FG News: Os fantasmas da Igreja católica polonesa

Postado em: 15-02-2007 Sob o regime comunista, até 1989, muitos padres foram forçados a colaborar com a polícia política; hoje, arquivos comprometedores trazem de volta esse passado embaraçoso.

No seu min√ļsculo apartamento de dois dormit√≥rios da Rua Krucza, no centro de Vars√≥via, Eugeniusz Kliminski, um padre de 72 anos, n√£o se cansa de fazer a sua chave USB girar na sua m√£o. Ela cont√©m dezenas de documentos que, segundo ele afirma, poderiam comprometer uma parte do clero de uma √ļnica cidade, Gdansk. "Mas voc√™s acham que este seja o momento certo para revelar todas essas hist√≥rias?", indaga Kliminski a ele mesmo, antes de varrer a pergunta com um movimento da m√£o.

Hoje, o passado comunista est√° de volta e paira assim como um fantasma sobre a Pol√īnia. Todo mundo o considerava enterrado sob os escombros dos arquivos que foram destru√≠dos depois da mudan√ßa de 1989, mas ele ressuscitou na esteira de uma pol√≠tica de "ordem moral" conduzida pela direita conservadora no poder. O primeiro efeito que esta produziu foi de quebrar a imagem de uma Igreja que teria sido por unanimidade resistente e m√°rtir.

Assim como Karol Wojtyla, o futuro Jo√£o Paulo 2¬ļ cujas fotos est√£o grampeadas nas paredes do seu apartamento, o Padre Kliminski ensinava na universidade e organizava acampamentos para jovens, o que fazia dele um alvo excepcional para a pol√≠cia comunista (SB) encarregada de infiltrar o clero.

Num belo dia de 1968, ele recebe uma convoca√ß√£o para se apresentar no caf√© Metropol, a pouca dist√Ęncia do Pal√°cio da Cultura, para se encontrar com um oficial, o "major Stanislaw", que ele poder√° reconhecer pelo jornal "Nossa Fam√≠lia", que ele dever√° carregar debaixo do bra√ßo. Eugeniusz Kliminski vai at√© l√° e chega com meia-hora de anteced√™ncia. O oficial aparece. O padre levanta-se e vai ao seu encontro: "O senhor queria me ver?" Desnorteado, o oficial responde: "O senhor me conhece?" Para o padre, a batalha psicol√≥gica estava ganha: "Eu entendi que eu era mais forte do que ele".

Na √©poca, todos os padres e seminaristas eram sistematicamente fichados. A pol√≠cia comunista selecionava os perfis os mais solit√°rios e fr√°geis que eram imediatamente vigiados, colocados sob escuta telef√īnica, at√© serem abordados por um oficial num caf√© ou convocados a se apresentarem num poste de pol√≠cia. Alguns deles assinavam, em toda consci√™ncia ou ingenuidade, uma miss√£o de colabora√ß√£o e se viam atribuir um pseud√īnimo, tal como "Grey" ou "Adam", aquele que usava o jovem padre Stanislaw Wielgus, um informante secreto da SB que, d√©cadas mais tarde, em 6 de dezembro de 2006, seria nomeado arcebispo de Vars√≥via pelo papa.

As suas confiss√Ķes tardias, seguidas pela sua demiss√£o em 7 de janeiro, acabam de desencadear a maior crise da Igreja polonesa desde a guerra. "N√≥s t√≠nhamos recebido duas instru√ß√Ķes: nunca assinar nada e relatar tudo aos nossos superiores", retoma o Padre Kliminski, que tamb√©m reconhece que era mais f√°cil resistir ao ass√©dio da SB quando, assim como ele, um sacerdote pertencia a uma comunidade religiosa (os Padres "pallottinos") ou era um p√°roco do campo. O clero das cidades universit√°rias, dos centros intelectuais e das institui√ß√Ķes vinculadas ao episcopado, e os padres de periferia isolados eram os menos poupados.

Para Andrzej Paczkowski, um historiador especialista nos aparelhos de seguran√ßa comunistas e membro da comiss√£o constitu√≠da pelo mediador polon√™s para investigar o passado de Dom Wielgus, "a pol√≠cia procurava recrutar colaboradores para obter informa√ß√Ķes sobre a Igreja, mas, sobretudo para "quebrar" ("zlamac", em polon√™s) o clero. O objetivo era de comprometer o maior n√ļmero poss√≠vel de padres, obrigando-os a assinarem declara√ß√Ķes".

