Ci√™ncia & Sa√ļde: Estudo associa s√≠ndrome da fadiga cr√īnica a um tipo de v√≠rus

Postado em: 26-08-2010 No √ļltimo outono, quando a revista ‚ÄúScience‚ÄĚ publicou um chamativo estudo associando a s√≠ndrome da fadiga cr√īnica a um retrov√≠rus rec√©m-descoberto, muitos especialistas se mantiveram c√©ticos ‚Äď especialmente depois que quatro outros estudos n√£o encontraram nenhuma associa√ß√£o parecida.

Agora, uma segunda equipe de pesquisa relatou uma liga√ß√£o entre a s√≠ndrome da fadiga e a mesma classe de v√≠rus, uma categoria conhecida como v√≠rus relacionados ao MRV. Num artigo publicado na segunda-feira por ‚ÄúThe Proceedings of the National Academy of Sciences‚ÄĚ, cientistas descobriram sequ√™ncias gen√©ticas de diversos v√≠rus relacionados ao MRV em c√©lulas sangu√≠neas em 32 de 37 pacientes com fadiga cr√īnica, mas apenas tr√™s em 44 pessoas saud√°veis.

Os pesquisadores n√£o encontraram XMRV, o retrov√≠rus espec√≠fico identificado em pacientes no √ļltimo outono. Por√©m, ao confirmar a presen√ßa de um grupo de v√≠rus geneticamente similares, o novo estudo representa um avan√ßo significativo, segundo especialistas.

‚ÄúEu acho que isso esclarece a quest√£o de se o estudo inicial era verdadeiro ou n√£o‚ÄĚ, disse K. Kimberly McCleary, presidente da CFIDS Association of America, a principal organiza√ß√£o para pessoas com a s√≠ndrome da fadiga cr√īnica.

Leonard A. Jason, professor de psicologia da Universidade DePaul e um dos principais pesquisadores da síndrome, concorda.

‚ÄúEssa classe de retrov√≠rus ser√° provavelmente uma importante pe√ßa do quebra-cabe√ßa‚ÄĚ, disse ele.

A s√≠ndrome da fadiga cr√īnica ‚Äď que, segundo estimativas, atinge um milh√£o de norte-americanos ‚Äď n√£o possui uma causa conhecida, nem exames de diagn√≥stico, embora os pacientes mostrem sinais de anormalidades imunol√≥gicas, neurol√≥gicas e endocrinol√≥gicas. Al√©m de uma severa exaust√£o, os sintomas incluem dist√ļrbios de sono, problemas cognitivos, dores em m√ļsculos e juntas, inflama√ß√£o na garganta e dor de cabe√ßa.

O novo artigo, produzido por pesquisadores do Instituto Nacional de Sa√ļde, da FDA (√≥rg√£o que regulamenta a comercializa√ß√£o de medicamentos e alimentos nos EUA) e da Faculdade de Medicina de Harvard, foi aceito para publica√ß√£o em maio. Redes sociais e comunidades online logo descobriram as informa√ß√Ķes gerais e esperavam avidamente pelo artigo.

Em julho, por√©m, pesquisadores de outra ag√™ncia federal, os Centros de Controle e Preven√ß√£o de Doen√ßas (CDC, da sigla em ingl√™s), publicaram um estudo que n√£o encontrou XMRV ou outros v√≠rus relacionados ao MRV em pacientes com a s√≠ndrome. As descobertas conflitantes levaram os editores da ‚ÄúProceedings‚ÄĚ, assim como os autores do novo artigo, a postergar a publica√ß√£o e obter mais revis√Ķes. Alguns pacientes expressaram preocupa√ß√£o de que importantes informa√ß√Ķes cient√≠ficas pudessem ser omitidas.

Esperança

Pessoas com um diagn√≥stico de s√≠ndrome da fadiga cr√īnica est√£o acostumadas a ouvir cientistas, m√©dicos, empregadores, amigos e familiares afirmarem que a condi√ß√£o √© psicossom√°tica ou relacionada a estresse ou traumas, apesar das evid√™ncias de que ela √© frequentemente deflagrada por uma doen√ßa viral aguda. Muitos ficaram euf√≥ricos ao saber que o segundo estudo estava sendo publicado.

‚ÄúRealmente esperamos que isso mude a vis√£o das coisas‚ÄĚ, afirmou Mary Schweitzer, uma historiadora que escreveu e palestrou sobre portar a doen√ßa. ‚ÄúOs pacientes est√£o esperan√ßosos que agora a pr√≥pria doen√ßa possa ser levada com seriedade, que eles ser√£o tratados com seriedade, e que pode haver uma solu√ß√£o‚ÄĚ.

