FG News: Revista Veja: Os novos pastores

Postado em: 09-07-2006 Pastor Silas MalafaiaCom menos √™nfase no sobrenatural e mais investimento em t√©cnicas de auto-ajuda, a nova gera√ß√£o de pregadores evang√©licos multiplica o rebanho protestante e aumenta a sua penetra√ß√£o na classe m√©dia. Entre estes pregadores, segundo a VEJA, est√° o pastor Silas Malafaia (foto), um dos nomes mais conhecidos da Assembl√©ia de Deus, que chega a vender, por ano, 1 milh√£o de DVDs e CDs de prega√ß√Ķes de conte√ļdo motivacional.

A informa√ß√£o foi divulgada pela primeira vez no √ļltimo m√™s de maio, para perplexidade dos 320 bispos cat√≥licos reunidos na 44¬™ Assembl√©ia Geral da Confer√™ncia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Indaiatuba, no interior de S√£o Paulo: nas √ļltimas d√©cadas, a Igreja Cat√≥lica brasileira perdeu nada menos do que 15 milh√Ķes de almas, segundo pesquisa de mobilidade religiosa feita pelo Centro de Estat√≠stica Religiosa e Investiga√ß√Ķes Sociais (Ceris). O trabalho, coordenado pela soci√≥loga S√≠lvia Regina Fernandes, abrangeu cinq√ľenta munic√≠pios brasileiros, sendo 23 capitais, e foi realizado entre agosto e novembro de 2004.

De acordo com o estudo, o primeiro motivo pelo qual o cat√≥lico vem abandonando a doutrina √© a discord√Ęncia em rela√ß√£o aos seus princ√≠pios. O segundo √© a sensa√ß√£o de n√£o ser acolhido pela igreja e o terceiro √© o fato de n√£o ter encontrado nela apoio para os momentos dif√≠ceis. Os resultados da pesquisa do Ceris embutiam um desconcertante corol√°rio: de que, de cada dez ex-cat√≥licos, sete se tornaram evang√©licos. De 2000, ano do √ļltimo censo, a 2003, o n√ļmero de evang√©licos brasileiros passou de 15% para quase 18% da popula√ß√£o, conforme estudo in√©dito feito pela Funda√ß√£o Getulio Vargas (FGV) e coordenado pelo economista Marcelo Neri. Em valores absolutos, isso significa dizer que, em tr√™s anos, quase 6 milh√Ķes de brasileiros aderiram ao protestantismo, que continua crescendo com f√īlego renovado gra√ßas ao trabalho de uma nova gera√ß√£o de pastores.

Das três grandes correntes evangélicas presentes hoje no Brasil, a neopentecostal é a que mais cresce. Surgida na década de 70, ela teve como principais expoentes pregadores como o pastor Romildo Ribeiro Soares, conhecido como R.R. Soares, e o bispo Edir Macedo. Juntos, eles fundaram a Universal do Reino de Deus e lotaram estádios com seus brados de cura e suas performances exorcistas. Eram tempos muito diferentes para os evangélicos: no início dos anos 90, eles não passavam de 9% da população brasileira. Na tentativa, então, de abrir portas para o neopentecostalismo nascente, alguns pastores acabaram por arrombá-las.

Um dos epis√≥dios mais famosos ocorreu em 1995, durante a transmiss√£o do programa Despertar da F√©, na TV Record. Para salientar a diferen√ßa entre os evang√©licos e os "adoradores de imagem" cat√≥licos, o pastor Sergio von Helde, da Universal do Reino de Deus, desferiu socos e pontap√©s em uma est√°tua de Nossa Senhora Aparecida. A cena foi ao ar no dia 12 de outubro, data que os cat√≥licos devotam √† santa, e ganhou tamanha repercuss√£o que, quatro dias depois, o bispo Edir Macedo foi obrigado a ir √† TV pedir desculpas p√ļblicas aos cat√≥licos. Embora Macedo continue a ocupar o posto de l√≠der m√°ximo da Universal e R.R. Soares, hoje l√≠der de uma igreja dissidente, mantenha no ar seu programa religioso h√° mais de 25 anos, ambos os religiosos pertencem a uma gera√ß√£o passada. Na prega√ß√£o das novas estrelas evang√©licas n√£o h√° espa√ßo para destrui√ß√£o de santos ou descri√ß√Ķes sobre o apocalipse e o dem√īnio. O Deus que pregam os telepastores da segunda gera√ß√£o n√£o tem na ira sua caracter√≠stica principal. Tampouco cultiva o h√°bito de espreitar as carteiras de fi√©is √† procura de tost√Ķes secretamente sonegados, como sugeriam, amea√ßadores, muitos dos pastores antigos, defensores da tese de que uma boa gra√ßa tem seu pre√ßo.

