FG News: PolĂ­cia investiga pastor Marcos Pereira por denĂșncias de estupro, tortura e ameaça de morte

Postado em: 11-03-2012 Com bom trĂąnsito entre polĂ­ticos, artistas e ONGs, o pastor Marcos Pereira (foto) Ă© agora acusado de abuso sexual, tortura de crianças e conivĂȘncia com a bandidagem que ele diz “curar”, conforme revela reportagem da revista VEJA desta semana.

Em um recĂ©m-instaurado inquĂ©rito que estĂĄ em poder da Delegacia de Combate Ă s Drogas do Rio, o pastor Ă© acusado de encenaçÔes de cura pela fĂ©, estupro, tortura de crianças e relaçÔes criminosas com os marginais aos quais esbravejava promessas de “salvação do demĂŽnio”.

Confira abaixo matéria da revista Veja on-line:

Na Ășltima dĂ©cada, o pastor carioca Marcos Pereira, 55 anos, conquistou respeito em rodas que mesclam polĂ­ticos, desembargadores, artistas e uma vasta turma egressa de ONGs. Entre os que jĂĄ o viram em cima de um pĂșlpito gesticulando com um de seus Rolex em punho e desejando “rajadas de glĂłria” Ă  plateia, estĂŁo o senador Alvaro Dias (PSDB-PR), a produtora Marlene Mattos e o ex-pagodeiro Waguinho, que, mesmo sem se eleger, alcançou 1,3 milhĂŁo de votos na Ășltima disputa para o Senado tendo o pastor Marcos como cabo eleitoral. Alçado Ă  condição de religioso-celebridade, Marcos extrapolou, e muito, as fronteiras de sua igreja, a pentecostal Assembleia de Deus dos Últimos Dias, com sede no Rio e filiais no ParanĂĄ e no MaranhĂŁo. Desde 2004 — depois de pĂŽr fim a uma sangrenta rebeliĂŁo em um presĂ­dio do Rio, a pedido do entĂŁo secretĂĄrio de Segurança, Anthony Garotinho —, ele passou a ser visto como o mais habilidoso apaziguador de conflitos liderados pela bandidagem, com um currĂ­culo que, segundo o prĂłprio, inclui o resgate de centenas do trĂĄfico. Tem feito esse trabalho no Brasil inteiro e jĂĄ foi vĂĄrias vezes aos Estados Unidos, onde quer erguer um templo, para falar da experiĂȘncia. Pois por trĂĄs dessa fachada, ao que tudo indica, se esconde um enredo de atrocidades que nĂŁo deixa pedra sobre pedra da imagem de bom religioso do pastor.

Em um recĂ©m-instaurado inquĂ©rito, cujo nĂșmero Ă© 902-00048/2012 e que estĂĄ em poder da Delegacia de Combate Ă s Drogas do Rio, ele Ă© acusado de encenaçÔes de cura pela fĂ©, estupro, tortura de crianças e relaçÔes criminosas com os marginais aos quais esbravejava promessas de “salvação do demĂŽnio”. VEJA teve acesso a trechos da investigação, um conjunto de relatos de gente que diz ter sido vĂ­tima ou testemunha da perversidade do pastor. Um de seus homens de confiança durante mais de seis anos, longe da igreja hĂĄ dois, traz Ă  luz uma histĂłria escabrosa, que dĂĄ a dimensĂŁo de como o pastor se enfronhou no mundo do crime. Essa testemunha sustenta, por exemplo, que Marcos ficou claramente do lado dos bandidos que engendraram a mais sangrenta onda de terror no Rio, em 2006. Depois dos ataques, reuniu seu sĂ©quito mais Ă­ntimo em uma churrascaria. “Ele queria que os bandidos tivessem atĂ© explodido a Ponte Rio-NiterĂłi. O objetivo era aparecer depois como o intermediĂĄrio salvador”, conta o ex-fiel. A trama piora na voz de outra testemunha, que situa o pastor como braço operacional da selvageria. “Marcos foi ao presĂ­dio de bangu 1 e saiu de lĂĄ com um recado dos chefĂ”es do trĂĄfico para que suas quadrilhas dessem sequĂȘncia Ă  carnificina”, rememora. Como sabe disso? “O pastor me encarregou de repassar a ordem nas favelas. E foi o que eu fiz.”