Como? Afagando a sua fibra patri√≥tica, exercendo sobre eles uma chantagem por motivos de malversa√ß√£o ou de comportamento pouco condizente com a sua fun√ß√£o, ou ainda por meio do "toma l√° d√° c√°". Na Pol√īnia, para descrever as t√©cnicas de corrup√ß√£o dos padres, as pessoas brincam com as rimas das palavras "korek", "worek" e "rozporek": a rolha (a garrafa de √°lcool oferecida), a bolsa (presentes), a braguilha (chantagem relacionada a uma suposta liga√ß√£o amorosa).

At√© os anos 1980, 4.000 a 5.000 homens haviam sido recrutados pelo "departamento 4" da SB, encarregado dos "contatos" com o clero e cinicamente batizado de "Prote√ß√£o da Igreja e das associa√ß√Ķes de crentes". Na √©poca, a pol√≠cia pol√≠tica contava 24.000 funcion√°rios. "Cada funcion√°rio operacional geria ent√£o, em m√©dia, 7,9 colaboradores!", calcula, sorrindo, o historiador Paczkowski.

O n√ļmero que est√° sendo aventado atualmente na Pol√īnia, de 10% de padres "informantes secretos" (de um total de 15.000 padres diocesanos), √© t√£o improv√°vel quanto imposs√≠vel de verificar. Al√©m disso, nem todos eles eram colaboradores ativos. Um padre aceitava "assinar" para poder consertar o seu campan√°rio, obter material de constru√ß√£o para concluir a obra da sua capela ou receber um passaporte e assim poder viajar para o exterior para empreender estudos ou dar confer√™ncias. O oficial da SB colocava o passaporte sobre a mesa, ao alcance da m√£o do padre, e propunha entreg√°-lo contra a promessa de o padre fornecer informa√ß√Ķes sobre as pessoas que ele iria encontrar, em Paris ou em Roma, e sobre os meios estudantis que ele iria freq√ľentar. Este jogo de "toma l√° d√° c√° podia perdurar por semanas".

Esses informantes nem sempre prestavam os servi√ßos que deles se esperavam. Ao retornaram de uma viagem, muitos deles fingiam estar "mortos". Mas outros falavam, acabavam cedendo, tal como aconteceu com Stanislaw Wielgus, recrutado pela SB desde 1967 - ele tinha ent√£o 28 anos - e que trouxe informa√ß√Ķes de Munique, onde ele era um t√£o bom agente que a pol√≠cia tentou, sem sucesso, fazer com que ele fosse admitido na R√°dio Free Europe. Hoje, ele n√£o tem consci√™ncia de ter "entregado nomes" ou "prejudicado algu√©m", mas os documentos que foram encontrados com ele provaram o contr√°rio.

A maioria resistia √† press√£o policial. Este foi o caso de Janusz Zyzniewski, um padre aposentado confortavelmente instalado na sua bela igreja de tijolos vermelhos em Vars√≥via, e que conta: "O fato de aceitar uma garrafa de conhaque j√° equivalia a enviar o sinal para a SB de que ela poderia ir mais longe; eu sempre recusei". Para desculpar aqueles que cediam, ele acrescenta: "A pol√≠cia n√£o era nem um pouco est√ļpida; ela sabia muito bem corromper os jovens padres e seminaristas utilizando o seu ponto fraco: a vontade de viajar para o exterior, para estudar e seguir carreira".

Os recalcitrantes tais como o Padre Zyzniewski se inspiravam nos exemplos famosos de Stanislas Wyszynski, o primado da Pol√īnia, uma figure her√≥ica da resist√™ncia ao sistema, de Karol Wojtyla, o arcebispo de Crac√≥via, ou ainda de Jozef Glemp, o atual primado, os quais, assim como tantos outros, foram fichados, dotados de um pseud√īnimo, colocados sob escuta, seguidos, mas nunca assinaram nada.

Em Crac√≥via, no santu√°rio do "Tygodnik Powszechny", a revista semanal dos intelectuais cat√≥licos, em meio a um cen√°rio de jornais amarelados e de poltronas detonadas, Krzysztof Kozlowski, um ex-vice-ministro do interior durante o primeiro governo livre de Tadeusz Mazowiecki, relata as conversas que ele teve em 1989 e 1990 com a hierarquia cat√≥lica e com o general Czeslaw Kiszczak, o √ļltimo ministro do interior comunista. Aos bispos, ele pergunta se a Igreja est√° interessada em tomar conhecimento dos "pap√©is" comprometedores que a pol√≠cia pol√≠tica conseguira reunir sobre ela ao longo de quarenta anos. A resposta de Dom Bronislaw Dobrovski, o ent√£o secret√°rio-geral do episcopado foi clara e concisa: "N√£o, para a Igreja, isso n√£o √© interessante. Isso n√£o √© da nossa conta. √Č da conta do Estado".