A nova gera√ß√£o de l√≠deres evang√©licos achou um caminho muito mais certeiro e √ļtil de chegar ao cora√ß√£o dos fi√©is: o da auto-ajuda. A promessa √© a mesma que ofereciam pentecostais e neopentecostais da gera√ß√£o passada: o da felicidade e prosperidade aqui e agora. S√≥ que, para alcan√ß√°-las, os novos pastores sugerem outras ferramentas: al√©m da f√©, o bom senso; somado √† interven√ß√£o divina, o esfor√ßo individual. "O discurso atual d√° mais √™nfase ao pragmatismo e √† pr√≥-atividade do fiel do que ao sobrenatural", avalia o pesquisador da PUC-SP Adilson Jos√© Francisco. "Em vez de pregar, como fazem algumas igrejas, a liberta√ß√£o de todos os males por meio do exorcismo, por exemplo, esses pastores adotam alguns conceitos da psicologia: para se livrar dos problemas, √© preciso uma mudan√ßa de atitude, na maneira de ver o mundo", explica o antrop√≥logo Fl√°vio Conrado, pesquisador do Instituto de Estudos da Religi√£o.

Um indicativo claro dessa transforma√ß√£o est√° na compara√ß√£o da produ√ß√£o liter√°ria dos velhos e dos novos pastores. T√≠tulos como A F√© de Abra√£o ou Estudo do Apocalipse, assinados pelo bispo Edir Macedo, abrem lugar nas prateleiras das livrarias evang√©licas para obras com t√≠tulos como Jamais Desista! , do pastor metodista Silmar Coelho, ou Vencendo Obst√°culos e Conquistando Vit√≥rias, de autoria de Silas Malafaia. Um dos nomes mais conhecidos da Assembl√©ia de Deus, o Revista Veja - Edi√ß√£o 1964pastor Malafaia chega a vender, por ano, 1 milh√£o de DVDs e CDs de prega√ß√Ķes de conte√ļdo motivacional. Em seus discursos, as par√°bolas b√≠blicas d√£o lugar √† objetividade de um Lair Ribeiro. Conflito amoroso? "Vem c√°, minha filha: o sujeito √© bonit√£o e sarado, mas n√£o trabalha nem estuda? Ent√£o, fica com o magrinho narigudo que √© melhor! Ele pode ser feio mas √© trabalhador", brada o pastor. Perda de emprego? "Meu amigo, voc√™ ganhava 700 reais e viu abrir uma porta de 300 reais? Mete a cara! N√£o fica dizendo que Deus est√° olhando, que vai abrir uma porta melhor... Deus t√° vendo o qu√™, rapaz? Vai trabalhar!" "Os neopentecostais pregam o fa√ßa-voc√™-mesmo", afirma o historiador e especialista em religi√Ķes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Eduardo Bastos de Albuquerque. "E, muitas vezes, a t√©cnica funciona. Ao deixar de beber, fumar, brigar dentro de casa e ao passar a trabalhar, o fiel alcan√ßa, de fato, uma melhoria de vida."