A polĂ­cia jĂĄ colheu uma dezena de depoimentos, e muitas das histĂłrias se repetem nos mĂ­nimos detalhes. A investigação começou hĂĄ duas semanas, depois que o coordenador da ONG Afro- Reggae, JosĂ© Junior, 43 anos, veio a pĂșblico denunciar que o pastor tinha um plano para matĂĄ-lo. A informação vinha de integrantes da prĂłpria igreja. “Trata-se de um psicopata”, dispara Junior, que hoje tem a seu lado na ONG um antigo braço direito de Marcos, o pastor RogĂ©rio Ribeiro de Menezes, 39 anos. Afastado do templo de Marcos desde 2008, ele fala pela primeira vez sobre os dezessete anos que viveu sob suas asas. Tomou a decisĂŁo depois de ter sido ameaçado de morte trĂȘs vezes — na Ășltima, os traficantes de uma favela esfregaram um fuzil contra seu rosto e pronunciaram o nome Marcos.

Seu depoimento ajuda a elucidar o que tanto unia o pastor aos traficantes que ele dizia “curar”, e certamente nĂŁo era a fĂ©. NĂŁo raro, Marcos lhe pedia que escondesse mochilas cheias de dinheiro em sua casa. Contou duas vezes a coleção de notas. “Numa delas, havia 200 000 reais. Na outra, 400 000 reais”, lembra RogĂ©rio. Detalhe: traziam resquĂ­cios de cocaĂ­na e crack. Segundo RogĂ©rio, o pastor cobrava atĂ© 20 000 reais para pregar nas favelas, o que os traficantes pagavam de bom grado, jĂĄ que assim mantinham sua base assistencialista. TrĂȘs deles chegaram a ser presos em propriedades da igreja do pastor, no Rio e no ParanĂĄ, mas a polĂ­cia nunca comprovou que estavam ali com a conivĂȘncia do religioso. Todos pagaram uma taxa equivalente a 10% de tudo o que haviam acumulado no crime.

Em seu templo, o fundador Ă© tĂŁo reverenciado quanto temido. AtĂ© hoje, manteve todos em silĂȘncio Ă  base de benesses e ameaças. Duas mulheres contam como a igreja se tornou um show de horrores no qual lhes cabia o papel de vĂ­timas do pastor. Ambas dizem que foram violentadas sexualmente por ele diversas vezes. À polĂ­cia, uma das moças afirma ainda que Marcos obrigava as fiĂ©is de sua preferĂȘncia a manter relaçÔes sexuais com outros homens, em orgias das quais tambĂ©m participava. “Depois, mandava a gente confessar tudo com outro pastor, sem revelar nomes, Ă© claro”, ela conta. Constam ainda do inquĂ©rito denĂșncias de crueldades contra crianças que o pastor mantinha sob sua guarda, em geral abandonadas pelos pais. Uma delas, de 7 anos, teria pago caro por testemunhar, casualmente, as peripĂ©cias sexuais do religioso. Ao se dar conta, o pastor agarrou-a pelos cabelos e lançou-lhe a cabeça no vaso sanitĂĄrio, segundo um dos relatos Ă  polĂ­cia.

Ex-garçom, o pastor Marcos Ă© casado e tem dois filhos que jĂĄ seguem seus passos no mundo da fĂ©. Convertido em 1989, fundou sua igreja dois anos depois e constituiu ali um reinado de trevas. ProĂ­be refrigerante, rĂĄdio, televisĂŁo (apesar de ter um telĂŁo em seu gabinete) e remĂ©dios, jĂĄ que a igreja se encarrega da cura (aos que pagarem uma taxa extra via boleto bancĂĄrio, distribuĂ­do durante a pregação). Os cultos, que juntam atĂ© 15 000 pessoas, sĂŁo barulhentos e teatrais — literalmente, segundo narra um ex-assessor do pastor, que ajudava a armar o show: “Ele dava dinheiro a viciados para comprarem droga, filmava a turma em degradação e depois levava para a igreja, como se os estivesse salvando”. Na Ășltima segunda- feira, um rapaz adentrou a Assembleia de Deus dos Últimos Dias de muletas, que usava desde um acidente que lhe machucara o fĂȘmur. Depois das oraçÔes do pastor Marcos, caminhou em frente aos fiĂ©is dizendo-se curado. Findo o culto, subiu na mesma moto que havia conduzido na viagem de ida Ă  igreja e foi embora.


Imagem redimensionada



ATROCIDADES
Marcos acusado: Junior, do AfroReggae, revela ameaça de morte, e depoimento de uma fiel (ao lado) relata estupro





Fonte: Revista Veja on-line