A Igreja acreditava ingenuamente que os dossi√™s haviam sido destru√≠dos durante o per√≠odo de transi√ß√£o. O ministro do interior Kiszczak havia dado a ordem, em 4 de setembro de 1989, para queimar os dossi√™s do departamento 4 que se referissem ao clero, para n√£o deixar sinais das persegui√ß√Ķes comunistas contra a Igreja. A opera√ß√£o foi conclu√≠da em mar√ßo de 1990. Mas os documentos do departamento 1, aquele da espionagem - relativos aos padres em viagem no exterior -, haviam sido conservados sob forma de microfichas.

Em abril de 1990, o mesmo general Kiszczak, movido pelo cinismo, confessará ao novo vice-ministre do interior, o católico Krzysztof Kozlowski, que ele havia incentivado a destruição dos arquivos relativos à Igreja, uma vez que a sua publicação seria para ela uma "catástrofe".

Resumindo, por ocasi√£o da queda do comunismo, diferentemente do que aconteceu na Tchecoslov√°quia e na ex-RDA (Alemanha do Leste), a Pol√īnia, em conseq√ľ√™ncia de um acordo t√°cito entre a Igreja e os √ļltimos representantes da hierarquia comunista, optou por apagar o passado e voltar-se para o futuro.

Contudo, 17 anos mais tarde, o passado volta a assombrar a Pol√īnia, que se mostra perplexa e questiona. Por que ter√° sido preciso esperar at√© 2003 para poder aceder aos arquivos da SB, que se encontravam conservadas no Instituto da mem√≥ria nacional (IPN)? "Todo mundo √© culpado", argumenta Krzysztof Kozlowski. "O Instituto da Mem√≥ria, que tardou a revelar a exist√™ncia dos arquivos, o episcopado, que n√£o quis arriscar sujar a imagem her√≥ica da Igreja polonesa, e finalmente o n√ļncio apost√≥lico, que n√£o transmitiu para o Vaticano as informa√ß√Ķes completas a respeito da situa√ß√£o, tal como foi o caso para a nomea√ß√£o de Dom Wielgus".

Em 1999, a publica√ß√£o pelo historiador Andrzej Grajewski de um livro sobre os v√≠nculos da Igreja com o poder comunista, intitulado "O Complexo de Judas", havia disparado o sinal de alarme. Mas ningu√©m havia tomado qualquer atitude. A tempestade tem in√≠cio logo depois da morte de Jo√£o Paulo 2¬ļ, em 2005.

Uma avalanche de revela√ß√Ķes respinga sobre padres conhecidos e mancha a sua imagem: Konrad Hejm√∂, o respons√°vel das peregrina√ß√Ķes polonesas a Roma, Mieczyslaw Malinski, um fiel colaborador de Karol Wojtyla em Crac√≥via, acusado de ter falado demais, Michal Czajkowski, um colaborador da prestigiosa revista cat√≥lica "Wiez", a respeito do qual foram encontradas cerca de mil p√°ginas dando conta da sua colabora√ß√£o ativa ao longo de vinte anos com a SB, que o conduziu a denunciar outros padres. "Ele foi v√≠tima de uma odiosa e longa chantagem relativa ao seu comportamento", explica Zbigniew Nosowski, o seu redator em chefe, que publicou as suas confiss√Ķes.

Em agosto de 2006, no santu√°rio nacional de Jasna Gora (Czestochowa), o episcopado polon√™s adota solenemente um "Memorando" que estipula que o simples fato de ter consentido a entrar em contato com a SB √© um "pecado p√ļblico". Esta formula√ß√£o √© incisiva, mas a comiss√£o de inqu√©rito hist√≥rico da Igreja s√≥ come√ßa a trabalhar em outubro, e, em meio ao estardalha√ßo dos ve√≠culos de comunica√ß√£o provocado pela nomea√ß√£o do novo arcebispo de Vars√≥via, o primeiro caso que ela investiga √© justamente aquele do espi√£o Wielgus.

