FG News: Garota espanhola deixa de frequentar escola após começar a usar a burca

Postado em: 19-07-2011 Uma adolescente abandona os estudos em um colégio de Melilla porque não permitem que ela estude completamente coberta e use luvas até o cotovelo.

Tem s√≥ 15 anos. Com seu depoimento e outras vers√Ķes, "El Pa√≠s" reconstr√≥i sua hist√≥ria √≠ntima e secreta. As amigas: "Ela √© boba, se cobre e quer que todas fa√ßam o mesmo. N√£o basta castigar a si pr√≥pria. Ela arrumou um barbudo"

Chadia tem 15 anos e lindos olhos verdes que nos √ļltimos meses s√≥ sua m√£e e seus quatro irm√£os veem, quando convivem na intimidade de sua casa alugada de 90 metros quadrados no bairro de Reina Regente, em Melilla [cidade aut√īnoma da Espanha situada na costa norte da √Āfrica, cercada pelo Marrocos]. A menina cobre o rosto com uma burca preta e envolve seus fr√°geis bra√ßos em luvas azul-escuras que chegam at√© os cotovelos, acess√≥rio nunca visto nesta cidade de 71 mil habitantes, metade dos quais mu√ßulmanos. Chadia abandonou as aulas no col√©gio p√ļblico de seu bairro e perdeu o curso secund√°rio, mas afirma estar feliz. "A mulher mais feliz!", declara.

O segredo de Chadia (nome fict√≠cio para preservar sua intimidade) durou v√°rias semanas, tantas quantas o sistema escolar demorou para alertar o √≥rg√£o de educa√ß√£o de que uma menina tranquila e aplicada estava desaparecida havia dias da escola sem que seus pais dessem explica√ß√£o. Ningu√©m no col√©gio imaginou que uma de suas alunas vivia desde ent√£o encerrada na "felicidade" de sua burca, o traje usado pela maioria das mulheres no Afeganist√£o, a milhares de quil√īmetros de dist√Ęncia. Esse √© o primeiro caso de uma menina espanhola, nascida em Melilla e filha de pais espanh√≥is, que pretende assistir √†s aulas com burca em um col√©gio com mais de mil alunos, na grande maioria mu√ßulmanos.

Mim√≥n, 42 anos, a m√£e da adolescente, cobre seu cabelo com hijab (len√ßo mu√ßulmano), veste uma t√ļnica de cor castanha e cal√ßa babuchas. Est√° separada do marido e se encarregou da educa√ß√£o e cria√ß√£o dos cinco filhos. Foi ela quem explicou √† inspetora por que sua filha n√£o ia √†s aulas. Ela fala sentada na sala de sua casa, decorada com v√°rios suras (cap√≠tulos do livro sagrado Cor√£o) emoldurados: "H√° dois meses me chamaram e marcaram encontro com a inspetora e com a prote√ß√£o de menores. Fomos encontr√°-la e ela disse que a menina tinha de ir ao col√©gio e cumprir as normas. Chadia respondeu que n√£o queria ir ao col√©gio, que n√£o queria estudar, que usava a burca e n√£o a deixariam entrar. Ela nos pediu que fal√°ssemos com o diretor e o fizemos, mas este n√£o quis permitir que ela fosse √†s aulas de burca. Pediu que a tirasse na porta do col√©gio. 'Se continuar com essa atitude, √© melhor que n√£o venha', ele nos disse."

Mohamed, 5 anos, o irmão caçula, brinca sentado no chão com um boneco e observa sua mãe no mesmo instante em que se abre uma porta interna e aparece Chadia, coberta pela burca. Anda muito devagar, arrastando os pés como se fosse uma noiva com medo de tropeçar no vestido. Dirige-se ao jornalista, mas não estende a mão. "Sinto muito, não posso tocá-lo." Senta-se rígida e ereta junto de sua mãe e levanta o véu que tapa seu rosto, movendo-o para trás. Uma pequena fresta do tecido preto que cobre seu rosto deixa ver seus olhos.

