FG News: EUA: Adversários republicanos de Obama veem a política sob prisma do fundamentalismo cristão

Postado em: 29-08-2011 A pouco mais de um ano das elei√ß√Ķes presidenciais nos EUA, a religi√£o se transformou em um fator decisivo entre os candidatos republicanos.

O presidente Barack Obama, que se apresenta √† reelei√ß√£o em novembro de 2012, atravessa um de seus momentos mais baixos nas pesquisas de popularidade. Este fato, junto com a lentid√£o da recupera√ß√£o econ√īmica, deu asas a todo tipo de candidato republicano.
Em junho começou a enxurrada de candidaturas conservadoras. Entre elas há protestantes dos ramos batista, luterano, metodista e evangélico; há católicos e há mórmons. Ainda há espaço para mais.

Em 1¬ļ de novembro vence o prazo para registrar-se para as prim√°rias na Carolina do Sul, e s√£o as primeiras que encerram a inscri√ß√£o. At√© esse dia podem se apresentar pol√≠ticos que ainda n√£o descartaram a nomea√ß√£o, como a ex-governadora do Alasca Sarah Palin, associada no passado √† f√© pentecostal. As prim√°rias come√ßar√£o formalmente com os c√°ucus [reuni√Ķes intrapartid√°rias] de Iowa, que est√£o programados em princ√≠pio para 6 de fevereiro.

Se nas elei√ß√Ķes nacionais os candidatos apelam para os eleitores moderados e independentes, nas prim√°rias dever√£o conquistar o n√ļcleo duro de eleitores de seu partido. Por isso, o campo republicano √© neste momento um ros√°rio de credos crist√£os extremos. E o fundamentalismo crist√£o est√° presente com for√ßa not√°vel nos tr√™s aspirantes mais bem colocados para ser os advers√°rios de Obama na corrida pela Casa Branca: a congressista Michele Bachmann (foto abaixo), evang√©lica luterana que transformou os cargos que ocupou em altares dos quais combate o casamento gay; o governador do Texas, Rick Perry, abertamente contr√°rio √† separa√ß√£o entre Igreja e Estado; e o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney, um pouco mais moderado, mas que provoca receios entre os eleitores protestantes porque √© m√≥rmon.

Esses candidatos cortejam o movimento ultraconservador Tea Party, que j√° demonstrou sua for√ßa em 2010 ao colocar numerosos representantes nas prim√°rias legislativas e devolver ao Partido Republicano a maioria em uma das C√Ęmaras do Congresso. Sua for√ßa foi crescendo desde ent√£o. H√° apenas duas semanas esteve prestes a colocar os EUA √† beira da morat√≥ria por se negar a aumentar o teto de endividamento p√ļblico, contrariando o crit√©rio dos l√≠deres moderados republicanos.

O Tea Party, que é a chave das primárias, nasceu em 2009 como reação ao crescente poder do governo central. Defende medidas drásticas como o corte dos programas de ajuda social e a eliminação dos impostos. Mas estudos recentes demonstram que nem tudo em seu ideário é política fiscal. Concretamente, os professores Robert Putnam, da Universidade Harvard, e David Campbell, de Notre-Dame, concluíram em uma pesquisa de cinco anos entre 3 mil eleitores que, além de ser um movimento com tons xenófobos, se dedica a colocar líderes altamente religiosos no governo. O Tea Party quer que a fé seja política e que o governo também seja de Deus.

Os acontecimentos mais recentes na pr√©-campanha - elei√ß√Ķes de orienta√ß√£o em Iowa e diversos com√≠cios em outros estados onde come√ßar√£o as prim√°rias, como New Hampshire - deram a Bachmann, Perry e Romney uma vantagem nas pesquisas sobre todos os outros. Mas quem s√£o esses tr√™s candidatos e o que defendem? A congressista Bachmann ganhou no √ļltimo dia 13 as prim√°rias na localidade de Ames, em Iowa. N√£o foram elei√ß√Ķes compuls√≥rias. S√≥ votaram 16.892 pessoas, das quais 4.832 a escolheram. Bachmann n√£o obteve delegados antes das prim√°rias. Apenas popularidade eleitoral e ser inclu√≠da no seleto clube dos favoritos republicanos. Com 55 anos, trabalha como legisladora desde 2001, primeiro em Minnesota e nos √ļltimos quatro anos no Capit√≥lio federal. Em Washington prop√īs sete leis, nenhuma delas aprovada. O que fez Bachmann em dez anos de vida pol√≠tica? Ativismo crist√£o. Sobretudo, declarou uma guerra cultural ao que chama de "estilo de vida homossexual".

