Deputado Federal e pastor Marco Feliciano
Deputado Federal e pastor Marco Feliciano

Em entrevista ao blog Inconsciente Coletivo, do Estadão, o deputado Marco Feliciano falou sobre diversos assuntos, como seu posicionamento político.

Quando questionado o que achava sobre a presidenciável Marina Silva, Feliciano disse que ela é um “evangélica de fachada”.

“Ela apoia toda a pauta da esquerda. A Marina é tão de esquerda que o Partido dos Trabalhadores não lhe serviu. Ela criou um partido só dela, um partido mais radical do que o PT, que é a Rede Sustentabilidade. A Marina não consegue transformar a fé dela em bandeira. Quando questionada sobre o aborto, ela é dúbia nas respostas. Quando questionada sobre o casamento homoafetivo, ela é dúbia nos pensamentos. E o evangélico, o cristão, o católico quer uma pessoa que seja clara”, declarou o deputado.

Feliciano ainda alegou que não é possível ser um cristão verdadeiro e de esquerda ao mesmo tempo.

“É impossível que o verdadeiro evangélico, o verdadeiro cristão seja de esquerda. Agora até temos os evangélicos conservadores e os evangélicos progressistas. O Ariovaldo Ramos é o “pastor lulista”. Quando eu vejo um pastor dizer que é socialista, de esquerda, ele está cometendo um erro gravíssimo. Pois ele instrui os incautos a seguirem esse pensamento. Eu não consigo conceber essa ideia”, concluiu Feliciano sobre o assunto.

Confira a entrevista a André Dominguez do Carmo e Morris Kachani abaixo:

Qual é a sua visão sobre o momento político brasileiro?

Caótico e sem luz no fim do túnel. E a imprensa tem um papel fundamental no momento pelo qual o Brasil passa. Não está mais nas mãos dos políticos.

Ah, não?

Está nas mãos da imprensa, porque é ela que dita as pautas do país. A imprensa tem a força do povo nas mãos. Atualmente, a grande mudança passa pelo povo. E o povo segue a imprensa. Só que a imprensa livre precisa ser imparcial, isenta. Não pode ser tendenciosa. Exemplo simples: imagine que um cidadão atropela uma mulher grávida. Vai sair na imprensa a seguinte manchete: “Homem atropela mulher grávida”. Se esse homem for evangélico, a manchete vai mudar: “Pastor atropela mulher grávida”. Por que toda vez a imprensa se refere a mim como “o pastor Marco Feliciano”? Não que eu tenha vergonha do título de pastor, é a maior honra que eu tenho. Mas quando falar do político Marco Feliciano, por que citar o pastor Marco Feliciano? Há muito preconceito.

A televisão ainda é muito relevante para alavancar campanhas políticas?

Já foi muito, mas eu acredito que não mais. Pela internet você fala direto com as pessoas. Vídeos meus, em mídias sociais, incomodam a Rede Globo. Como um vídeo, de uma mídia social, de um cidadão comum que não tem força nenhuma, pode incomodar uma gigante como a Rede Globo? Então não subestime as redes sociais.

Como vê a Rede Globo?

A Rede Globo sempre foi de vanguarda e sempre chutou com os dois pés para agradar a gregos e troianos. Não na época do doutor Roberto Marinho. O doutor Roberto era um homem de posicionamentos, centrado, conservador. Mas, hoje, a Globo faz um mal sem tamanho para o Brasil, principalmente para a estrutura da família brasileira. Eles pegam muito pesado a respeito de família, a respeito de evangélicos. Toda vez que aparece um evangélico na novela ele é louco ou extremamente irracional. Eu entendo que a Globo tem a mim como inimigo.

É um mau negócio ser político no Brasil?

Sinceramente, é. Porque na política você já ganha perdendo. Nós vivemos um momento em que o povo pensa que todo político não presta.

Estamos em um ano eleitoral…

Veja só que situação. Quem são os nomes para a Presidência da República? Jair Bolsonaro e Ciro Gomes são os similares antagonistas, porque ambos são contundentes naquilo que falam, só que um à direita e o outro à esquerda. O Geraldo Alckmin está destruído pela sombra do Aécio Neves. Quem mais?