- Por que deixa que eu veja seus olhos?

"√Č por respeito ao senhor, que est√° em minha casa. Na rua eu n√£o permitiria isso."

Chadia interrompe sua m√£e e afirma que quer contar por que usa burca, por que deixou o col√©gio em que suas irm√£s mais velhas e ela mesma estudaram desde pequenas, o instituto p√ļblico onde at√© alguns meses atr√°s pulava corda no p√°tio com as que eram suas melhores amigas. A menina vira a cabe√ßa, olha nos olhos de seu interlocutor, baixa os seus levemente e inicia seu relato: "Fui de burca at√© a porta do col√©gio, ali a retirei e coloquei na mochila. Via-se meu rosto. Assisti √†s minhas aulas e no recreio falei com as meninas. Todas me perguntavam: 'Por que voc√™ usa burca? Voc√™ arrumou um namorado?' Eu expliquei meus motivos. Quando o diretor me chamou, disse: 'N√£o fale com elas! Se voc√™ vem com esse plano, √© melhor n√£o voltar!' O diretor ficou com raiva de mim desde que esclareci as coisas. Respondi a ele e √† chefe de estudos que continuaria indo. Voltei v√°rios dias, at√© que parei. Iam come√ßar as recupera√ß√Ķes e eu n√£o queria estudar. N√£o me importa perder o curso. Se n√£o deixarem que eu use burca, n√£o quero estudar; quero fazer algo √ļtil, n√£o estudar. Al√©m disso, agora nem com estudo se encontra trabalho." A m√£e observa sua filha e concorda com um leve gesto de cabe√ßa.

O diretor do col√©gio, Miguel √Āngel L√≥pez D√≠az, d√° uma vers√£o diferente: "Comunicamos √† m√£e que a menina n√£o poderia vir de burca. Insistimos que devia assistir √†s aulas. Ela quis negociar conosco: 'E se tirar as luvas?' Afinal voltou ao col√©gio sem a burca, mas de luvas. Dissemos para tir√°-las e tirou. No recreio esteve fazendo proselitismo com outras meninas e procurando apoios. Quando veio falar comigo, tirava e punha as luvas. 'O que acontece se eu as atirar e vestir?', me dizia. Pedi-lhe que por favor n√£o viesse coberta nem com luvas, e que n√£o envolvesse outras meninas. Ela n√£o veio mais. Aqui, 30% das alunas usam o hijab com toda a naturalidade. Nunca tivemos problemas. √Č uma pe√ßa de roupa. Nunca hav√≠amos tido uma menina de burca, e n√£o gostar√≠amos que isso se ampliasse. N√£o √© daqui, √© importado."

Uma professora do colégio, que pede para ter sua identidade omitida, descreve Chadia como uma menina normal, que no início do curso vestia jeans e não usava o lenço de cabeça. E reconstrói o diálogo que teve com várias colegas de Chadia quando esta voltou, depois de vários meses de ausência. "Diziam-me: 'Ela é boba, se cobre e quer que nós também nos cubramos. Não basta castigar só a si mesma. O que acontece é que arranjou um namorado barbudo. Não nos deixa dizer barbudo porque diz que é pecado'. Nenhuma de suas amigas acredita que ela teve sozinha a ideia de usar burca. Nós, professores, também não."

Chadia fala com certa ironia quando lhe pergunto sobre os coment√°rios de suas amigas do col√©gio, e sempre no passado, apesar de ter-se afastado delas h√° poucas semanas. E sorri pela primeira vez diante da pergunta de se arranjou um namorado barbudo, como afirmam algumas de suas colegas, um dos jovens salafistas que nos √ļltimos anos apareceram como cogumelos pelos bairros mu√ßulmanos de Melilla, com as cal√ßas acima do tornozelo para parecerem mais puros. "Que Deus me livre dos namorados! Ningu√©m me instruiu. Al√° √© o √ļnico que me instruiu, ningu√©m mais. Comecei a ler o Cor√£o e descobri sozinha. √Č uma quest√£o de f√©. Al√° quer que o interprete assim. At√© eu fico surpresa com minha mudan√ßa! Por favor, escreva Al√° com mai√ļscula", pede.