"O episcopado se considerava como inating√≠vel", diz o jornalista da "Rzeczpospolita", Tomasz Terlikowski, um dos primeiros a ter levantado a lebre. Aquilo n√£o passa de um "sil√™ncio corporativista", confirma Piotr Cywinski, um dirigente do Clube dos Intelectuais Cat√≥licos (KIK) de Crac√≥via. Desde ent√£o, surgiu uma divis√£o entre as gera√ß√Ķes, e ainda entre os laicos que exigem a verdade e o alto clero. "Pela primeira vez, os laicos tomam a palavra num debate que diz respeito aos mais importantes assuntos da Igreja", constata Piotr Cywinski.

Os jovens capelães ou vicários de paróquia estão na linha de frente deste debate. "O que responder a um adolescente que lhe pergunta se o clero mente?", indaga um jovem jesuíta de Varsóvia, Witold Sokolowski. Eles estão zangados com a sua hierarquia, não por ela ter colaborado, e sim por ela ter adotado uma posição de perpétua denegação.

J√° no m√™s de agosto de 2006, o nome de Dom Wielgus, apontado como um antigo colaborador havia sido citado num jornal s√©rio, o "Przekr√∂j", numa men√ß√£o que seria retomada na "Rzeczpospolita". "N√£o existe nenhuma disposi√ß√£o que pro√≠ba a um n√ļncio de ler os jornais", observa o Padre Sokolowski, "nem de consultar os arquivos do IPN. Infelizmente, na Pol√īnia, a vis√£o de uma Igreja triunfante sobreviveu a Jo√£o Paulo 2¬ļ, que dela fora o grande arquiteto. A maioria do clero ainda vive com uma concep√ß√£o piramidal e autorit√°ria da Igreja de antes de Vaticano II".

Diante desses ataques, a voz de Jozef Zycinski, o arcebispo de Lublin, uma personalidade aberta, treme de emo√ß√£o. Ele mesmo pediu espontaneamente a abertura dos arquivos que lhe dizem respeito e criou uma comiss√£o hist√≥rica que vem passando um pente fino em todos os fatos e gestos dos professores da universidade cat√≥lica da sua cidade. Ele denuncia "o clima obsessivo de ca√ßa √†s bruxas" que tem como alvos aqueles padres idosos, "o √ļnico grupo social ao qual est√° sendo pedido todo dia para fornecer as provas da sua inoc√™ncia".

A mesma revolta pode ser constatada com Dom Tadeusz Pieronek, um antigo secretário-geral do episcopado, que se diz aflito ao constatar o abismo que foi aberto na sociedade polonesa: "Os jovens são agressivos, assim como um enxame de abelhas que, da manhã até a noite, gira em volta de nós para obter mais notícias. Eles não entendem que o comunismo penetrava em cada detalhe da nossa vida, vasculhava o passado de cada indivíduo desde a maternal. Além disso, neste sistema, a Igreja era a primeira a ser atacada, porque ela tinha a força numérica, intelectual, moral".

A Pol√īnia √© un√Ęnime em dizer que a Igreja deve ir at√© o fim nesta opera√ß√£o-verdade, qualquer que seja o pre√ßo a ser pago. "Na sua qualidade de institui√ß√£o de confian√ßa p√ļblica, ela tem o dever de passar a limpo todo o seu passado", diz o Padre Sokolowski. Os mais reservados, entretanto, s√£o os liberais, herdeiros da primeira gera√ß√£o do (sindicato) Solidarnosc no poder, fi√©is √† op√ß√£o inicial de n√£o remexer na lama do passado - o di√°rio liberal-centrista "Gazeta Wyborcza" encarna uma linha moderada neste debate -, enquanto os mais hostis s√£o os auditores fundamentalistas da poderosa R√°dio Maryja, que apoiou at√© o fim Dom Wielgus, e ainda assumiu o risco de difundir, depois da sua demiss√£o aceita por Bento 16, slogans anti-papa.

Surfando sobre a onda, a classe política no poder, dirigida pela direita encarnada pelos irmãos Kaczynski (do partido Direito e Justiça, PiS), acaba de apresentar as grandes linhas de um projeto de lei que alveja os antigos funcionários da SB. "Nós cometemos o erro de pensar que num país onde a Igreja tem sido altamente resistente, nós poderíamos ter evitado este debate sobre o passado", comenta Marek Jurek, o presidente do Parlamento polonês. "Agora, o nosso dever passou a ser de cuidar dos carrascos".

Fonte: Le Monde