A grande polêmica que envolve a questão sobre a utilização das células-tronco embrionárias é provocada por “meia dúzia de pessoas que controlam essa questão e que acreditam que esse embrião usado para pesquisa é uma vida humana que não pode ser destruída”. A afirmação foi defendida no sábado pela vereadora paulistana Mara Gabrilli, organizadora de uma caminhada que ocorreu em São Paulo.

“É um embrião que está congelado, sem sistema nervoso e sangue e que se não for utilizado para pesquisa, vai para o lixo”, disse Gabrilli. Segundo a vereadora, será um “retrocesso para o Brasil” se o Supremo Tribunal Federal não aprovar as pesquisas com células-tronco embrionárias. “O Brasil vai ter de começar a importar pesquisa e pagar royalties por isso. Somente as pessoas com recurso é que vão poder ir para fora do país fazer o tratamento”.

Segundo Mayana Zats, diretora e pesquisadora do Centro de Estudos Genoma Humano da Universidade de São Paulo (USP), as pesquisas nessa área são muito importantes porque as células-tronco embrionárias são as “únicas que têm potencial de formar todos os tecidos do corpo e principalmente porque são as únicas com capacidade de formar neurônios, fundamentais no futuro para regenerar inúmeros tecidos e recuperar a capacidade de andar de pessoas que sofreram acidentes, que têm a doença de Parkinson ou que têm doenças neuro-musculares”.

De acordo com ela, há hoje no Brasil vários grupos fazendo pesquisas, mas com células-tronco adultas que, diferentemente das embrionárias, só podem formam sangue, ossos, cartilagens e músculos. Para Zats, as pessoas confundem a utilização de células-tronco embrionárias com aborto: “Estamos falando de embriões que foram gerados por fertilização assistida, nunca estiveram em útero e nunca estarão em útero e que se não forem utilizados para pesquisa, ficarão congelados para sempre”.

Para os manifestantes que participaram do ato no centro da capital paulista, a questão religiosa tem gerado um entrave na aprovação das pesquisas com células-tronco por defender que os embriões tenham vida. O apresentador Dudu Braga, defensor das pesquisas, acredita que essa discussão deveria ser “mais científica do que religiosa”.

“A discussão filosófica é muito ampla. Onde começa a vida? Se começar por aí, a gente não pode mexer em absolutamente nada. Sou um cara muito espiritualizado, católico, tenho a minha fé, mas sou totalmente a favor da evolução científica, que nesse caso é uma grande evolução da espécie humana”, afirmou.

Para o médico Marco Aurélio Cunha, “é uma obrigação as pesquisas prosseguirem: é um dever do estado garantir isso e é de dever e compreensão da religião evoluir também”.

“Vivemos num país de violência, de trânsito caótico, certamente teremos muitos lesados medulares por falta de condições de estradas, de diretrizes de trânsito, por falta de prevenção. Se pudéssemos combater isso seria muito bom, mas já que temos uma crise nesse sentido, seria interessante dar oportunidade a quem tenha sofrido uma situação dessa de uma chance de recuperação”, disse Cunha.

Em entrevista à TV Brasil, o padre Juares Pedro Castro, porta-voz da Cúria Paulistana, disse que a Igreja Católica não “acha que está interferindo” nas pesquisas ao se posicionar contrariamente a elas. “A Igreja é sempre a favor da vida e acha que é imoral que se destrua uma vida para garantir outra”, defende.

Fonte: Correio Web