FG News: 31 de outubro: Dia da Reforma Protestante

Postado em: 31-10-2013 Hoje, 31 de outubro, é o Dia da Reforma Protestante. Conheça mais sobre a história de Martim Lutero (foto) e o dia em que ele desafiou a Igreja Católica com as suas 95 teses.

Apesar de o mundo tentar apagar esta data trocando pelo dia das bruxas, muitos evangélicos ainda se lembram e celebram este dia que foi um marco na história mundial.

A Reforma protestante foi um movimento iniciado pelo monge agostiniano Martim Lutero, professor de B√≠blia da Universidade de Wittenberg, propondo uma reforma na sua Igreja Cat√≥lica, por causa dos desvios doutrinais das Escrituras Sagradas - da qual a interpreta√ß√£o deveria ser livre - que ele entendia ter autoridade sobre a Igreja e nunca o contr√°rio. A situa√ß√£o foi enfrentada com descaso e a confian√ßa de que a institui√ß√£o de v√°rios s√©culos n√£o teria sua influ√™ncia posta em d√ļvida e nem sofreria abalo.

√Čpoca de mudan√ßa nem sempre √© percebida por todos. H√° 500 anos ou hoje. Ou se percebe e se decide enfrent√°-la pela for√ßa, como reafirma√ß√£o do poder baseado no paradigma superado. A tend√™ncia √© a mente constranger a pluralidade √† unidade, para coagir a realidade a adaptar-se √† sua racionalidade, explicou o te√≥logo Raimon Panikkar. Centros de poder relutam em admitir que germes de mudan√ßas surjam na periferia do mundo, de filhos de camponeses e trabalhadores urbanos, e nem que suas propostas teol√≥gicas tenham consist√™ncia e, ainda menos, que conquistem cora√ß√Ķes e mentes mundo afora.

Hans Luther fez esfor√ßos financeiros para enviar seu filho para escolas em Mansfeld, Magdeburg e Eisenach. Aos dezessete anos, Martim Lutero ingressou na Universidade de Erfurt, tornou-se bacharel em 1502 e concluiu o mestrado em 1505, como o segundo aluno da turma. Atendendo o desejo do pai, inscreveu-se na escola de Direito da mesma Universidade. Mas, ap√≥s uma grande tempestade com trov√Ķes e um raio que caiu pr√≥ximo do caminho por onde passava, gritou "Ajuda-me, Sant'Ana! E eu me tornarei um monge!" Deixou a faculdade, vendeu seus livros e entrou para a ordem dos Agostinianos.

Lutero dedicou-se ao mosteiro e √† ordem, empenhou-se em fazer boas obras para agradar a Deus e servir ao pr√≥ximo, orando por suas almas. Dedicou-se intensamente √† medita√ß√£o, √†s autoflagela√ß√Ķes, √†s ora√ß√Ķes di√°rias, √†s peregrina√ß√Ķes e √†s confiss√Ķes. Mas, quanto mais se esfor√ßava, mais se sentia tomado pela culpa. Seu superior, Johann von Staupitz, decidiu que o jovem precisava de mais trabalho e de contato com a Sagrada Escritura, ordenando que ele iniciasse a carreira acad√™mica. Em 1507, Lutero foi ordenado sacerdote, no ano seguinte come√ßou a lecionar Teologia na Universidade de Wittenberg e visitou Roma dois anos depois, a servi√ßo da ordem.

Em outubro de 1512, Lutero recebeu o título de Doutor em Teologia e foi recebido no Senado da Faculdade Teológica com o título de Doutor em Bíblia. Em 1515 foi nomeado vigário de sua ordem, com autoridade sobre onze monastérios. Nesse período, recebeu formação humanista e estudou grego e hebraico, se aprofundou na origem e no significado das palavras das Escrituras, buscadas ad fontes e que veio a utilizar na sua tradução da Bíblia.