Mimón, sua mãe, afirma que a decisão da filha foi uma surpresa para ela. "'Olhe o que eu comprei', ela me disse um dia. Eu não tinha ideia. Chadia não tem namorado. As pessoas acreditam que ao vestir a burca há um homem por trás. Neste caso não é assim. Ela a vestiu por vontade própria. Disse que não vai tirá-la e não vai. Está feliz e decidida."

- Como você se sente totalmente coberta sob essa capa de véus tão escuros? Onde o Corão diz que a mulher deve se vestir assim?
"Olhe, eu me sinto feliz e orgulhosa por us√°-lo. Eu vi a luz e agora sei que estou no caminho certo. Se voc√™ d√° um passo para crer em Al√°, ele abre seu cora√ß√£o. Se voc√™ acredita nele e cultiva sua f√©, n√£o ter√° d√ļvidas. Nos suras das mulheres, no da vaca, no da luz, noa de Maom√©, se explica como deve ser a mulher. A √ļnica religi√£o que existe √© o isl√£, n√£o h√° outra."

Chadia n√£o responde √† pergunta de se considera inimigos ou infi√©is os que n√£o praticam o islamismo. A menina afirma que n√£o reza em nenhuma mesquita, exceto alguma vez na que seus irm√£os frequentam, no bairro de La Ca√Īada de Hidun, um dos mais pobres da cidade.

Afirma que comprou a burca durante uma viagem ao Marrocos, onde tamb√©m fez "outras coisas", e sem que sua m√£e soubesse suas inten√ß√Ķes. N√£o d√° detalhes se viajou s√≥ ou acompanhada, nem de onde tirou dinheiro para comprar sua nova vestimenta. "Rezo em meu quarto cinco vezes por dia. Ali entre meus livros √© onde me encontro mais √† vontade, onde aprendo com minhas leituras e rezas, mas tamb√©m saio √† rua. N√£o estou encerrada nem isolada." Entre seus planos est√° fazer um curso de cozinha, mas "onde houver s√≥ mulheres. Um homem n√£o pode me ver".

Chadia s√≥ fala do Cor√£o como seu livro de cabeceira, n√£o d√° detalhes sobre outras leituras e descreve assim sua futura rela√ß√£o com os homens: "Mesmo que eu use burca e n√£o deixe que nenhum homem me veja, n√£o renuncio a ter uma fam√≠lia e filhos. Meu marido tem que ser mu√ßulmano, deve ter a mesma f√© que eu e aceitar sem nenhuma d√ļvida o que o Cor√£o diz. Sem tudo isso, n√£o poderia aceit√°-lo como marido". Seu pai n√£o parece ser um exemplo. "Ele e meu irm√£o Rachid me dizem para tirar a burca. N√£o gostam. Mas este pequeno gosta e me pede que a vista", acrescenta, indicando com o olhar Mohamed, que parece atento √† conversa e olha para sua irm√£ com admira√ß√£o. "Estou decidido a continuar assim toda a vida. Sem a burca n√£o quero viver", declara.

