FG News: Padre Fábio de Melo rebate críticas do padre Marcelo Rossi

Postado em: 01-11-2011 Padre F√°bio (foto) rebate cr√≠ticas do padre Marcelo e diz que o colega tamb√©m n√£o usa batina; ele votou em Dilma e acha que igreja faz 'voto de cabresto' ao discutir aborto s√≥ nas elei√ß√Ķes.

Uma mulher vestindo cal√ßa de gin√°stica entra na Catedral S√£o Francisco de Chagas, em Taubat√© (140 km de SP), com a missa das 8h j√° em andamento. Senta-se no primeiro banco e saca o celular. Aponta o aparelho para o altar. N√£o est√° interessada na arquitetura da igreja nem na est√°tua de cera do papa Jo√£o Paulo 2¬ļ, entregue recentemente. Busca um clique do padre F√°bio de Melo.

O sacerdote conduz a missa a poucos dias de come√ßar a divulga√ß√£o de seu 16¬ļ CD, "No Meu Interior Tem Deus", de m√ļsica caipira e textos religiosos. "Fazia celebra√ß√Ķes aqui tr√™s vezes por semana, mas tive que parar, porque era muita aglomera√ß√£o", diz ele ao rep√≥rter Di√≥genes Campanha. Passou a marcar as missas sem avisar. "Mas o povo acaba sabendo. E elas ligam para avisar as outras, voc√™ viu?" Embora perten√ßa √† Diocese de Taubat√©, ele n√£o tem par√≥quia fixa.

"Pensaram que eu teria uma igreja s√≥ pra mim, um santu√°rio. Mas n√£o quero, iria virar lugar de peregrina√ß√£o. N√£o posso ter igreja paralela." √Č uma clara refer√™ncia a outro sacerdote cantor, e popstar: o padre Marcelo Rossi, que inaugura em dezembro o Santu√°rio M√£e de Deus, em SP, com capacidade para 100 mil pessoas, e recebe caravanas de v√°rias cidades.

Farpas entre os dois j√° voaram para l√° e para c√°. O padre Marcelo, por exemplo, critica o padre F√°bio por trocar a batina por camisas de marcas famosas em apari√ß√Ķes p√ļblicas. Em abril, disse em entrevista: "J√° alertei o F√°bio para que n√£o deixasse de usar batina. E ele est√° usando, por acaso? Bem se v√™ que eu n√£o tenho influ√™ncia sobre ele". "Eu tive tr√™s contatos com o padre Marcelo, dois pessoalmente e um por telefone. E n√£o lembro de, em nenhum momento, ter conversado sobre isso com ele." O assessor de imprensa da Sony, gravadora dos dois padres, cutuca o rep√≥rter e pergunta se "isso √© o foco da mat√©ria".

O padre F√°bio prossegue: "Aquilo que ele usa n√£o √© uma batina tamb√©m. √Č uma esp√©cie de um h√°bito franciscano, embora ele seja um padre diocesano". As farpas continuam: "O maior padre comunicador da hist√≥ria do Brasil √© o padre Zezinho, que nunca usou batina. √Č um homem que faz um trabalho s√©rio e nunca foi menos padre porque n√£o usa batina".

"N√£o somos amigos . Se eu precisar falar com ele [padre Marcelo], n√£o sei como encontr√°-lo. N√≥s dois trabalhamos com m√ļsica, mas de forma diferente: eu componho, escrevo as minhas m√ļsicas. Fa√ßo quest√£o de ter uma identidade musical." J√° o padre Marcelo s√≥ interpreta. "Ele faz uma linha mais lit√ļrgica, que canta nas missas e nas celebra√ß√Ķes dele." O padre Marcelo n√£o foi localizado para comentar.

Com uma veste de veludo preta e verde, com a inscri√ß√£o "Filho do C√©u", nome de uma de suas m√ļsicas, escrito na estola, o padre F√°bio atende fi√©is no fim da missa. "O senhor me tirou da macumba com uma palavra", diz uma senhora. Ela teve um derrame e pede que benza seu olho. "Tira [foto] com o anjo aqui", diz outra mulher. "Est√° vendo o que eu passo?", diz o padre. "Minhas velhinhas s√£o muito t√°teis. √Äs vezes, o ass√©dio √© perigoso."