Convencido de haver uma distorção no ensino da doutrina da Justificação pela fé, passou a ensinar que a Salvação era concedida por Deus, apenas por sua graça (sola Gratia), a partir da fé (sola Fides) em Jesus Cristo (solus Christus), conforme anunciado pelas Escrituras Sagradas (sola Scriptura). Além das atividades como professor, Lutero atuava como confessor na igreja de Santa Maria e como pregador na igreja do Castelo (Schlosskirche), chamada de Todos os Santos por causa da coleção de relíquias, mantidas pelo Príncipe Frederico, o sábio. Arguto, o jovem teólogo e sacerdote percebeu como os fiéis eram transformados em fregueses, pela venda de indulgências, e por isso escreveu suas 95 teses.

No debate com Johann Eck, em Leipzig (1519), Lutero negou que o Papa tivesse o poder das chaves, a autoridade exclusiva de perdoar pecados, um poder outorgado à Igreja como comunidade da fé. Negou que a salvação fosse exclusiva da Igreja ocidental sob a autoridade do Papa, mas que também existia na Igreja Ortodoxa, oriental. Os debates (disputatio) teológicos propiciavam a difusão das idéias. Da mesma forma os tipos móveis inventados por Gutenberg, para impressão de textos, possibilitaram a ampla circulação dos escritos de Lutero, que alcançaram Holanda, França, Inglaterra e Itália.

Essa publicidade chamou a aten√ß√£o dos estudantes de teologia, que dirigiam-se a Wittenberg para escutar as prele√ß√Ķes de Lutero, que provocavam debates. As controv√©rsias geradas pelos escritos e debates levaram Lutero a desenvolver sua doutrina do sacramento e da Eucaristia, especialmente atrav√©s dos seus serm√Ķes, tamb√©m publicados.

Os seus textos mais conhecidos por seu impacto surgiram em 1520: Sobre o Papado em Roma, desenvolvendo o conceito luterano de igreja; o Serm√£o das Boas Obras, √© contr√°rio √† doutrina cat√≥lica das boas obras e dos atos como meio de perd√£o, mantendo que as obras do crente resultam da salva√ß√£o e n√£o s√£o meios para conquist√°-la, disputa que possibilitou o contato com humanistas como Melanchthon, Reuchlin e Erasmo de Roterd√£; √Ä Nobreza Crist√£ da Na√ß√£o Alem√£" (1520), neutralizando a no√ß√£o de estamento espiritual (Geystlich Stand), recomendando os crist√£os leigos como dignos do mesmo respeito destinado aos sacerdotes e criticando privil√©gios mundanos do sistema; o Cativeiro Babil√īnico da Igreja, afirmando a presen√ßa real do corpo e do sangue do Cristo na eucaristia, a justifica√ß√£o no batismo - combinado com a f√© salvadora no receber - e a penit√™ncia como palavra de promessa de desculpas recebidas com f√©; e Da Liberdade crist√£, afirmando que pela f√© o crist√£o √© senhor soberano e em nada sujeito a ningu√©m, e pelo amor, √© servo de todos.

Diante da amea√ßa de excomunh√£o, Lutero enviou seu escrito Da Liberdade crist√£, com a frase Eu n√£o me submeto a leis ao interpretar a palavra de Deus. Queimou a bula em p√ļblico e o Papa Le√£o X o excomungou em 1521, com a bula Decet Romanum Pontificem. A execu√ß√£o da proibi√ß√£o foi evitada pela rela√ß√£o do Papa com o pr√≠ncipe Frederico, da Sax√īnia, e pelo novo imperador, Carlos V, do Sacro Imp√©rio Romano Germ√Ęnico. A paz foi selada 482 depois com uma Declara√ß√£o Conjunta em 1999.

95 teses

As 95 teses fixadas na porta da Igreja do Castelo (Schlosskirche) são um libelo contra o sistema de perdão parcial ou total do castigo temporal pelos pecados. A indulgência era um documento que assegurava a remissão do castigo imposto a uma pessoa por causa dos seus pecados. Qualquer pessoa poderia adquirir esse documento que assegura a indulgência, para si mesmo e até para um parente já morto que estivesse no Purgatório.