Em 2004 disse em um programa de r√°dio de Minnesota: "Ser√° o assunto de maior import√Ęncia para nossa na√ß√£o nas pr√≥ximas tr√™s d√©cadas". Foi uma verdadeira declara√ß√£o de inten√ß√Ķes. Naquela √©poca Bachmann tentava aprovar uma emenda √† Carta Magna de Minnesota para declarar inconstitucional o casamento gay. O problema √© que naquele estado j√° havia uma lei que o proibia. Mas ela n√£o queria que fosse somente ilegal. Precisava ser tamb√©m inconstitucional. O Senado votou contra sua proposta.

Desde essa √©poca, Bachmann j√° deixou claro que faria o que estivesse ao seu alcance para impedir que o casamento gay avan√ßasse no pa√≠s. Tinha uma refer√™ncia em casa. Sua meio-irm√£ √© l√©sbica. Em um discurso em 2004, referindo-se a ela, Bachmann disse: "√Č uma vida muito triste". Em julho deste ano assinou um contrato com os eleitores, redigido pela organiza√ß√£o conservadora The Family Leader, no qual, entre outras coisas, se compromete a lutar contra a promiscuidade; a erradicar a pornografia e a aprovar uma emenda constitucional nacional que defina o casamento como uma uni√£o heterossexual.

Essa emenda n√£o √© nova. J√° foi apoiada por George W. Bush em 2004, sem sucesso. A diferen√ßa entre Bush e Bachmann √© que o ex-presidente se opunha √ļnica e exclusivamente ao casamento gay. Bachmann, por sua vez, dada sua afilia√ß√£o religiosa, est√° convencida de que os homossexuais s√£o coisa do diabo. N√£o √© uma met√°fora. √Č algo em que ela acredita firmemente. No mesmo discurso de 2004, disse sobre a homossexualidade: "Faz parte de Sat√£".

Imagem redimensionadaA candidata é protestante, luterana e evangélica. Converteu-se em cristã renascida em 1972. Desde então assumiu o trabalho de pregar o Evangelho. Afirma que recebe ordens diretas de Deus, que lhe disse para casar-se com seu marido, Marcus Bachmann, em 1978. Ambos frequentavam até há pouco tempo a paróquia evangélica luterana de Salem, em Stillwater, Minnesota, da qual ela se desligou oficialmente em junho, poucos dias antes de anunciar sua candidatura para as primárias republicanas.

Essa igreja, que Bachmann frequentou durante d√©cadas, faz parte do s√≠nodo evang√©lico luterano de Wisconsin, uma congrega√ß√£o de 390 mil pessoas. Embora nos EUA existam cerca de 80 milh√Ķes de evang√©licos, estes pertencem a um ramo especialmente conservador. Os tr√™s pilares centrais de sua f√© s√£o a oposi√ß√£o ao aborto; a ideia de que a homossexualidade √© um estilo de vida patol√≥gico, e a estranha convic√ß√£o de que o papa cat√≥lico √© o "anticristo".

Cinco s√©culos depois de Martinho Lutero, eles continuam interpretando ao p√© da letra suas diatribes contra o papado. Como √© l√≥gico, essa cren√ßa criou numerosas tens√Ķes entre os evang√©licos luteranos de Wisconsin e os 70 milh√Ķes de cat√≥licos que vivem nos EUA. Bachmann, que aspira a ser chefe de Estado e que, caso o consiga, teria de cuidar das rela√ß√Ķes de Washington com o Vaticano, passa por esse problema nas pontas dos p√©s e diz que, embora seja a doutrina de sua antiga Igreja, n√£o cr√™ que Bento 16 seja o dem√īnio no sentido literal.

Continua intacta, entretanto, sua convic√ß√£o de que os gays sim, o s√£o. O s√≠nodo ao qual pertencia sua Igreja equipara, em sua p√°gina na web, os homossexuais a "ladr√Ķes, estelionat√°rios, assassinos, caluniadores, b√™bados e violadores da vontade de Deus" e pede que os pol√≠ticos "aprovem leis contra eles". Afirma que ser gay √© "uma escolha", algo que se pode curar. Em consequ√™ncia, o marido de Bachmann se dedica a isso em sua cl√≠nica de Minnesota.

Marcus Bachmann, formado em psicologia clínica, "trata" gays em seu consultório. E o faz por meio da oração. Apesar da oposição de sua esposa aos programas sociais do governo, desde que abriu a clínica recebeu o equivalente a 100 mil euros em subsídios do governo. Em uma gravação de um programa de rádio de 2010 o psicólogo diz que os homossexuais são "bárbaros".

Menos beligerante contra os gays, mas igualmente firme em suas convic√ß√Ķes religiosas, √© o governador do Texas, Rick Perry, 61 anos, que acredita firmemente em um Estado confessional. O candidato declara que essa divis√£o √© obra de uma Suprema Corte que est√° totalmente politizada e que √© um instrumento nas m√£os de uma grande conspira√ß√£o social-democrata.