O principal autor do novo artigo, Dr. Harvey J. Alter, especialista em doen√ßas infecciosas do Instituto Nacional de Sa√ļde, disse estar bastante ciente a respeito do interesse em suas descobertas, mas que estava impossibilitado de responder publicamente.

‚ÄúEu concordava com o desejo de saber das pessoas. Era dif√≠cil, pois n√£o pod√≠amos nos comunicar diretamente com a comunidade de pacientes at√© que o artigo fosse publicado‚ÄĚ, disse ele.

Os retrov√≠rus, incluindo o HIV, armazenam seu c√≥digo gen√©tico como RNA, o convertem em DNA e se integram ao genoma das c√©lulas hospedeiras para replicar. Pelo menos tr√™s medicamentos antirretrovirais, usados contra o HIV, mostraram em laborat√≥rio que inibem o XMRV, que tamb√©m foi associado ao c√Ęncer na pr√≥stata.

Medicamentos

Alguns pacientes com fadiga cr√īnica j√° est√£o experimentando medicamentos para HIV prescritos para outros fins. Uma paciente, a Dra. Jamie Deckoff-Jones, m√©dica de Santa Fe, no Novo M√©xico, administra um blog bastante popular sobre sua melhora de sa√ļde ao tomar antirretrovirais prescritos por seu m√©dico.

‚ÄúAcho que os pacientes mais doentes t√™m o direito de tentar esses medicamentos‚ÄĚ, comentou, por e-mail.
Alter foi r√°pido em apontar que ‚Äúainda foi provado‚ÄĚ que um retrov√≠rus cause a s√≠ndrome da fadiga cr√īnica. Essa infec√ß√£o poderia resultar de problemas b√°sicos do sistema imunol√≥gico.

Al√©m disso, continua sendo incerto por que apenas duas equipes de pesquisa descobriram evid√™ncias de retrov√≠rus. Uma raz√£o poderia ser que equipes diferentes tenham usado m√©todos diversificados de testes e detec√ß√£o; autoridades federais de sa√ļde organizaram um esfor√ßo para padronizar o processo.

Os estudos tamb√©m usaram m√©todos distintos para a amostragem de pacientes com a s√≠ndrome. Muitos especialistas e pesquisadores argumentam que a estrat√©gia dos CDC levaria a um exagero de diagn√≥sticos, pois falha em distinguir completamente a doen√ßa de dist√ļrbios psiqui√°tricos como a depress√£o.

Autoridades da ag√™ncia dizem que seus m√©todos s√£o s√≥lidos. William M. Switzer, microbi√≥logo e principal autor do artigo da ag√™ncia, disse que a nova pesquisa ‚Äútraz descobertas muito intrigantes, que precisam ser confirmadas‚ÄĚ.

As descobertas claramente levantam preocupa√ß√Ķes com a seguran√ßa do suprimento de sangue. Em julho, a AABB (American Association of Blood Banks, ou associa√ß√£o americana de bancos de sangue) recomendou que as pessoas com a doen√ßa sejam desestimuladas a doar, at√© que saiam novos estudos.

‚ÄúA possibilidade de que esses agentes possam ser transmiss√≠veis pelo sangue e patog√™nicos em recipientes justifica uma extensa investiga√ß√£o de pesquisa‚ÄĚ, escreveram Alter e seus coautores no novo estudo. Judy A. Mikovits, principal autora do artigo da ‚ÄúScience‚ÄĚ, pretende organizar experimentos cl√≠nicos de antirretrovirais at√© o fim do ano, apontando que eles poderiam levar a respostas sobre se os retrov√≠rus causam a doen√ßa, al√©m de tratamentos eficazes (Mikovits √© diretora de pesquisa do Whittemore Peterson Institute for Neuro-Immune Disease, na Universidade de Nevada, em Reno, que colaborou no estudo do XMRV com o Instituto Nacional do C√Ęncer e com a Cleveland Clinic.)

Cara Miller, porta-voz da Gilead, que fabrica um dos medicamentos para HIV testados contra o XMRV, disse que a empresa estava interessada, mas procedendo com cautela. ‚ÄúEstamos acompanhando esse campo em evolu√ß√£o‚ÄĚ, escreveu ela, por e-mail, ‚Äúe continuaremos a avaliar futuras possibilidades de pesquisa‚ÄĚ.

Fonte: UOL Sa√ļde