Candidata do PV controla o rumo da campanha, cuja estratégia na TV é adotar ‘tática de guerrilha’, com alvos bem definidos e ataques rápidos.

Em termos de superação pessoal, a história de Maria Osmarina Marina da Silva, de 52 anos, guarda muita semelhança com a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela nasceu em um casebre coberto de palha, no meio de um seringal do Acre, onde não havia escola e nem mesmo uma igrejinha. Era a segunda filha de uma família numerosa, com dez irmãos, dos quais três morreram pequenos, de malária. Trabalhou como empregada doméstica ainda na pré-adolescência e só aprendeu a ler e a escrever aos 16 anos.

Apesar desse mundo de desvantagens, Marina tornou-se senadora e uma das figuras mais festejadas em todo o mundo na área de defesa do meio ambiente. Pela sua biografia – na qual figuram, entre outros feitos, a luta contra a ditadura militar e a resistência a jagunços armados que aterrorizavam os seringueiros nos anos 80, a mando de fazendeiros – não se pode negar, em momento nenhum, o gosto pelo desafio.

O mais novo deles começa na terça-feira, com a largada da fase mais agitada da campanha eleitoral para a Presidência e a propaganda gratuita na TV e no rádio. Concorrendo por um partido pequeno, o PV, Marina terá à sua disposição um tempo pequeno, de apenas 1m23s em cada bloco de propaganda gratuita. A ex-ministra Dilma Rousseff, que concorre pelo PT, terá 10 minutos. E José Serra, do PSDB, 7.

Mas isso ainda não é tudo. Além do tempo curto, a propaganda eleitoral de Marina ficará espremida num bloco de candidatos nanicos, afastada de Dilma e Serra – os candidatos com os quais procura debater diretamente, de igual para igual, na tentativa de se apresentar como nome viável para um eventual segundo turno.

Antes que se fale em perseguição à candidata, é bom lembrar que essa posição no quadro de apresentações foi definida por sorteio no Tribunal Superior Eleitoral. E que o tempo na TV é determinado principalmente pelo tamanho da bancada do partido no Congresso.

Qual deve ser a estratégia de Marina diante desse cenário? Tudo indica que vai adotar uma tática de guerrilha, com alvos bem definidos e ataques rápidos.

Publicitário. No estúdio cinematográfico da Lapa, na região oeste de São Paulo, onde estão sendo produzidos os programas de TV, trabalha-se sobretudo com a técnica e o estilo de spots publicitários. Cada inserção no horário gratuito tratará de apenas um tema, permitindo à senadora apresentar suas principais propostas de governo.

Na opinião do marqueteiro Paulo Tarso, que trabalhou para Lula nas eleições de 1989 e 1994, esse é o melhor caminho. No caso de candidatos com tempo mais longo, o estilo se aproxima das revistas na TV, com entrevistas, músicas, discursos, documentários.

“Nós estamos trabalhando como publicitários que têm apenas 30 segundos ou 1 minuto para falar do produto para o consumidor”, disse ele. “Cada peça terá um tratamento próprio, para funcionar isoladamente.”

O cineasta Fernando Meirelles, que fez carreira no mundo publicitário antes de se destacar internacionalmente com o filme Cidade de Deus, tem dado apoio ao trabalho. Parte da equipe que atua com Tarso foi indicada por ele.

Uma das preocupações de Marina, que controla o rumo e o tom da campanha, é mostrar que não é candidata de uma nota só. Temas ligados à questão da proteção ambiental, em torno da qual a acreana construiu sua carreira, vão rivalizar no horário gratuito com educação e infraestrutura.

Isso não é novidade na sua vida. Desde a juventude, quando começou a fazer política, nas comunidades eclesiais de base (CEBs), sob a inspiração da Teologia da Libertação, cuja linha social toca a linha do marxismo, Marina vem discutindo propostas globais para o País. Já usou os mais diferentes palcos para isso. Ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores e a Central Única dos Trabalhadores (CUT), militou no Partido Revolucionário Comunista, foi vereadora, deputada, senadora, ministra. Nos anos 80 quase a expulsaram do PT, sob a acusação de radicalismo de esquerda.

