Um dos membros do Banco Central alemão, Thilo Sarrazin, provocoupolêmica no país após lançar duras críticas a muçulmanos e judeus em seu livro sobre o futuro da Alemanha.

Em entrevista coletiva nesta segunda-feira, Sarrazin, 65, negou acusações de que tenha misturado teoria de raças com seus argumentos. Ele também defendeu estatísticas que diz mostrarem como os imigrantes muçulmanos estariam minando a sociedade alemã.

O comitê do Bundesbank, o banco central alemão, tentou se distanciar da figura de Sarrazin, dizendo que seus comentários são danosos e violam o código de conduta do banco.

Em comunicado divulgado hoje, após uma reunião, o banco afirma que seu presidente deve se reunir com Sarrazin antes de decidir sobre as próximas medidas, e acrescentando que se trata de “uma instituição na qual não há espaço para discriminação”.

Antes de o banco central poder tirar Sarrazin de seu conselho de seis membros, no entanto, precisa de autorização do presidente Christian Wulff.

[b]CRÍTICAS [/b]

A chanceler alemã, Angela Merkel, condenou a postura de Sarrazin no fim de semana, alegando que as afirmações são “completamente inaceitáveis” e pedindo uma atitude do banco central.

O porta-voz de Merkel, Steffen Seibert, reiterou as críticas a Sarrazin nesta segunda-feira, dizendo que o governo acredita que os comentários estão ferindo a reputação do banco central alemão tanto no país como no exterior.

“Não imagino que a chanceler teve tempo para ler meu livro”, respondeu Sarrazin, referindo-se à obra de 464 páginas que, segundo a imprensa local, segue em direção à lista de mais vendidos. O autor pediu que os críticos leiam seu livro antes de reagir, insistindo que seus comentários estão sendo tirados de contexto e que consistem amplamente em “análises bem documentadas”.

Líderes judeus na Alemanha criticaram Sarrazin, alegando que suas afirmações ameaçam estigmatizar os muçulmanos da mesma forma que os judeus fizeram com os judeus.

A Alemanha abriga ao menos 4 milhões de muçulmanos, a maioria de origem turca. Também é lar para cerca de 280 mil árabes.

Desde 1961, milhares de “trabalhadores convidados” turcos aceitaram convites do governo da Alemanha ocidental para ajudar a ativar a economia crescente pós-guerra do país. O recrutamento parou em 1973, quando muitos já estavam estabelecidos no país, e trouxeram suas mulheres e famílias. Por isso, estima-se que 3 milhões de pessoas vivendo na Alemanha hoje sejam de origem turca. Estima-se também que vivam ali outros cerca de um milhão de muçulmanos.

[b]POLÊMICA [/b]

Segundo trechos publicados pela imprensa alemã, o livro afirma que os muçulmanos custam ao Estado mais do que eles contribuem, resistem à integração e podem um dia formar uma maioria. “Não quero que acabemos como estranhos em nossa própria terra, nem mesmo em nível regional”, escreveu Sarrazin.

A polêmica piorou ainda mais quando ele disse, em entrevista publicada no domingo, que os judeus e os bascos têm genes que os separam dos demais.

O banqueiro, que já foi ministro das Finanças de Berlim, insistiu que suas conclusões sobre o perigo dos imigrantes muçulmanos para a Alemanha não foram baseadas em diferenças étnicas, mas em herança cultural.

Questionado sobre os comentários acerca de genética, Sarrazin disse que estava se referindo a descobertas recentes publicadas na imprensa, e disse que seu livro mostra que qualquer parcialidade que ele tenha em relação aos judeus é positiva.

No livro, o autor defende que “imigrantes não são todos iguais”, e que “a maioria dos problemas culturais e econômicos estão concentrados em um grupo de cinco a seis milhões de imigrantes de países muçulmanos”.

Ele faz comparações com outros grupos étnicos que imigraram para a Alemanha, incluindo os do leste europeu, China e Vietnã, e diz que os muçulmanos em particular vivem em sociedades paralelas por muitas gerações.

“Apenas 3% dos imigrantes turcos na segunda geração casaram-se com parceiros alemães, comparados com 70% dos alemães étnicos vindos da Rússia”, disse Sarrazin.

Durante a divulgação do livro, ele defendeu que os imigrantes muçulmanos na Europa não querem ou são incapazes de se integrar com as sociedades ocidentais, e que os estudos comprovaram que “todos os judeus compartilham o mesmo gene”.

Não é a primeira vez que ele provoca tais polêmicas. Ele foi forçado a renunciar a partes de suas funções no banco no ano passado, após comentários semelhantes sobre as populações turca e árabe de Berlim.

“Poderíamos nos poupar 80% da discussão política e os outros 20% seriam muito mais frutíferos, se pudéssemos nos concentrara na análise, e então na avaliação e na resposta política”, disse ele. “Infelizmente, costuma funcionar do contrário.”

[b]Fonte: Folha Online[/b]