A no√ß√£o presente nas indulg√™ncias √© que a Igreja era a respons√°vel pela guarda do tesouro das boas obras praticadas pelos crist√£os, a ela ligados. No racioc√≠nio jur√≠dico teol√≥gico, ela tinha a autoridade para administrar essa riqueza espiritual, atrav√©s da qual os pecadores poderiam ser resgatados. A troca se estabelecia atrav√©s do pagamento de um valor estabelecido, pelo qual o fiel recebia um documento assegurando a salva√ß√£o dele ou de seu parente. Essa no√ß√£o se torna mais que chocante, at√© mesmo ofensiva para Lutero, em raz√£o de toda a teologia que aprendeu e viveu em sua forma√ß√£o agostiniana. Era um abuso que precisava ser corrigido. Por isso a reda√ß√£o de suas teses, debatidas com seus alunos, e divulgadas na porta da Igreja do Castelo, em raz√£o das missas dos dias 1¬ļ e 2 de novembro, freq√ľentadas pelo alto clero e a nobreza.

O frade dominicano Johann Tetzel fora recrutado para viajar atrav√©s dos territ√≥rios episcopais do arcebispo Alberto de Mog√ļncia, promovendo e vendendo indulg√™ncias, com o objetivo de financiar as reformas da Bas√≠lica de S√£o Pedro, em Roma. Lutero viu esta estrat√©gia das indulg√™ncias como um tr√°fico e um abuso que poderia confundir as pessoas e lev√°-las a confiar apenas nas indulg√™ncias, deixando de lado a confiss√£o e o arrependimento verdadeiros. Proferiu, ent√£o, tr√™s serm√Ķes contra as indulg√™ncias em 1516 e 1517, assumindo a √™nfase expressa na tese n√ļmero 62: o verdadeiro tesouro da Igreja √© o sant√≠ssimo evangelho da gl√≥ria e da gra√ßa de nosso Senhor Jesus Cristo.

O texto fixado na porta da Igreja do Castelo era um convite aberto ao debate dessas teses que condenavam a avareza e o paganismo na Igreja como um abuso, e pediam um debate teol√≥gico sobre o que as Indulg√™ncias significavam. O documento n√£o inflama as popula√ß√Ķes contra as autoridades, mas indaga a postura da Igreja que se disp√Ķe a usar este recurso. Elas foram traduzidas para o alem√£o e, amplamente copiadas e impressas, tinham sido espalhadas em 15 dias por toda a Alemanha e, em dois meses, por toda a Europa. Este foi o primeiro epis√≥dio da Hist√≥ria em que a imprensa teve papel fundamental, com a simples distribui√ß√£o de um documento.

Leia abaixo as 95 teses:

1 Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.
2 Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).
3 No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula, se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.
4 Por conseq√ľ√™ncia, a pena perdura enquanto persiste o √≥dio de si mesmo (isto √© a verdadeira penit√™ncia interior), ou seja, at√© a entrada do reino dos c√©us.
5 O papa n√£o quer nem pode dispensar de quaisquer penas sen√£o daquelas que imp√īs por decis√£o pr√≥pria ou dos c√Ęnones.
6 O papa n√£o pode remitir culpa alguma sen√£o declarando e confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem d√ļvida, remitindo-a nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecer√° por inteiro.
7 Deus n√£o perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeit√°-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vig√°rio.
8 Os c√Ęnones penitenciais s√£o impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos c√Ęnones, nada deve ser imposto aos moribundos.
9 Por isso, o Esp√≠rito Santo nos beneficia atrav√©s do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunst√Ęncia da morte e da necessidade.
10 Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penit√™ncias can√īnicas para o purgat√≥rio.
11 Essa erva daninha de transformar a pena can√īnica em pena do purgat√≥rio parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.
12 Antigamente se impunham as penas can√īnicas n√£o depois, mas antes da absolvi√ß√£o, como verifica√ß√£o da verdadeira contri√ß√£o.
13 Atrav√©s da morte, os moribundos pagam tudo e j√° est√£o mortos para as leis can√īnicas, tendo, por direito, isen√ß√£o das mesmas.
14 Sa√ļde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais, quanto menor for o amor.
15 Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.
16 Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.
17 Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor.
18 Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.
19 Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza.
20 Portanto, sob remiss√£o plena de todas as penas, o papa n√£o entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo imp√īs.
21 Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.
22 Com efeito, ele n√£o dispensa as almas no purgat√≥rio de uma √ļnica pena que, segundo os c√Ęnones, elas deveriam ter pago nesta vida.
23 Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
24 Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.
25 O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.
26 O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.
27 Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].
28 Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.
29 E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas? Dizem que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascoal.
30 Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.
31 Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.
32 Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.
33 Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Deus.
34 Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.
35 Não pregam cristãmente os que ensinam não ser necessária a contrição àqueles que querem resgatar ou adquirir breves confessionais.
36 Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência.
37 Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta de indulgência.
38 Mesmo assim, a remissão e participação do papa de forma alguma devem ser desprezadas, porque (como disse) constituem declaração do perdão divino.
39 Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar perante o povo ao mesmo tempo, a liberdade das indulgências e a verdadeira contrição.
40 A verdadeira contri√ß√£o procura e ama as penas, ao passo que a abund√Ęncia das indulg√™ncias as afrouxa e faz odi√°-las, pelo menos dando ocasi√£o para tanto.
41 Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.
42 Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.
43 Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.
44 Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.
45 Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.
46 Deve-se ensinar aos crist√£os que, se n√£o tiverem bens em abund√Ęncia, devem conservar o que √© necess√°rio para sua casa e de forma alguma desperdi√ßar dinheiro com indulg√™ncia.
47 Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.
48 Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder indulgências, o papa, assim como mais necessita, da mesma forma mais deseja uma oração devota a seu favor do que o dinheiro que se está pronto a pagar.
49 Deve-se ensinar aos crist√£os que as indulg√™ncias do papa s√£o √ļteis se n√£o depositam sua confian√ßa nelas, por√©m, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.
50 Deve-se ensinar aos crist√£os que, se o papa soubesse das exa√ß√Ķes dos pregadores de indulg√™ncias, preferiria reduzir a cinzas a Bas√≠lica de S. Pedro a edific√°-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51 Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto - como é seu dever - a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.
52 Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.
53 São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.
54 Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.
55 A atitude do papa √© necessariamente esta: se as indulg√™ncias (que s√£o o menos importante) s√£o celebradas com um toque de sino, uma prociss√£o e uma cerim√īnia, o Evangelho (que √© o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, prociss√Ķes e cerim√īnias.
56 Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.
57 √Č evidente que eles, certamente, n√£o s√£o de natureza temporal, visto que muitos pregadores n√£o os distribuem t√£o facilmente, mas apenas os ajuntam.
58 Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.
59 S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.
60 √Č sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que lhe foram proporcionadas pelo m√©rito de Cristo, constituem este tesouro.
61 Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos, o poder do papa por si só é suficiente.
62 O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.
63 Este tesouro, entretanto, √© o mais odiado, e com raz√£o, porque faz com que os primeiros sejam os √ļltimos.
64 Em contrapartida, o tesouro das indulg√™ncias √© o mais benquisto, e com raz√£o, pois faz dos √ļltimos os primeiros.
65 Por esta raz√£o, os tesouros do Evangelho s√£o as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.
66 Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.
67 As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tal, na medida em que dão boa renda.
68 Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade na cruz.
69 Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.
70 Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbido pelo papa.
71 Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.
72 Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.
73 Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,
74 muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram defraudar a santa caridade e verdade.
75 A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.
76 Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua culpa.
77 A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa.
78 Afirmamos, ao contrário, que também este, assim como qualquer papa, tem graças maiores, quais sejam, o Evangelho, os poderes, os dons de curar, etc., como está escrito em 1 Co 12.
79 √Č blasf√™mia dizer que a cruz com as armas do papa, insignemente erguida, equivale √† cruz de Cristo.
80 Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes conversas sejam difundidas entre o povo.
81 Essa licenciosa prega√ß√£o de indulg√™ncias faz com que n√£o seja f√°cil, nem para os homens doutos, defender a dignidade do papa contra cal√ļnias ou perguntas, sem d√ļvida argutas, dos leigos.
82 Por exemplo: por que o papa n√£o evacua o purgat√≥rio por causa do sant√≠ssimo amor e da extrema necessidade das almas - o que seria a mais justa de todas as causas -, se redime um n√ļmero infinito de almas por causa do funest√≠ssimo dinheiro para a constru√ß√£o da bas√≠lica - que √© uma causa t√£o insignificante?
83 Do mesmo modo: por que se mant√™m as ex√©quias e os anivers√°rios dos falecidos e por que ele n√£o restitui ou permite que se recebam de volta as doa√ß√Ķes efetuadas em favor deles, visto que j√° n√£o √© justo orar pelos redimidos?
84 Do mesmo modo: que nova piedade de Deus e do papa é essa: por causa do dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, porém não a redimem por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta, por amor gratuito?
85 Do mesmo modo: por que os c√Ęnones penitenciais - de fato e por desuso j√° h√° muito revogados e mortos - ainda assim s√£o redimidos com dinheiro, pela concess√£o de indulg√™ncias, como se ainda estivessem em pleno vigor?
86 Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?
87 Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à remissão e participação plenária?
88 Do mesmo modo: que benef√≠cio maior se poderia proporcionar √† Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remiss√Ķes e participa√ß√Ķes 100 vezes ao dia a qualquer dos fi√©is?
89 Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?
90 Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela for√ßa, sem refut√°-los apresentando raz√Ķes, significa expor a Igreja e o papa √† zombaria dos inimigos e desgra√ßar os crist√£os.
91 Se, portanto, as indulg√™ncias fossem pregadas em conformidade com o esp√≠rito e a opini√£o do papa, todas essas obje√ß√Ķes poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.
92 Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo: "Paz, paz!" sem que haja paz!
93 Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: "Cruz! Cruz!" sem que haja cruz!
94 Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno;
95 e, assim, a que confiem que entrar√£o no c√©u antes atrav√©s de muitas tribula√ß√Ķes do que pela seguran√ßa da paz.

