FG News: Papa Bento 16 muda opini√£o de Igreja e passa a defender uso de camisinha

Postado em: 21-11-2010 Em livro, pont√≠fice disse tamb√©m ser a favor do v√©u isl√Ęmico e que o controverso papa Pio XII "salvou mais judeus do que ningu√©m"

Depois de vários anos de discussão e críticas a postura a Igreja Católica, o papa Bento 16 admite, pela primeira um papa se pronuncia a favor do tema, que o uso de preservativos por prostitutas pode ser aceito para evitar a disseminação do vírus da Aids, marcando assim o primeiro sinal de abertura ao tema na história do Vaticano.

A defesa do papa Bento 16 ao uso do preservativo por prostitutas aconteceu durante uma série de entrevistas, que foram transformadas em um livro, que será lançado na próxima terça-feira(23), por uma editora ligada a Igreja Católica da Alemanha, país natal do pontífice de 83 anos.

O livro, que tem como título "Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os Sinais do Tempo", é baseado em 20 horas de entrevistas conduzidas pelo jornalista alemão Peter Seewald. Trechos da obra foram publicados na edição deste sábado do "Observatório Romano", o jornal da Santa Sé.

Na série de entrevistas, o papa Bento 16 é questionado quando a Igreja Católica não é fundamentalmente contrária ao uso da camisinha, que reconhece a necessidade do uso da camisinha como uma forma de evitar a AIDS.

"Com certeza (a Igreja) n√£o v√™ (o preservativo) como uma solu√ß√£o real e moral", respondeu o papa, que celebrou neste s√°bado uma cerim√īnia para oficializar 24 novos cardeais no Vaticano. Em certos casos, quando a inten√ß√£o √© reduzir o risco de infec√ß√£o, pode ser, no entanto, um primeiro passo para abrir o caminho a uma sexualidade mais humana", completou o l√≠der de 1,1 bilh√£o de cat√≥licos do planeta.

Até o momento, o Vaticano tinha como orientação padrão a proibição ao uso de qualquer forma de contracepção, mesmo como forma de evitar doenças sexualmente transmissíveis, posição que vinha atraindo fortes críticas da comunidade internacional, em vista da situação alarmante de contágio por HIV no mundo.

Bento 16 provocou revolta internacional em mar√ßo de 2009 durante uma visita √† √Āfrica, continente devastado pela Aids, ao afirmar √† imprensa que a doen√ßa era uma trag√©dia que n√£o podia ser combatida com a distribui√ß√£o de preservativos, que na opini√£o dele at√© agravava o problema.

A declara√ß√£o foi fortemente criticada por pa√≠ses como a Alemanha e a Fran√ßa, al√©m da ag√™ncia da ONU (Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas) encarregada de lutar contra a propaga√ß√£o da Aids no mundo.

√Āfrica, o centro da pol√™mica.

Ainda em 2009, durante sua primeira visita √† √Āfrica, Bento 16 disse a bordo do avi√£o que o levava ao continente que a Aids "√© uma trag√©dia que n√£o pode ser superada com o dinheiro e nem com a distribui√ß√£o de preservativos, os quais podem aumentar os problemas".

A declaração foi feita em resposta a uma pergunta sobre se os ensinamentos da Igreja Católica não eram "irrealistas e ineficazes" em relação à Aids.

O papa defendeu que a epidemia só pode ser impedida com uma renovação moral no comportamento, a "humanização da sexualidade".

A declara√ß√£o atraiu o rep√ļdio da Fran√ßa, pa√≠s tradicionalmente cat√≥lico mas relativamente liberal em quest√Ķes sociais.

Paris "manifesta a sua forte preocupa√ß√£o com as consequ√™ncias das declara√ß√Ķes de Bento 16", disse na √©poca o porta-voz do Minist√©rio das Rela√ß√Ķes Exteriores, Eric Chevallier.

"Embora n√£o caiba a n√≥s julgar a doutrina da igreja, consideramos que essas declara√ß√Ķes p√Ķem em perigo as pol√≠ticas p√ļblicas de sa√ļde e o imperativo de proteger a vida humana", disse Chevallier.

Ainda em 2009, a ent√£o ministra da Sa√ļde da Fran√ßa, Roselyne Bachelot, falou de forma mais emocional contra a posi√ß√£o do papa, dizendo √† r√°dio RTL que Bento 16 "proferiu uma monstruosa mentira cient√≠fica" que foi um desservi√ßo para as mulheres africanas que, segundo ela, "encontram dificuldade em fazer aceit√°vel o uso do preservativo, que pode proteg√™-las ".

O ex-primeiro-ministro francês Alain Juppé foi mais longe, afirmando que "este papa começa a ser um verdadeiro problema, dado que ele vive em uma situação de total autismo".

V√©u isl√Ęmico

No livro "Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os Sinais do Tempo", em resposta à pergunta: "Na França, o Parlamento proibiu o uso da burca. Os cristãos podem se alegrar?", o pontífice afirma: "No que se refere à burca, não vejo motivos para uma proibição geral".

E acrescenta: "Diz-se que algumas mulheres não utilizam a burca de forma voluntária e isso é um ataque contra a mulher. Portanto, não se pode estar de acordo com isso".

"Mas se querem utiliz√°-la voluntariamente, n√£o sei por que ela deve ser proibida", acrescenta, segundo o texto original em alem√£o obtido pela AFP.

No in√≠cio de outubro, o Conselho Constitucional franc√™s validou uma lei que pro√≠be a utiliza√ß√£o do v√©u isl√Ęmico integral nos espa√ßos p√ļblicos, considerando, entretanto, que a lei n√£o pode ser aplicada nos locais de culto abertos ao p√ļblico.

O debate estendeu-se ao resto da Europa, onde outros países (Espanha, Holanda e Suíça) estudam a possibilidade de uma proibição, aprovada por enquanto apenas na Bélgica.

Pio XII "salvou mais judeus do que ninguém"

O papa Pio 12 foi "um dos grandes justos, que salvou mais judeus do que ninguém", declara Bento 16 no livro de entrevistas "Luz do mundo", que será lançado na terça-feira.

Pio 12 "fez todo o possível para salvar as pessoas", afirma o pontífice, segundo o livro. Bento 16 menciona, por exemplo, o fato de o papa Pio 12 ter escrito em 1938 a todos os bispos do mundo para que agissem a favor da entrega de vistos a todos os judeus que quisessem abandonar a Alemanha nazista.

"Naturalmente, sempre se pode perguntar: 'Por que n√£o protestou com mais for√ßa?'. Acredito que viu as consequ√™ncias que um protesto p√ļblico poderia gerar", acrescenta o Papa.

"Pessoalmente, sofreu muitíssimo, sabemos disso. Sabia que deveria falar, entretanto, a situação o proibia", acrescenta.

No dia 19 de dezembro de 2009, Bento 16 proclamou Pio 12 "vener√°vel", √ļltima etapa antes da beatifica√ß√£o, suscitando protestos de diversas comunidades judaicas.

Vários líderes de comunidades judaicas acusam Pio 12 de manter silêncio quando mais de mil judeus romanos foram deportados, em 16 de outubro de 1943, do gueto situado a poucos metros do Vaticano, do outro lado do rio Tibre. Poucos deles sobreviveram aos campos de concentração.

Mas a Igreja cat√≥lica responde que Pio 12, papa entre 1939 e 1958, contribuiu para salvar judeus ao escond√™-los em institui√ß√Ķes religiosas.

Fonte: Tudo na Hora e Folha Online