Foi sua concepção sobre preservação ambiental, segundo a qual é possível manter o desenvolvimento econômico nos moldes capitalistas e com preservação do meio ambiente, que acabou afastando-a da esquerda e, mais tarde, do PT. Ainda no Acre ela teve atritos com o Movimento dos Sem-Terra (MST) ao defender que ali não se devia adotar o modelo tradicional de reforma agrária, com a divisão da terra em lotes.

Para Marina, os seringais deviam ser utilizados de outra forma, de acordo com a tradição dos trabalhadores locais. Ela e seu companheiro de luta mais famoso, o sindicalista Chico Mendes, assassinado por jagunços, chegaram a ser acusados de estar a serviço de interesses imperialistas.

Também foi o pensamento ambientalista de Marina que acabou aproximando-a de setores empresariais que manifestam preocupação com o desenvolvimento sustentável do País, em oposição ao conceito de desenvolvimento a qualquer preço.

Na TV, ela deverá aparecer mais uma vez ao lado do bilionário Guilherme Leal, empresário recém-desembarcado no PV e escolhido pessoalmente por Marina para o cargo de vice-presidente na chapa. Um dos papéis dele é funcionar como uma espécie de chancela para a proposta socioambiental.

Num país em que milhões de pessoas chegam agora ao mercado de consumo e onde o nível de preocupação com a preservação ambiental ainda está a anos-luz daquele observado em países desenvolvidos, como a Suécia e a Alemanha, onde os verdes têm forte influência política, o discurso de Marina ainda é visto com reservas. Como se pudesse travar ou atrasar o ritmo de crescimento.

Segundo o coordenador de campanha, João Paulo Capobianco, a candidata poderá mostrar na TV que a proposta socioambiental aponta para o futuro, para o crescimento a longo prazo. Na opinião do cineasta Meirelles, que compareceu na segunda-feira ao lançamento da biografia de Marina, em São Paulo, essa é a principal novidade da candidatura verde. “Ela está voltada para o amanhã”, diz ele com frequência.

Distante. Marina não costuma negar seu passado. Afirma, por exemplo, que se afastou da esquerda mas ainda leva consigo alguns princípios da Teologia da Libertação, como a preocupação com a justiça social e a ética na política.

Mesmo com dificuldades para se destacar no cenário da propaganda eleitoral, quer continuar agindo sem hostilizar abertamente seus adversários, nem atacar o PT, partido do qual se desligou no ano passado, descontente com sua orientação política e os escândalos de corrupção. Em 2008 ela já havia deixado o Ministério do Meio Ambiente, onde ficou durante cinco anos, a convite de Lula. Saiu dizendo que sua propostas não tinham mais respaldo na equipe de governo.

Marina insiste em não se identificar como oposição ou situação, nem cair na tentação das provocações. Uma delas rondou a senadora no primeiro debate entre presidenciáveis, na Bandeirantes. Segundo seu próprio relato, bem que poderia ter perguntado na ocasião à ex-ministra Dilma Rousseff, a candidata do PT, qual é a verdadeira posição dela diante da proposta de legalização do aborto. Afinal, dias antes, durante encontro com representantes da Assembleia de Deus, a igreja evangélica à qual Marina é filiada, a petista disse que se opõe à proposta. Mas, de acordo com a memória da senadora, Dilma já deu declarações a favor da legalização.

E por que não perguntou? Ainda segundo a senadora, porque o tema é complexo e delicado demais para ser tratado às pressas e na base da satanização de quem pensa o contrário.

Para quem não gosta de discutir apressadamente nenhum assunto de interesse público, Marina enfrentará certamente um enorme desafio nos próximos dias. Tentará provar aos eleitores, com inserções de pouco mais de um minuto no horário gratuito, que a filha de seringueiros pobres, que também se chama Silva, tem estofo político e intelectual para presidir o País.

[b]Fonte: Estadão[/b]