Marina Silva?

A Marina só aparece de 4 em 4 anos. Ela veio com a missão de representar os evangélicos e a Igreja descobriu nela uma “evangélica de fachada”, dentro do nosso pensamento conservador. Ela apoia toda a pauta da esquerda. A Marina é tão de esquerda que o Partido dos Trabalhadores não lhe serviu. Ela criou um partido só dela, um partido mais radical do que o PT, que é a Rede Sustentabilidade. A Marina não consegue transformar a fé dela em bandeira. Quando questionada sobre o aborto, ela é dúbia nas respostas. Quando questionada sobre o casamento homoafetivo, ela é dúbia nos pensamentos. E o evangélico, o cristão, o católico quer uma pessoa que seja clara.

Marina Silva, pré-candidata evangélica a Presidência do Brasil, em 2018
Marina Silva, pré-candidata evangélica a Presidência do Brasil, em 2018

É impossível ser evangélico e ser de esquerda, ser progressista?

É impossível que o verdadeiro evangélico, o verdadeiro cristão seja de esquerda. Agora até temos os evangélicos conservadores e os evangélicos progressistas. O [pastor evangélico] Ariovaldo Ramos é o “pastor lulista”. Quando eu vejo um pastor dizer que é socialista, de esquerda, ele está cometendo um erro gravíssimo. Pois ele instrui os incautos a seguirem esse pensamento. Eu não consigo conceber essa ideia.

Você e o deputado Jair Bolsonaro são bastante próximos.

Eu sou muito amigo do Bolsonaro, construímos uma imagem juntos. A diferença é que você vai encontrar em mim um Bolsonaro mais equilibrado, sem temperamento agressivo. Nossas posições podem ser iguais, mas nossas atitudes são diferentes.

Existem dois Bolsonaros: um antes e um depois de Marco Feliciano e falo isso sem pretensão. Comissão de Direitos Humanos (CDH), 2013. Em pauta, o movimento LGBT. Como presidente da CDH, eu consegui unir o movimento cristão quase como um todo: católicos e evangélicos vieram em minha defesa. Porque ali na CDH não era o Marco Feliciano. Era a pauta conservadora do cristianismo.

O meu papel foi decisivo para o momento que estamos vivendo. Mas como ninguém do Parlamento vinha em meu socorro, com raríssimas exceções, o Bolsonaro colou em mim e virou o meu soldado. Até aquele momento, o Bolsonaro era uma figura caricata no Congresso. Até que ele começou a ir para cima e a fazer o enfrentamento. A pessoa batia em mim, eu ficava quieto, mas o Bolsonaro respondia, agressivo. E, assim, ele foi chamando a atenção do povo. Deu no que deu e veja onde o Bolsonaro está.

Bolsonaro é um radical, um político de extrema direita?

Ele é um homem de direita, de posturas, de posicionamentos extremamente fundamentados, mas não é da extrema direita. Ele fala o que não é politicamente correto. E o politicamente correto está acabando com o nosso país, porque acaba com um dos maiores direitos do ser humano dentro de uma democracia: a liberdade de expressão. O Bolsonaro fala o que pensa. É claro que existem várias maneiras de dizer aquilo que se pensa, mas como o Bolsonaro fala para o povão, ele diz o que o povo queria falar, mas não pode por causa do patrulhamento, que é chato demais. E o povo quer ver o Bolsonaro na briga. Quando ele começa a melhorar a imagem dele, quando ele fica mais light, ele deixa de ser o Bolsonaro.

Ele tem preparo para ser presidente?

O líder se faz em momentos de necessidade. Basta ter boa vontade e traquejo político. Acho que o Bolsonaro tem que trabalhar muito nisso, no traquejo político. O que eu tenho para falar é que o Bolsonaro é um grande homem, camarada, gente boa e cheio de vontade de mudar o país.

Outro parlamentar que marcou a sua trajetória política foi o Eduardo Cunha.

Eu sempre fui amigo do Eduardo Cunha e o ajudei na campanha dele no Rio de Janeiro. Acho que sou o único parlamentar que faz a minha campanha e a campanha dos outros. Já que sou conhecido a nível nacional, o povo vem me ouvir.