Durante quase duas horas de conversa, a figura paterna n√£o est√° presente na casa de Chadia, um apartamento humilde sem elevador, mas arrumado, limpo e luminoso, em um bloco de apartamentos sociais constru√≠dos pela Empresa Municipal de Habita√ß√£o, ocupados quase todos por fam√≠lias mu√ßulmanas e um ex-legion√°rio aposentado que passa horas no terra√ßo, de bermuda e pijama, fumando um cigarro atr√°s do outro e olhando para o infinito. No p√°tio da rua as crian√ßas brincam e conversam encostadas √† parede. O bairro em que esta fam√≠lia vive fica perto do centro da cidade e afastado das √°reas mais pobres como La Ca√Īada de Hidun, onde foram constru√≠das centenas de moradias ilegais, mas n√£o escapa dos √≠ndices de desemprego e fracasso escolar, entre os mais altos da Espanha. Muitos jovens deste e de outros bairros vivem do tr√°fego de haxixe, e sua √ļnica sa√≠da √© um lugar no ex√©rcito. Um caldo de cultura para que flores√ßa o salafismo propagado em algumas mesquitas e escolas cor√Ęnicas.

"N√£o esperamos nada dele"

"Estou separada de meu marido h√° dez anos. Ele me deixou com cinco filhos: tr√™s meninas e duas meninas. N√£o esperamos nada dele. Nos arrumamos como podemos", explica a m√£e. Chadia se cala e olha para o ch√£o. Rachid, o irm√£o mais velho, entra na sala e observa o jornalista com desconfian√ßa. Usa cal√ßas jeans, camiseta de manga curta e t√™nis. Declara que n√£o gosta que sua irm√£ menor se esconda em uma burca. √Č sexta-feira ao meio-dia, hora de ora√ß√£o, e o jovem que trabalha, dirige uma pequena ag√™ncia de turismo e ajuda a fam√≠lia, anuncia √† m√£e que vai subir para rezar na mesquita de Los Pinares, na parte alta de La Ca√Īada, a cerca de 15 minutos de carro de sua casa.
Chadia e sua m√£e reconhecem que √© a √ļnica menor que usa burca em Melilla. N√£o conhecem outro caso, mas afirmam que outras meninas querem faz√™-lo. "A maioria de minhas amigas pensa como eu, mas n√£o se atreve a dar o passo. Est√£o discriminando as mulheres mu√ßulmanas. Pouco a pouco isso vai mudar, enquanto houver vida h√° esperan√ßa. Como v√£o fazer isso agora, se n√£o as deixam estudar, se nos olham pela rua como se f√īssemos um animal raro, se perdemos todas as oportunidades de fazer algo? Mas voc√™ ver√° que isso vai mudar. N√£o temos pressa. √Č preciso ser paciente."

A face de Melilla está mudando. As palavras de Chadia não são exagero. Nos bairros periféricos mais deprimidos e distantes do centro urbano, o visitante encontra algumas jovens que vestem o niqab, peça que cobre todo o rosto da mulher exceto uma leve fresta. Uma vestimenta que antes não era visível, a antessala da burca, um traje importado da Arábia Saudita e alheio aos costumes tradicionais das mulheres muçulmanas desta cidade, que costumam cobrir o cabelo com o hijab, embora algumas não o façam.

"Sou Saida. Por favor reserve hora para mim amanh√£ √†s 11! Voc√™ j√° sabe." Abida [s√ļdita de Deus], 24 anos, encarregada do sal√£o de cabeleireiro Lamia, sabe que quando recebe esse tipo de telefonema precisa fechar o pequeno e arrumado local para atender a uma cliente especial. A uma s√≥, uma dessas mulheres "perfeitas" que leem a obra "Voc√™ pode ser a mulher mais feliz do mundo". Uma dessas garotas da qual ningu√©m, nem outra mulher, exceto a pequena cabeleireira, pode ver o rosto ou os cabelos. "Fecho a porta para elas. N√£o querem que outras clientes as vejam, apesar de aqui s√≥ entrarem mulheres. Tenho de organizar os hor√°rios para que n√£o apare√ßa ningu√©m, para que n√£o nos incomodem. Elas me dizem: 'Meu marido n√£o quer que ningu√©m me veja a n√£o ser voc√™'. S√£o muito vaidosas e se arrumam muito, mas s√≥ para eles. Ontem esteve aqui uma com burca. Fez um tratamento completo, alisou o cabelo, tingiu e cortou. Tudo na mais absoluta intimidade. Tem cerca de 30 anos e mora aqui em La Ca√Īada. O niqab ou a burca n√£o impedem que elas se arrumem. N√£o significa que estejam castigadas. Pelo menos √© o que elas me contam. Temos duas clientes solteiras, uma de 17 e outra de 20 anos, as outras s√£o sempre casadas e com filhos. N√£o estudam porque t√™m as portas fechadas de todos os lados. Dizem-lhes que √© proibido usar o niqab."

