Marcelo Crivella
Marcelo Crivella

O Ministério Público do Rio vai investigar o evento promovido pelo prefeito Marcelo Crivella (PRB), no Palácio da Cidade, sede da Prefeitura, em que ofereceu facilidades a pastores e líderes de igrejas.

No evento, divulgado pelo jornal O Globo, Crivella ofereceu auxílio em cirurgias de cataratas e varizes para fiéis e assistência a pastores que tivessem problemas de IPTU em seus templos. Além disso, exaltou o pré-candidato a deputado federal pelo PRB, Rubens Teixeira.

O MP informou que a coordenação das promotorias de Justiça da Cidadania vai analisar se houve “inobservância da laicidade do Estado”, conferindo tratamento privilegiado aos fiéis de um determinado segmento religioso – o que é proibido pela Constituição e pode, em tese, configurar improbidade administrativa. As falas de Crivella também serão analisadas pela Coordenação de Saúde do MP, para a fiscalização da política de regulação do Sistema Único de Saúde (SUS).

Em nota, a Prefeitura do Rio disse que a reunião citada “teve como objetivo prestar contas e divulgar serviços importantes para a sociedade, entre eles o mutirão de cirurgias de catarata e o programa sem varizes”. “Desde o início de sua gestão, o prefeito Marcelo Crivella já recebeu os mais diversos representantes da sociedade civil, para tratar dos mais variados assuntos, tanto em seu gabinete quanto no Palácio da Cidade”, informou a prefeitura, por meio de nota.

Entenda o caso

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB) recebeu, na sede da prefeitura, 250 pastores e líderes evangélicos e prometeu várias facilidades para os fiéis.

O encontro foi a portas fechadas, e os convidados não podiam pegar no celular. Crivella marcou a reunião por mensagem. Segundo o jornal O Globo, os pastores podiam levar qualquer reivindicação e, em troca, a prefeitura falaria sobre o que teria a oferecer para os convidados.

Em áudios da reunião, Crivella promete solução para os problemas com IPTU. O encontro aconteceu na tarde de quarta-feira (4).

“Tem pastores que estão com problemas de IPTU. Igreja não pode pagar IPTU, nem em caso de salão alugado. Mas se você não falar com o doutor Milton, esse processo pode demorar e demorar”.

Crivella ofereceu ainda sinal de trânsito, quebra-molas e ponto de ônibus perto das igrejas.

“Às vezes, o pastor está na porta da igreja e diz assim: ‘Quando o povo atravessa, pode ser atropelado’. Vamos botar um sinal de trânsito. Vamos botar um quebra-molas. Ou então o pastor diz assim: ‘O ponto de ônibus é lá longe, o povo desce e vem tomando chuva até a porta da igreja’. Então vamos trazer o ponto para cá”.

Cremerj vai entrar na Justiça contra Crivella

A oferta de privilégios dos serviços médicos da prefeitura, feita por Marcelo Crivella a pastores evangélicos, revoltou o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio (Cremerj), Nelson Nahoun. “Infelizmente vi a gravação dele falando. Não é ninguém contando”, afirmou, inconformado, explicando que assistiu as promessas de Crivella nos telejornais da Globo. Nahoun disse que já marcou reunião, para segunda-feira, com o departamento jurídico da entidade para estudar se cabe “uma ação de maior peso contra esse verdadeiro absurdo. Não tem mais o que esperar desta prefeitura. Foi um verdadeiro deboche”, lamentou o médico.

Segundo o presidente do Cremerj, milhares de pessoas estão na fila aguardando cirurgias de catarata e vasculares. “Pacientes diabéticos estão tendo suas cirurgias vasculares adiadas, gerando, inclusive, aumento de amputação de perna por causa disso e o prefeito usando a máquina do município para beneficiar a igreja dele. Isso é uma afronta à população do Rio de Janeiro. Um verdadeiro horror!”, classificou.

