O cardeal brasileiro dom Claudio Hummes, prefeito da Congregação para o Clero do Vaticano, defendeu nesta quarta-feira que os sacerdotes envolvidos em “delitos” sejam “julgados e castigados”, em uma carta aberta na qual se refere indiretamente a casos de abusos sexuais.

Em carta divulgada no site da congregação e enviada aos sacerdotes de todo o mundo, o prefeito –cargo equivalente ao de ministro na hierarquia vaticana– não menciona explicitamente os abusos sexuais, apesar de há uma semana uma investigação exaustiva ter revelado que milhares de crianças irlandesas sofreram sistematicamente abusos em orfanatos, escolas e reformatórios dirigidos pela Igreja Católica.

“É verdade que alguns sacerdotes estavam envolvidos em problemas graves e em situações delituosas”, escreveu o cardeal, arcebispo emérito (aposentado) de São Paulo. “Obviamente é preciso continuar a investigação, porque eles devem ser julgados e castigados como se deve”, reconheceu.

Hummes ressaltou que os religiosos envolvidos nesses casos representam um “percentual muito pequeno do clero” porque a “grande maioria dos sacerdotes são pessoas “digníssimas, dedicadas ao ministério, homens de oração e de caridade pastoral”, afirmando que a Igreja está “orgulhosa” de seus sacerdotes espalhados pelo mundo.

Hummes fez estas declarações na carta escrita por ocasião do Ano Sacerdotal, convocado por Bento 16, que terá início no próximo dia 19 de junho em memória dos 150 anos da morte de São João Maria Batista Vianney, sacerdote francês canonizado pelo papa Pio 11 em 1925.

Na semana passada, foi divulgado um relatório elaborado por uma comissão independente irlandesa indicando que “abusos sexuais” nas instituições infantis irlandesas foram “endêmicos” entre 1930 e 1990. A maior autoridade da Igreja Católica da Irlanda, o cardeal Sean Brady, manifestou sua “profunda vergonha” pelo caso.

Há um mês, ao receber indígenas do Canadá, o papa também condenou os abusos cometidos contra esses povos pela Igreja Católica durante o século 20 e pediu que esses comportamentos “não sejam tolerados”.

Desde o final do século 19 até 1970, mais de 150 mil crianças indígenas, mestiças e esquimós foram separadas de suas famílias e enviadas para orfanatos para serem educadas em escolas religiosas, católicas e de outras correntes, onde muitas delas foram vítimas de maus-tratos e de abusos sexuais.

Nos Estados Unidos, os escândalos por acusações de pedofilia custaram às dioceses e às comunidades religiosas, em 2008, US$ 436 milhões em indenizações por casos de abusos sexuais.

Fonte: Folha Online