Para o soci√≥logo Ricardo Mariano, da PUC do Rio Grande do Sul, o sucesso do discurso dos novos pastores est√° diretamente relacionado ao que ele chama de "desencanto" dos fi√©is em rela√ß√£o √† id√©ia da "barganha" com Deus proposta pelos antigos pregadores. "H√° certa decep√ß√£o com esse discurso f√°cil de que bastaria dar o d√≠zimo e orar que Deus deixaria todo mundo feliz, vitorioso e saud√°vel", diz. O soci√≥logo chama ainda aten√ß√£o para o fato de que, ao enfatizarem a import√Ęncia da racionalidade em detrimento da magia, os novos pastores est√£o mirando um segmento que, embora ainda incipiente, come√ßa a crescer: o dos fi√©is de classe m√©dia.

As √ļltimas pesquisas indicam que a maior parte dos evang√©licos ainda pertence √†s classes econ√īmicas mais pobres. O estudo "Retratos das religi√Ķes no Brasil", divulgado no ano passado pela FGV, mostra que, enquanto o porcentual de evang√©licos em todo o pa√≠s, em 2000, era de 15%, na periferia das regi√Ķes metropolitanas ele chegava a 20%. Na compara√ß√£o com fi√©is de outras religi√Ķes, a situa√ß√£o socioecon√īmica dos evang√©licos tamb√©m √© desfavor√°vel. Em m√©dia, eles ganham 7% a menos do que os trabalhadores cat√≥licos, diz a pesquisa. Alguns ind√≠cios, no entanto, sugerem que as igrejas evang√©licas come√ßam a penetrar de forma mais intensa nas classes econ√īmicas mais altas. A forma√ß√£o dos pr√≥prios pregadores √© um desses indicativos.

O decano R.R. Soares, por exemplo, √© filho de pedreiro, n√£o tem curso superior e, antes de ingressar na carreira religiosa, era comerciante, assim como Edir Macedo. Dos cinco pastores da nova gera√ß√£o ouvidos por VEJA, quatro t√™m curso superior e dois deles possuem p√≥s-gradua√ß√£o: Malafaia, da Assembl√©ia de Deus, √© te√≥logo e psic√≥logo; Rinaldo de Seixas Pereira, da Bola de Neve Church, √© formado em propaganda e marketing, com p√≥s-gradua√ß√£o em marketing; Silmar Coelho, da Igreja Metodista Wesleyana, √© te√≥logo, com doutorado em teologia e lideran√ßa; e Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, √© f√≠sico, com especializa√ß√£o em resson√Ęncia magn√©tica nuclear.

A qualifica√ß√£o desses novos pregadores n√£o contribuiu apenas para que eles modernizassem seus discursos, mas, em alguns casos, para que aprimorassem t√©cnicas de gerenciamento de suas igrejas tamb√©m. O conceito de segmenta√ß√£o est√° presente nos espa√ßos e eventos dedicados ao p√ļblico jovem da igreja Sara Nossa Terra. "Dar um tratamento diferenciado a jovens ou idosos √© uma preocupa√ß√£o que n√£o existe nas igrejas evang√©licas mais antigas", diz o professor e pesquisador da Universidade de Bras√≠lia Rog√©rio Rodrigues da Silva.

Os evang√©licos s√£o hoje o grupo religioso que mais cresce no Brasil ‚Äď e nada indica que isso v√° mudar. Basta ver a rapidez com que a igreja cria novas lideran√ßas. Atualmente, o n√ļmero de pastores evang√©licos por fiel √© dezoito vezes maior que a propor√ß√£o de padres por cat√≥lico. Enquanto a Igreja Cat√≥lica n√£o consegue ordenar mais do que 900 padres por ano, s√≥ um √ļnico instituto evang√©lico de S√£o Paulo forma, no mesmo per√≠odo, 200 pastores. O sucesso da doutrina, a facilidade de comunica√ß√£o com os fi√©is e a efici√™ncia na gest√£o das igrejas permitem vislumbrar templos evang√©licos cada vez mais cheios. Proje√ß√£o feita pelo economista Marcelo Neri indica que em 2015 mais de 20% da popula√ß√£o brasileira ser√° evang√©lica. √Č o rebanho cada vez mais satisfeito com o que lhe proporciona sua f√©.

Leia a matéria completa na Revista Veja - Edição 1964 . 12 de julho de 2006