Como é a campanha evangélica? Nós apresentamos a pessoa nas igrejas, digo que aquela é uma pessoa conhecida, um cristão que defende os nossos valores. No RJ eu ajudei o Eduardo Cunha; em Pernambuco, ajudei o Anderson Ferreira, hoje prefeito em Jaboatão dos Guararapes; em Manaus, ajudei o Silas Câmara [deputado federal pelo Amazonas].

Você recomenda, mesmo?

Quando termina a pregação eu digo que trouxe comigo um amigo que luta pelas nossas causas e eu peço para os fiéis orarem por ele. Não peço voto, porque seria profano demais. Agora, para mim, o Eduardo Cunha foi um herói. Sem ele, não teríamos o fim do PT.

Bem, o Eduardo Cunha está preso…

Comigo ele sempre foi correto. Sempre foi irmão. O Congresso caminhou em pautas conservadoras por causa do Eduardo. O aborto, a ideologia de gênero… sem a mão dele a gente não teria chegado… O Eduardo foi um grande ajudador das bandeiras da família brasileira. Eu não posso ser leviano. Chutar cachorro atropelado é fácil, diria a minha mãe.

Qual é a sua questão com o casamento gay?

Eu respeito homossexuais, mas não respeito ativistas LGBT. O ativista é aquele que ganha dinheiro para lutar por isso. Eu respeito homossexuais porque tenho amigos homossexuais que frequentam a minha casa. Tenho amigas lésbicas, tenho amigas que moram juntas.

E se essas suas amigas quisessem se casar?

Se elas querem se casar? Por que não foram feitas audiências públicas de gays para a comunidade discutir o assunto? Veja, desde que se aprovou o casamento gay, quantos casamentos tiveram? Pouquíssimos. Essas são apenas brigas políticas para dividir o povo.

O Brasil é o país que mais mata pessoas da comunidade LGBT no mundo. A cada 19 horas uma pessoa LGBT é assassinada.

Se não me falha a memória, em 2012 foram mortos entre 270 e 280 homossexuais [segundo o Grupo Gay da Bahia, mais antiga organização de defesa de homossexuais do Brasil, em 2012 foram assassinados 338 integrantes brasileiros do chamado grupo LGBT]. Curiosamente, no mesmo ano, o Brasil teve 53 mil assassinatos [de acordo com o Ministério da Saúde, foram cometidos 56.337 homicídios em 2012]. Eles fazem parte de uma sociedade violenta. Ninguém deve morrer por causa da sua orientação sexual, por causa da cor da sua pele, por causa da sua religião. Isso é vilania, é animalesco. Só que nós vivemos em uma sociedade doente. A culpa é da sociedade, que se cala quando tem que falar e fala quando tem que se calar.

Para você é natural ou é uma desvirtuação alguém ser homossexual?

É normal. Mas eu fiquei rotulado como o mestre da “cura gay”. Maldade da imprensa e do movimento LGBT. Não tem cura para aquilo que não é doença. Para mim, a homossexualidade não é doença, é um fenômeno comportamental. [Sobre a “cura gay”, ainda em 2013, quando era presidente da CDH, Feliciano declarou que: “não podemos tolher o direito de um profissional, como um psicólogo, de estudar um assunto que ainda não se colocou nele um ponto final, ainda é uma incógnita, ainda é um fenômeno”].

Você é fã do Donald Trump?

Eu gosto dele. Posso não concordar com tudo, mas ele tem alguns posicionamentos que eu tomaria no Brasil. O assunto Israel, por exemplo. Ele conseguiu dar a Israel a legitimidade da sua capital. E comprou briga com o mundo inteiro. Então, um homem para fazer isso tem que ter coragem demais, porque não é politicamente correto. Foi contra a Organização das Nações Unidas, que representa a esquerda, que tem um pensamento extremamente progressista e que é de onde vêm as pautas que o conservador não gosta.

Donald Trump
Donald Trump

Trump tem coragem e ele tomou algumas boas atitudes nos EUA. Logo que assumiu, por exemplo, do dia para a noite ele retirou um link do movimento LGBT que estava no site da Casa Branca para mostrar que isso não é uma bandeira de governo e que já existem direitos demais. Nós temos que criar agora um movimento de deveres. Quais são os deveres? Se cada um soubesse quais são os seus deveres, nós não precisaríamos de direitos.

