catedral da Sé.

Os valores de outros gastos, porém, são guardados a sete chaves. A Aeronáutica, por exemplo, não diz quanto desembolsou para buscar os dois papamóveis em Roma. O Mosteiro de São Bento, em São Paulo, que hospedará o papa por duas noites, também não divulga quanto já gastou – sua reforma incluiu câmeras de segurança, internet sem fio, pintura das paredes, restauração de imagens sacras, iluminação externa, remodelação de jardins e até polimento de mármore.

Com menos pudor, o Seminário Bom Jesus, em Aparecida, onde o papa dormirá nas duas últimas noites no Brasil, abriu suas contas e revelou ter recebido R$ 6 milhões de um grupo de empresários. O dinheiro serviu, entrou coisas, para construir um elevador.

Duas igrejas em tensão

Apesar do mal-estar, a Igreja se viu obrigada a sair em defesa dos gastos com seu líder. D. Manuel Parrado Carral, bispo que organizou a parte paulistana da visita papal, redigiu uma nota sobre “os benefícios da viagem de Bento XVI”. Destacou que a cidade de São Paulo arrecadará, com “turismo e demais serviços”, R$ 60 milhões.

O arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, usa outro argumento. “É a visita de um chefe de Estado”, afirma ele, referindo-se ao fato de Bento ser o mandatário do Vaticano, o menor país do mundo.

Justamente por esse motivo, parte dos gastos será coberta pelo governo federal. Uma comissão de vários ministérios foi montada para cuidar da visita do papa. A Polícia Federal, por exemplo, oferecerá 400 agentes de segurança. O Exército fornecerá seis helicópteros e coordenará 13,5 mil homens.

O sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira, até pouco tempo atrás assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), chama de “tensão teológica” o conflito entre a Igreja que valoriza “a centralização no papa” e a Igreja que prega “a comunhão das dioceses”.

“Veja o cartaz da conferência dos bispos latino-americanos em Aparecida: a figura do papa ocupa 70%; a foto da basílica, 20%; o nome da conferência aparece lá embaixo. Por aí vemos onde está a ênfase”, diz.

Fonte: Estadão