Declaração Conjunta - mais semelhanças que diferenças

A Declaração Conjunta sobre a Justificação (DC), assinada entre católicos e luteranos em 31 de outubro de 1999, começou com o trabalho da Comissão Mista Internacional Católico-Romana e Evangélico-Luterana, realizado desde 1972. No Brasil esse documento chegou para ser debatido num Seminário realizado em Porto Alegre (RS) em 1996, em resposta a uma consulta do Vaticano e da Federação Luterana Mundial (FLM), com objetivo de alcançar consenso em nível internacional. As conferências, debates e o texto da DC foram debatidos em clima de oração e de escuta.

O texto foi saudado com alegria pelo Cardeal Lorscheider. "Chegados a um consentimento sobre a doutrina da justifica√ß√£o, cat√≥licos e luteranos poder√£o dar-se as m√£os. Ulteriores quest√Ķes concernentes √† Igreja, aos sacramentos, de modo particular √† eucaristia e ao minist√©rio ordenado, poder√£o ter solu√ß√£o mais f√°cil e at√© mais r√°pida". Marcado pela dualidade, o crist√£o, "mesmo fundamentalmente inserido em Cristo, encontra-se todavia afetado pelo pecado. √Č ao mesmo tempo justo e pecador (simul iustus et peccator), como a Igreja √© ao mesmo tempo santa e pecadora (sancta simul et semper purificanda - povo santo e pecador!)

O pastor Gottfried Brakemeier, √† √©poca presidente da Igreja Evang√©lica de Confiss√£o Luterana no Brasil (IECLB) e da FLM, informou que a Comiss√£o Mista reuniu-se duas vezes na Alemanha para revisar o texto e submet√™-lo √† aprova√ß√£o. Para a Comiss√£o, √† primeira vista as diverg√™ncias pareciam irreconcili√°veis, especialmente por terem resultado nas condena√ß√Ķes rec√≠procas, contidas nos decretos do Conc√≠lio de Trento, cujas atas s√≥ foram tornadas p√ļblicas na segunda metade do s√©culo passado, e no Livro de Conc√≥rdia, que re√ļne as confiss√Ķes luteranas da √©poca.