Nahoun lembrou o caso recente da cirurgia de punho da mãe do prefeito, Eris Bezerra Crivella, no Hospital Municipal Salgado Filho, Méier. “Já tinha feito aquela cirurgia da mãe dele, que passou por cima de todo mundo para poder ter o privilégio. A mãe dele merece ser atendida pelo SUS como todo mundo, mas ela tem plano de saúde! Não aprendeu com aquilo!”, reclamou.

Ele explicou que o Cremerj está brigando pela unificação do Sistema de Regulação (Sisreg), que apesar de ordem judicial,até hoje não foi feita. E o prefeito “cria uma nova regulação: o sisMárcia! tem o sisreg e o sisMárcia. Procurem a Márcia que a Márcia resolve tudo. Eu vou mandar os pacientes que reclamam com a gente que não conseguem ser atendidos para procurar a tal da Márcia! Porque a regulação não funciona”, protestou Nahoun, fazendo referência à assessora que Crivella indicou aos pastores para procurar, a Márcia. O presidente do Cremerj disse que vistou vários hospitais ontem e todos os profissionais de saúde se mostraram espantados com a atitude do prefeito Crivella.

“E realmente é um espanto! O prefeito dizer que tem um modo de furar fila? É só falar com a Márcia que ela vai resolver? Todos merecem tratamento igual. Mas, parece que no governo Crivella nem todos são iguais. Os pastores têm o privilégio de regular os pacientes que não conseguem ser operados pelo caminho normal da regulação. É revoltante! É uma afronta à população do Rio de Janeiro. Isso é ilegal. É um verdadeiro absurdo”, concluiu.

Procurada, a prefeitura limitou-se a divulgar a seguinte nota:

A Prefeitura do Rio informa que a reunião citada teve como objetivo prestar contas e divulgar serviços importantes para a sociedade, entre eles o mutirão de cirurgias de catarata e o programa sem varizes. A Prefeitura conta, inclusive, com o apoio dos meios de comunicação para ampliar essa divulgação.

Desde o início de sua gestão, o prefeito Marcelo Crivella já recebeu os mais diversos representantes da sociedade civil, para tratar dos mais variados assuntos, tanto em seu gabinete quanto no Palácio da Cidade.

Vale lembrar que, ao final do governo passado, parte da imprensa foi convidada para uma festa, essa sim com todas as pompas e circunstâncias, nas dependências do mesmo Palácio da Cidade, em que foi servido champanhe à vontade. Só esse evento custou cerca de R$ 200 mil aos cofres do município”.

Impeachment

Pelo menos três parlamentares começaram a trabalhar em pedidos de impeachment contra Crivella. Um deles é Paulo Pinheiro, do PSOL. Seu gabinete enviou ao Ministério Público um pedido de abertura de investigações por conta do encontro suspeito.

O entendimento é que houve uso do cargo para oferta de vantagens a segmentos privados específicos, o que é ilegal. “O slogan de campanha de Crivella mudou. Não é mais cuidar das pessoas. É cuidar das suas pessoas”, brinca o vereador. Já Teresa Berger (PSDB) marcou para a próxima segunda (09) uma reunião na Câmara Municipal para discutir a convocação extraordinária dos parlamentares em função da situação.

“Nunca vi nada semelhante na administração pública”, comenta a ex-secretária de assistência social. Caso seja confirmada, a volta às atividades do plenário em meio às férias pode ser o 1º passo nas discussões sobre um pedido de impeachment. O retorno dos nobres ao trabalho não implicaria em novos gastos para o Município, já que suas equipes seguem trabalhando apesar do recesso.

Também no Palácio Pedro Ernesto, Átila Alexandre Nunes (MDB) também deve pedir o afastamento de Crivella e acionar o Ministério Público. Seu pai, Átila Nunes, é deputado na Alerj pelo MDB e criticou a reunião da última quarta. “Ao que tudo indica, ele usa a máquina da prefeitura para alavancar a religião dele”, afirmou.

Com informações de Veja, Estadão, O Dia e G1