√Č o que ele explica em seu livro publicado no final do ano passado, "Fed Up!" [Farto]: "S√£o esses tribunais que decidem, de forma rotineira, sem nenhuma op√ß√£o de apela√ß√£o, quando e onde podemos rezar a Deus, quando come√ßa a vida humana, que anticoncepcionais podem ser vendidos, como podemos celebrar festividades religiosas, que n√≠vel de pornografia e vulgaridade devemos permitir, se devemos aceitar o matrim√īnio de pessoas do mesmo sexo...".

Perry anunciou sua candidatura no √ļltimo dia 13, mesma data em que Bachmann ganhou as prim√°rias da pr√©-campanha de Iowa. A primeira pesquisa depois de sua entrada no campo eleitoral, realizada pela consultoria Rasmussen Reports, d√° ao governador uma vantagem de 11 pontos sobre os demais candidatos. Ele obt√©m 29% das inten√ß√Ķes de voto.

O evangelismo de Perry √© na realidade uma forma de ativismo crist√£o contra o secularismo. Em 2005 ele defendeu na Suprema Corte sua firme vontade de que os dez mandamentos fossem expostos em duas t√°buas diante do Capit√≥lio de Austin (capital do Texas.). Ganhou aquele caso por uma maioria apertada de 5 votos a 4. O poder pol√≠tico √© para Perry uma forma de fazer proselitismo religioso. Seu gabinete de governador foi um p√ļlpito. Como governador, organizou em 6 de agosto passado uma jornada de ora√ß√Ķes em um est√°dio de Houston, da qual participaram 30 mil pessoas. O serm√£o do governador foi transmitido ao vivo em cerca de mil igrejas. Foi uma s√ļplica a Deus para que acabasse com a crise econ√īmica.

Perry foi um especialista, em seus dez anos como governador, em ignorar diretamente os 155 mil m√≥rmons, 128 mil judeus e 114 mil mu√ßulmanos de seu estado (s√£o n√ļmeros de 2006, da Associa√ß√£o Hist√≥rica do Estado do Texas). Em abril, quando o Texas sofria uma das piores secas de que h√° mem√≥ria, decretou dois dias de "ora√ß√Ķes oficiais" para pedir chuva. Como evang√©lico, Perry √© contra o aborto.
N√£o s√≥ se op√Ķe ao casamento gay, como em 2002 defendeu como "adequada" uma lei que penalizava qualquer ato de sodomia no Texas. A Suprema Corte a aboliu no ano seguinte. Em seu livro, insinua que, se n√£o forem impostos limites √† homossexualidade, esta poder√° abrir caminho para "o incesto, a prostitui√ß√£o e o roubo". E suas ideias sobre a mudan√ßa clim√°tica v√£o al√©m do terreno pseudocient√≠fico: afirma que Al Gore esconde dados sobre "o resfriamento mundial".

Os credos de Bachmann e Perry deixam o terceiro candidato, o mais bem colocado segundo as pesquisas, como um moderado. Trata-se de Mitt Romney, 64 anos, que √© m√≥rmon. E n√£o √© o √ļnico seguidor da chamada Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos √öltimos Dias que se apresenta. Jon Huntsman, 51, ex-governador de Utah e ex-embaixador de Obama na China, tamb√©m o √©. At√© h√° poucos anos, a ideia de um m√≥rmon na Casa Branca era imposs√≠vel. Na realidade, para muitos eleitores continua sendo.

Segundo uma pesquisa de junho da Universidade de Quinnipiac, entre 2 mil pessoas pesquisadas somente 35% gostariam de ter um presidente m√≥rmon. Porcentagem n√£o muito distante da dos que aceitariam um presidente ateu (24%) ou mu√ßulmano (21%). A metade dos 14 milh√Ķes de m√≥rmons que h√° no mundo reside nos EUA.

"Os cidad√£os americanos, sobretudo os democratas, t√™m mais d√ļvidas sobre um m√≥rmon na Casa Branca do que sobre seguidores de outras religi√Ķes", afirma Peter Brown, diretor-adjunto do instituto de opini√£o de Quinnipiac. "O fato de menos da metade do eleitorado ter uma vis√£o favor√°vel dessa religi√£o ser√° um problema pol√≠tico para os governadores Mitt Romney e Jon Huntsman".

Os evang√©licos tradicionalmente receiam os m√≥rmons, aos quais consideram uma seita. Mesmo assim, eles se definem como crist√£os. Uma das maiores emin√™ncias na hist√≥ria do cristianismo, o professor da Universidade de Oxford Diarmaid MacCulloch, a denominou "religi√£o de fronteira", porque cresceu no s√©culo 19 nos EUA, no √Ęmbito da conquista do oeste.