Importante avan√ßo foi o Conc√≠lio Vaticano II ter reconhecido "sinais de santifica√ß√£o e verdade tamb√©m fora do √Ęmbito da Igreja Cat√≥lica Romana, j√° n√£o mais permitindo a condena√ß√£o sum√°ria de membros de outras Igrejas. Analogamente as Igrejas Luteranas jamais negaram haver prega√ß√£o pura do evangelho e administra√ß√£o correta dos sacramentos tamb√©m na Igreja Cat√≥lica, crit√©rios estes que segundo a Confiss√£o de Augsburgo identificam a verdadeira Igreja de Jesus Cristo".

O consenso alcan√ßado na DC √© um exemplo de unidade na diversidade reconciliada. Ecumenismo s√©rio sempre significa aprendizado. Isso nos d√° par√Ęmetros e limites: avan√ßo ecum√™nico na confiss√£o de f√© comum sabe que a unidade em Cristo √© anterior √†s divis√Ķes dos crist√£os. Sem essa consci√™ncia n√£o somos capazes de vencer barreiras de separa√ß√£o. "Portanto ecumenismo n√£o produz a unidade. Cabe-lhe apenas tornar vis√≠vel a unidade que em Cristo j√° nos foi dada. Todo o esfor√ßo ecum√™nico entre as Igrejas parte desse consenso fundamental".

Lutero ainda provoca debates

O jornalista e escritor espanhol Jes√ļs Bastante Li√©bana concedeu entrevista no lan√ßamento de seu livro Cisma, durante a qual afirmou que "o Papa poderia reabilitar Lutero", lembrando que Bento XVI "j√° concebeu a possibilidade de reabilitar Lutero" e inclusive a de realizar "uma viagem imediata, possivelmente nesta primavera, √† Sax√īnia", regi√£o da Alemanha onde Lutero pregou suas teses e traduziu o Novo Testamento ao alem√£o.

Li√©bana afirmou que cat√≥licos e protestantes "unem-se em muito mais coisas do que as que os separam", circunst√Ęncia que o Papa "conhece muito bem". Observando que "n√£o se deve esquecer que ele √© alem√£o e, na Alemanha, p√°tria de Lutero, evang√©licos e cat√≥licos convivem em um plano de igualdade num√©rica e jur√≠dica", acrescentou.

Cisma √© um romance hist√≥rico, publicado pelas Ediciones B, narrando o cisma protestante, uma √©poca apaixonante da hist√≥ria, declara o autor. Li√©bana considera que Lutero e o cisma protestante" s√£o absolutamente desconhecidos para o p√ļblico", apesar de que, lembrou ele, nos primeiros momentos da Reforma, o imperador Carlos V e o Papa Adriano VI foram "duas figuras relevantes de Castilla, e imprescind√≠veis".

"Trata-se de uma √©poca apaixonante da Hist√≥ria e, ao mesmo tempo, cheia de simplifica√ß√Ķes, fruto do desconhecimento", observa Li√©bana, assumindo que Lutero "era um iluminado, um personagem estranho e com profundas mudan√ßas de humor e personalidade". "Com certeza, n√£o foi um herege, mas um reformador: ele n√£o queria romper com a Igreja, mas sim reformar o que considerava como abusos", considerando que Lutero n√£o quis criar uma religi√£o fora da Igreja Cat√≥lica, mas "os acontecimentos e a soberba pessoal o levaram a promover o cisma".

Talvez fosse poss√≠vel frear o cisma, j√° que as den√ļncias de Lutero "eram compartilhadas por boa parte da Igreja". Por outro lado, Li√©bana mostrou-se convencido de que, ap√≥s a leitura do romance, "muitos cat√≥licos considerar√£o que Lutero estava certo em muitas de suas reivindica√ß√Ķes, e os protestantes, que a ruptura com Roma foi desnecess√°ria e fruto de manobras pol√≠ticas, n√£o espirituais". E ponderou: "o que me parece fundamental √© que se veja que, 500 anos depois, cat√≥licos e protestantes compartilham a mesma f√©, vivem na mesma cultura e t√™m concep√ß√Ķes exatas sobre a sociedade e o di√°logo f√© e raz√£o".

"Foi um verdadeiro prazer escrever esse romance e tentar unir a precisão histórica com a trama literária", concluiu.

Fonte: Site da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil

Nota: esta notícia foi originalmente publicada no dia 31 de outubro de 2011