A sangrenta onda de atentados que na noite desta terça-feira matou pelo menos 175 pessoas no norte do Iraque teve como alvo principal a comunidade “yezidi”, uma minoria religiosa pré-islâmica que tem uma presença reduzida entre os curdos.

As fontes policiais anunciaram que a explosão quase consecutiva de quatro caminhões-bomba carregados de combustível causou também mais de 200 feridos nas localidades de Qatahniya, al-Jazira e al-Beag, perto da cidade de Mossul, na província de Ninawa.

Outras fontes disseram que foram três os caminhões detonados, um deles de grande tonelagem, e todos conduzidos por suicidas.

Foi um dos atentados mais sangrentos no Iraque desde a derrubada do regime do ex-ditador Saddam Hussein, em abril de 2003. A minoria religiosa que habita o norte do país nunca tinha sido atacada com tanta violência.

Os hospitais da região estão lotados com o atendimento às vítimas, que foram levadas por helicópteros do Exército dos Estados Unidos. Os militares americanos colaboraram nos trabalhos de resgate e auxílio aos feridos.

Os “yezidis” são membros de uma antiga minoria religiosa curda, cujas raízes remontam a 2 mil anos antes de Cristo. A religião já foi a oficial dos curdos. Mas a islamização obrigatória reduziu o número de fiéis aos atuais 500 mil.

Os “yezidis” permanecem como uma seita marginalizada e obscura, rejeitada normalmente pela maioria muçulmana. Eles cultuam um anjo chamado Melek Taus, cujo símbolo é um pavão-real. Cristãos e muçulmanos costumam considerar esse culto uma forma de adoração do diabo.

Além do Iraque, os “yezidis” também têm presença em outros enclaves da etnia curda, como na Armênia, Geórgia, Irã, Rússia, Síria e Turquia, além da Alemanha.

Ainda não se sabe quem está por trás dos brutais atentados. Mas todos os indícios preliminares apontam para a insurgência sunita vinculada com a Al Qaeda. Os rebeldes são muito atuantes na região e, recentemente, travaram confrontos com a comunidade.

No dia 7 de abril, membros da seita “yezidi” lapidaram Doa Khalil Asuad, uma jovem de 17 anos que pretendia se casar com um muçulmano.

Menos de duas semanas depois, 21 seguidores da seita morreram numa emboscada armada por um grupo de homens armados. Eles viajavam de ônibus, voltando para suas casas, após trabalhar numa fábrica têxtil na cidade de Mossul.

Após a represália, Hebert Yegorova, porta-voz da Associação Yezidi pela Paz, pediu ao Governo iraquiano e às ONG internacionais proteção para sua comunidade.

“Estamos desesperados com esse massacre porque temos certeza de que em breve haverá mais assassinatos. Foram 204 ‘yezidis’ assassinados nos últimos quatro anos”, declarou Yegorova na ocasião.

No entanto, as proféticas palavras de Yegorova não chamaram a atenção da comunidade internacional e nem dos próprios iraquianos o suficiente para evitar a tragédia.

O atentado aconteceu horas antes do começo da esperada reunião entre representantes de todos os partidos políticos do país, convocada pelo primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki.

Fonte: EFE