Seu fundador foi o chamado profeta Joseph Smith, que disse ter recebido a visita de um anjo que lhe entregou t√°buas de ouro escritas no que chamou de "eg√≠pcio reformado". Smith traduziu essas placas e o resultado foi o Livro de M√≥rmon, publicado em 1830, onde se narra como uma tribo de Israel cruzou o Atl√Ęntico e encontrou na Am√©rica a terra prometida no s√©culo 6¬ļ antes de Cristo. Sobre os m√≥rmons, que no in√≠cio defenderam a poligamia, pesa uma certa fama de racismo. "Mas outras igrejas tamb√©m t√™m uma hist√≥ria muito desigual no que diz respeito ao racismo", afirma Scott Gordon, presidente da organiza√ß√£o Fair, radicada em Utah e dedicada √† defesa doutrin√°ria do mormonismo. "Deveria ser reconhecido que nos EUA a maioria das igrejas n√£o permitiam que os negros participassem das missas ou se sentassem nos mesmos templos que os brancos."

Os m√≥rmons fizeram da obedi√™ncia uma virtude. Da√≠ a pergunta despertada pela candidatura de Romney √† Casa Branca: um governante m√≥rmon deve prestar obedi√™ncia cega √† hierarquia de sua Igreja? "Os pol√≠ticos eleitos que pertencem √† Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos √öltimos Dias tomam suas pr√≥prias decis√Ķes e n√£o t√™m por que estar de acordo nem entre eles nem com as posi√ß√Ķes oficiais da Igreja", afirma Gordon, presidente da Fair. √Č como perguntar se John F. Kennedy, que era cat√≥lico, devia obedi√™ncia ao papa quando foi eleito presidente em 1961.

Mitt Romney tamb√©m √© o mais moderado da trinca de candidatos que est√£o na lideran√ßa. Afinal, governou Massachusetts, um dos estados mais progressistas do pa√≠s, entre 2003 e 2007. Ali aprovou a cobertura de sa√ļde universal para todos os cidad√£os e manteve uma estrita separa√ß√£o entre sua f√© e sua gest√£o. E isso √© algo que n√£o se pode dizer de Bachmann ou de Perry.

Rick Perry

Sucessor de George W. Bush no governo do Texas desde 2001, ganhou tr√™s elei√ß√Ķes seguidas. √Č c√©lebre por considerar seu antecessor no cargo como progressista demais em quest√Ķes fiscais. Metodista e evang√©lico, se op√Ķe firmemente a separar o Estado de suas cren√ßas religiosas. No governo do Texas decretou dias oficiais de ora√ß√£o e convocou atos de ora√ß√£o com multid√Ķes. Entre seus maiores sucessos, ele mesmo conta uma vit√≥ria diante da Suprema Corte que em 2005 lhe permitiu continuar exibindo os dez mandamentos crist√£os em duas t√°buas de m√°rmore diante do Capit√≥lio de Austin. Em um livro de 2010 acusa a Suprema Corte de ser um instrumento para impor valores pol√≠ticos seculares na vida norte-americana.

Mitt Romney

Apresenta-se pela segunda vez nas primárias e desde junho foi o mais bem colocado nas pesquisas. Dirigiu os Jogos Olímpicos de Inverno em Salt Lake City em 2002 e foi governador de Massachusetts entre 2003 e 2007. Evita falar publicamente de sua fé, o mormonismo. O fundador dessa religião, o profeta Joseph Smith, morreu vítima de tiros em 1844 depois de ter apresentado sua candidatura à presidência do país. Desde então, as suspeitas pela discriminação contra os negros e pela prática - já superada - da poligamia dificultaram o acesso de um mórmon à Casa Branca. Segundo pesquisas recentes, somente 35% dos americanos gostaria de ter um presidente mórmon, porcentagem próxima da registrada pelos muçulmanos.

Michele Bachmann

Congressista desde 2001, primeiro em Minnesota e h√° quatro anos na C√Ęmara de Deputados federal. Lan√ßou sua campanha eleitoral em junho, dias depois de abandonar formalmente sua par√≥quia, a Igreja Evang√©lica Luterana de Salem. Considera que o casamento gay "√© um assunto de grande import√Ęncia para o pa√≠s" e que definir√° a pol√≠tica das pr√≥ximas d√©cadas. Educada como luterana, em sua par√≥quia se ensina como doutrinaria que o papa √© a encarna√ß√£o do "anticristo", o que lhes granjeou o receio dos 70 milh√Ķes de cat√≥licos dos EUA. A candidata se distanciou recentemente dessa afirma√ß√£o. Seu marido, o m√©dico Marcus Bachmann, tem uma cl√≠nica psicol√≥gica na qual diz curar homossexuais atrav√©s da ora√ß√£o.

Fonte: El País