O sal√£o Lamia tem duas confort√°veis poltronas mec√Ęnicas para suas clientes, amplos espelhos e um sof√° com almofadas de cores vivas, no qual v√°rias mulheres esperam sua vez. Cortinas de correr isolam o escrit√≥rio de Abida, a cabeleireira. Saida, natural de Melilla, 25 anos, confessa sem nenhum pudor que duas de suas parentes usam niqab. "Tenho minha irm√£ Salwa, de 21 anos, e minha prima Fatima, de 22. Minha irm√£ sa√≠a com um grupo de amigas, iam √† aula de isl√£ todo dia porque queriam saber mais. Estava obcecada por saber. Conheceu um rapaz, ficaram noivos e ela vestiu o niqab. N√≥s respeitamos isso, mas minha m√£e n√£o queria. Teve um desgosto. Afinal aceitamos sua decis√£o. Foi um golpe muito forte. Disse-nos que queria se vestir como a mulher do profeta."

Assim como Abida, esta jovem espanhola afirma que sua irm√£ e sua prima s√£o discriminadas pela vestimenta. "Salwa ia fazer um dos cursos de hotelaria, carpintaria e pintura no centro de freiras de caridade Maria Imaculada, e lhe disseram que vestida dessa maneira, n√£o. √Č proibido. Minha irm√£ leva seu filho ao parque, tirou carteira de motorista e tem s√≥ o diploma colegial. N√£o lhe importa o que as pessoas digam. No in√≠cio se incomodava muito que as pessoas do bairro perguntassem: 'Quem ser√°? Quem ser√°?' Aprendeu √°rabe em muito pouco tempo e todo dia me pede para que eu use roupas largas."
Guarda [Rosa], uma jovem de 27 anos que cobre seu cabelo com o hijab, a interrompe e dirige-se ao jornalista: "Se eu me animar, eu ponho o niqab. Sinto-me mais valorizada quando me cubro. Se você voltar daqui a alguns meses talvez me encontre totalmente coberta. Não conheço ninguém com burca, mas todas as meninas que usam o niqab são bonitas, ou morenas de olhos negros ou loiras de olhos verdes e azuis. Isto é como se seu filho chegar um dia e lhe disser que é gay. Usar o niqab não é obrigatório, o lenço sim."

- Você leu o livro "Você pode ser a mulher mais feliz do mundo"?
"Sim, acho-o maravilhoso. Me ajudou e eu mudei muito. Não há sujeição da mulher ao homem. Só amor."

A cabeleireira Abida aparece de tr√°s da cortina e espeta: "Eu estudei √°rabe e n√£o gosto da burca. √Č um exagero. N√£o vejo justificativa nem religiosa nem pessoal. Elas levam uma vida muito chata. Minha irm√£ n√£o pode nem ir ao campo ou √† praia com a gente", reconhece Saida.