E o Barack Obama?

O Obama era mais de esquerda do que a esquerda. Era the left. O Obama quebrou os EUA, quebrou a América do Norte. Porque a esquerda é isso, o socialismo é assim.

Você se refere muito a esquerda. Como você define a esquerda?

A esquerda é o revolucionário, é aquele que faz a crítica pela crítica, sem solução. Se você apresentar a cura do câncer, eles vão arrumar algum probleminha, porque não foram eles que criaram. A esquerda não tem projeto de governo, tem projeto de poder.

Separação entre a Igreja e o Estado. Como é isso na sua cabeça?

Para mim isso está definido na própria Constituição: o Estado é laico. Ou seja: o Estado não pode interferir na minha religião. O que as pessoas confundem é um Estado laico com um Estado laicista, com um Estado ateu. O Brasil não é um Estado ateu. Você tem o direito de adorar uma pedra, adorar a Deus ou não adorar nada. E o Estado não pode interferir nisso. Mas o Estado laico não é um Estado ateu, porque se fosse um Estado ateu, não haveria no preâmbulo da Constituição Federal aquela parte que fala “sob a proteção de Deus…”

Isso é um erro?

É a liberdade religiosa. O Brasil é uma democracia. Quem é que ganha? A maioria. Essa é a democracia. Em um país de maioria cristã, fundado por cristãos…

Você se incomoda com a imagem do Cristo dentro do Congresso Nacional ou do STF?

A imagem do Cristo pode até ser questionada, porque ela representa o cristianismo, é o Deus dos cristãos. Só que isso não incomoda ninguém. Até porque 88% da população brasileira se declara cristã, é conservadora. O brasileiro é por si só conservador. Então o Estado é laico, mas o povo é de maioria cristã. E se você não reconhece Cristo como Deus, ao menos o reconheça como filósofo.

Mas também é preciso reconhecer que as religiões legislam.

É uma democracia. O Parlamento é uma democracia. Tem representatividade. Se o banqueiro pode mandar o representante dele, se o índio pode mandar o representante dele, se os homossexuais podem mandar o Jean Wyllys, então por que a igreja não pode mandar os representantes dela? É o povo. O preço da democracia é alto e todo mundo já sabia disso desde o princípio. A democracia custa muito caro.

A cobrança do dízimo é algo muito criticado quando se trata das igrejas evangélicas.

Atrela-se o dízimo ao roubo. O dízimo existe em todas as religiões, inclusive na Igreja Católica. O dízimo existe em partidos políticos, as pessoas contribuem com os partidos. Os sindicatos cobram. Como as igrejas sobrevivem? A Igreja Evangélica não tem apoio do Estado, não tem o apoio de ninguém…

Mas as igrejas são livres de impostos.

São livres de impostos porque nós produzimos para o Estado. O Estado não consegue recuperar um bandido, a Igreja Evangélica consegue. O Estado não consegue recuperar um drogado, a Igreja Evangélica consegue. Os hospitais que mais funcionam no Brasil são ligados a Igrejas Católicas. As casas de recuperação são, em sua maioria, ligadas a alguma religião. Existem igrejas que extrapolam? Existem. Mas é o joio que está no meio do trigo. Por que eu não posso dizimar? Por que eu não posso dar para a Igreja, de livre e espontânea vontade, aqueles 10% do meu ganho?

Como você está se preparando para as eleições do outubro?

No momento eu estou preocupado com a minha reeleição, para ver se eu consigo fazer uma reeleição histórica. A princípio, eu estou lutando para ser reconduzindo à Câmara dos Deputados. Só que eu quero ir com uma expressão de votos. Se Deus resolver me dar 1 milhão de votos… Eu vou ficar feliz. Talvez eu tenha de fato a representatividade de pessoas que hoje pensam em política por uma bandeira. Então, se eu cresço nas pesquisas, eu posso até começar a pavimentar uma estrada para o futuro. Quem sabe para a Presidência da República.

Confira a entrevista completa neste link

Fonte: Estadão