"Uma vez, em Maringá, tinha uma mulher parada na porta do meu quarto [no hotel]. Disse: 'Vem cá, eu gostaria de fazer uma massagem no senhor'". Ele diz que anda sempre com dois assessores para evitar tais surpresas. E evita ficar sozinho com um deles, "porque tudo pode gerar uma insinuação".

Ele tira a batina e veste camisa azul da Zara, cal√ßa e sapatos sociais pretos. Segue para a Funda√ß√£o Dom Jos√© Ant√īnio do Couto. L√°, adultos e crian√ßas ajudam a restaurar as imagens do Museu de Arte Sacra de Taubat√©. "Quis um projeto social simp√°tico. A igreja n√£o tem que continuar antip√°tica √† sociedade." Os santos do museu est√£o todos "de cabecinha tombada, triste. A religi√£o deixou de falar do amor de Deus para falar de culpa. Voc√™, um homem contempor√Ęneo, n√£o se identifica."

No almoço, pede badejo grelhado e penne integral com legumes. Procura álcool em gel na bolsa transpassada preta e cinza, para limpar as mãos. "Minha equipe sempre anda com um", diz. "Só faço isso quando vou comer. Se fizer a cada cumprimento, fico com síndrome de José Serra." A revista "Piauí", em 2009, descreve que Serra usa o produto sempre que cumprimenta estranhos e não tem como lavar as mãos.

Ao contrário do padre Marcelo, que esconde o voto, o padre Fábio revela que optou por Dilma Rousseff em 2010. "Se eu pudesse, colocaria a mulherada toda no poder." Um e-mail em que ele desejava boa sorte a Dilma no "dia histórico" da eleição foi divulgado quando um hacker invadiu a caixa postal dela. "Me correspondi com ela por um ano. Eu a atendi numa oportunidade na [comunidade católica] Canção Nova. Ficamos amigos."

Tamb√©m foi na Can√ß√£o Nova que conheceu o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP), para quem foi dar uma entrevista h√° alguns anos. "Tivemos uma identifica√ß√£o com algumas quest√Ķes sobre o mundo. O Gabriel tornou-se, desde aquele momento, um amigo com quem converso sobre quest√Ķes que normalmente n√£o tenho a oportunidade de falar. Chamo isso de parentesco espiritual."

"Quando voc√™ tem uma amigo assim, diminui a sensa√ß√£o de solid√£o, de orfandade na vida. √Č aquela coisa de 'que bom, vou estar com meu amigo hoje'". Conta ter tamb√©m "gratid√£o" por Chalita ter lido seu primeiro livro. "Ele me abriu muitas portas, em todas as editoras." Escreveram juntos dois volumes de "Cartas entre Amigos".

O padre critica o uso pol√≠tico do aborto por alguns setores da igreja, na campanha eleitoral. Panfletos contra Dilma foram distribu√≠dos em celebra√ß√Ķes, pregando que n√£o se votasse nela por ter defendido a descriminaliza√ß√£o da pr√°tica. "Naquele segundo turno, vivemos um momento delicado, em que quest√Ķes importantes poderiam ter sido discutidas e n√£o foram. Parecia, mais uma vez, uma imposi√ß√£o idiota: 'N√£o vote nela por causa disso'. Depois ningu√©m voltou a falar do assunto, porque era interesse de ocasi√£o." Para ele, a igreja n√£o pode discutir o tema s√≥ na elei√ß√£o, "para n√£o fazer voto de cabresto quando o povo tiver que decidir".

Ele se declara "radicalmente contra" o aborto, mesmo em caso de risco para a mãe ou violência sexual. "A vida está acontecendo. E mesmo que metade seja de um estuprador, metade é minha [da mulher]. Sou a guardiã dessa vida."

J√° os homossexuais, afirma, s√£o "mal interpretados" ao lutar pelo reconhecimento de sua uni√£o. "A necessidade de se falar sobre o casamento gay nasceu porque, ap√≥s a morte de um dos c√īnjuges, a fam√≠lia, que nunca cuidou deles, quer ficar com aquilo que eles constru√≠ram juntos. A√≠ eu te pergunto: um conceito religioso pode cometer essa injusti√ßa? N√£o." Ele √© contra os gays se casarem na igreja. "E em nenhum momento nos pediram para fazer isso. Eles n√£o est√£o reivindicando cerim√īnia religiosa."

Fonte: Folha de S√£o Paulo