As mulheres espanholas que usam o niqab em Melilla não tomam banho de mar. Atravessam a fronteira, onde têm que se identificar, e viajam de carro até um lugar secreto que muito poucos conhecem, uma pequena praia no Marrocos que seus maridos alugam para que ninguém possa vê-las. "Vão a uma praia marroquina e nadam sozinhas à noite. Seus maridos a alugam durante algumas horas. Não creio que você a encontre; é um dos segredos mais bem guardados", diz Abida.
Na despedida, Mimón, a mãe de Chadia, nega a mão ao jornalista e faz uma pergunta: "As meninas cristãs podem usar minissaia. Por que não respeitam as muçulmanas que andam cobertas e recatadas?" Quando Chadia abre a porta de sua casa, cobre o rosto com a burca e seus olhos desaparecem: "Vão com Alá!"

"Você pode ser a mulher mais feliz do mundo"

Nas barracas pr√≥ximas √† mesquita central de Melilla, a maior e mais concorrida da cidade, a cerca de 25 minutos a p√© da casa de Chadia, pode-se comprar a obra "Voc√™ pode ser a mulher mais feliz do mundo", do doutor Aid al Qarni. Um livro de 197 p√°ginas que custa 17 euros e que se transformou em guia espiritual e de comportamento para jovens locais como Chadia, que s√£o animadas a obedecer a seus maridos, ficar reclusas em seus lares e a ser "perfeitas". Suas p√°ginas est√£o cheias de palavras como "amor", "felicidade", "cora√ß√£o", "perd√£o" e "f√©", mas o leitor encontra perguntas como esta: "Pode ser feliz a mulher que mostra sua beleza aos c√£es selvagens e ostenta seus encantos aos lobos?", e frases onde se inculca a obedi√™ncia e a sujei√ß√£o da mulher: "A mulher exemplar √© am√°vel com seu esposo e n√£o faz nada para atormentar a vida de ambos", "Tome cuidado para n√£o imitar as mulheres imorais. Um Hadiz diz: 'Al√° maldiz os homens que imitam as mulheres e as mulheres que imitam os homens'. Tome cuidado para n√£o imitar os homens, ficar s√≥ com um homem n√£o parente, viajar sem Mahram (parente homem), perder a mod√©stia e o pudor, n√£o se vestir corretamente... Permane√ßa em sua casa e n√£o a deixe exceto por raz√Ķes s√©rias e necess√°rias."

O fracasso escolar em Melilla: 42,4%

Nenhum dos col√©gios p√ļblicos de Melilla nos bairros de maioria mu√ßulmana teve casos de meninas que, como Chadia, desejem ir √†s aulas de burca. Mas sofrem outros problemas, por exemplo, um √≠ndice de fracasso escolar de 42,4% em 2010, o triplo da m√©dia europeia (14%) e superior √† espanhola (30,8%). Jos√© C√°rdenas, 44, professor do col√©gio Juan Jos√© Fern√°ndez, afirma que as meninas se vestem como querem. "O respeito ao hijab √© total. Se proib√≠ssemos o v√©u, ter√≠amos que fechar. Quando escutamos na televis√£o que h√° um problema em algum col√©gio da pen√≠nsula, nos chama a aten√ß√£o. N√£o temos s√≠mbolos nem de uns nem de outros", diz com orgulho.

O assistente social Jaime López, 44, explica que há um ano uma menina foi ao colégio com niqab, o acessório que cobre todo o rosto menos os olhos. "Veio só um dia. Tinha 16 anos e deixou de assistir às aulas porque se casou. Passou do lenço ao niqab e ao casamento. Os pais queriam que continuasse estudando, mas ela não. Faltava muito à aula e a família era humilde."

Jos√© Antonio Ruiz, diretor do col√©gio Leopoldo Queipo, est√° atarefado com as provas de sele√ß√£o. "Cerca de 50% de nossas alunas usam len√ßo, mas n√£o h√° nenhum problema. N√£o sei a religi√£o de minhas alunas, nem me pergunto. √Č uma op√ß√£o pessoal. Nunca apareceu uma menina de burca ou niqab." Pedro Cort√©s, diretor do col√©gio Reina Victoria Eugenia, √© mais conciso: "Problemas zero. Nenhum"

Fonte: El Pais