Protestante praticante, a chanceler alemã Angela Merkel pediu neste domingo para os europeus assumirem suas raízes cristãs, no dia seguinte às propostas severas do Papa Bento XVI, que chegou a acusar os dirigentes europeus de “apostasia”.

“Não há nenhuma dúvida de que nós (europeus) somos marcados por uma herança judaico-cristã”, afirmou em Berlim a chanceler conservadora numa entrevista coletiva no final das celebrações dos 50 anos do Tratado de Roma.

“Se queremos conduzir um debate mundial sobre as culturas e as religiões, então nós, europeus, devemos não apenas reivindicar nossas raízes, mas também expressá-las”, acrescentou Angela Merkel, que é filha de pastor.

Interrogada sobre as propostas do Papa, que acusou a União Européia de renegar suas origens cristãs — uma “singular forma de apostasia” segundo ele –, Angela Merkel declarou “compreender a atitude da Igreja católica”. Ela contou que chegou a conversar sobre o assunto com Bento XVI, seu compatriota, assim como com seu predecessor João Paulo II.

Incluir essas referências nos futuros tratados europeus “é uma coisa desejada por grande número de pessoas na Europa”, assegurou ela, reconhecendo que isto será difícil.

“Sou realista e não muito otimista” sobre este ponto, acrescentou Merkel, referindo-se a “tradições talvez seculares” de separação entre a Igreja e o Estado em alguns países membros.

A França, mas também a Bélgica, são defensoras viscerais dessa separação.

Angela Merkel não está sozinha em sua proposta. Ela tem o apoio do presidente do Parlamento Europeu, Hans-Gert Pöttering.

Nos debates realizados em 2002 e 2003 sobre a introdução de uma referência aos valores cristãos da Europa na Constituição, a Itália, a Espanha, a Irlanda e a Polônia foram as maiores defensoras da inclusão do cristianismo no texto.

Angela Merkel também pode receber hoje o apoio do grande vizinho oriental da Alemanha, a Polônia, com quem mantém relações tensas. “Agradeço Angela Merkel por ter evocado esse debate nessas declarações”, comentou o presidente polonês Lech Kaczynski, do conservador partido “Direito e Justiça” (PiS).

Em Berlim, o presidente do Conselho italiano, Romano Prodi, afirmou que seria preciso “dar às igrejas um papel e um sistema de consulta que nunca existiram na história européia” para estabelecer com elas “um diálogo estruturado”.

“Nesses tempos de integração”, as Igrejas são um dos elementos mais estáveis de “nossa sociedade, de nossa história política”, acrescentou o democrata-cristão de centro-esquerda.

Para o chefe do governo regional da católica Baviera, Edmund Stoiber, um futuro Tratado Europeu deveria levar em conta “as raízes comuns cristãs da Europa como núcleo da identidade européia”. “Quem não sabe de onde vem não sabe para onde vai”, disse ele.

O Papa Bento XVI relançou o debate no sábado em Roma, pedindo para os crentes construírem uma “nova Europa”.

“Não podemos pensar em construir uma verdadeira casa comum européia negligenciando a identidade dos povos de nosso continente (…), uma identidade histórica, cultural e moral (…), constituída de um conjunto de valores que o cristianismo ajudou a forjar”, afirmou o Papa ao receber no Vaticano os participantes de uma conferência organizada pelos bispos europeus.

Fonte: AFP