FG News: Financiamento a Israel causa briga de judeus e crist√£os nos EUA

Postado em: 28-10-2012 Organiza√ß√Ķes judaicas dos Estados Unidos reagiram indignadas a uma carta enviada por l√≠deres crist√£os ao Congresso, pedindo a revis√£o parcial da ajuda de US$ 3 bilh√Ķes que o pa√≠s d√° a Israel, para saber se n√£o √© usada para violar leis internacionais.

Ap√≥s se retirarem de uma confer√™ncia de di√°logo interconfessional, v√°rias organiza√ß√Ķes judias redobraram seus ataques contra autoridades crist√£s, acusando-as de serem parciais com rela√ß√£o a Israel e at√© de antissemitismo.

Na carta do dia 15, os líderes cristãos dizem acreditar que a ajuda incondicional dos Estados Unidos ao Estado judeu contribui para a "deterioração da situação em Israel e nos territórios palestinos ocupados". Essa deterioração, afirmam, "ameaça afastar mais a região da possibilidade de concretizar a paz, sustenta o conflito e prejudica os interesses de longo prazo em matéria de segurança de israelenses e palestinos".

A carta foi enviada por 15 autoridades de destacadas congrega√ß√Ķes protestantes como a Igreja Presbiteriana e a Metodista, a Igreja Unida de Cristo e o Conselho Nacional de Igrejas de Cristo, entre outras. Elas pedem uma "imediata investiga√ß√£o sobre as poss√≠veis viola√ß√Ķes de Israel √† Lei de Assist√™ncia Estrangeira dos Estados Unidos e √† Lei de Controle de Exporta√ß√£o de Armas".

Recordam que essas duas leis "pro√≠bem, respectivamente, ajuda a qualquer pa√≠s que tenha um padr√£o sistem√°tico de viola√ß√Ķes de direitos humanos e limita o uso de armas norte-americanas √† seguran√ßa interna ou √† autodefesa leg√≠tima".

Os l√≠deres crist√£os disseram que sua preocupa√ß√£o se baseia no question√°vel uso de armas norte-americanas, bem como no informe anual do Departamento de Estado que, asseguram, "detalha as generalizadas viola√ß√Ķes dos direitos humanos cometidas por israelenses contra civis palestinos, muitas delas incluindo abuso com armas fornecidas pelos Estados Unidos".

Entre os grupos judeus descontentes destacam-se o Conselho Judeu de Assuntos P√ļblicos (JCPA) e a Liga Antidifama√ß√£o (ADL). O JCPA disse que o sil√™ncio sepulcral das igrejas crist√£s diante dos ataques implac√°veis contra os judeus, frequentemente desde suas pr√≥prias fileiras, "mostram claramente a defesa falida e o erro de n√£o dizer toda a verdade sobre o que acontece no Oriente M√©dio".

A carta dos hierarcas crist√£os motivou tamb√©m cr√≠ticas de todo o espectro pol√≠tico de figuras judaico-norte-americanas. O conhecido neoconservador Elliott Abrams, ex-funcion√°rio norte-americano que dirigiu o Centro de √Čtica e Pol√≠ticas P√ļblicas, onde costumava se chocar com grupos religiosos pela paz, considerou a carta como "o √ļltimo cap√≠tulo da intermin√°vel hostilidade em rela√ß√£o a Israel que caracteriza v√°rias das principais congrega√ß√Ķes protestantes".

Como muitos grupos judeus, Abrams n√£o aponta diretamente para a parte substancial da carta nem responde √† acusa√ß√£o de que Israel incorre na sistem√°tica viola√ß√£o de direitos humanos, mas destaca outras quest√Ķes para justificar sua opini√£o de que o motivo da mesma √© uma postura anti-israelense. Pode ter raz√£o quanto a "ser pouco prov√°vel que a carta das igrejas afete a ajuda a Israel", mas, n√£o explica o motivo de a comunidade judaica reagir t√£o fortemente diante deste pedido.

A mais centrista organiza√ß√£o judia, a J Street, tamb√©m criticou a carta, embora com um tom mais conciliador. "A J Street se op√Ķe √† proposta de condicionar ou reduzir a assist√™ncia √† seguran√ßa de Israel", escreveu em uma coluna publicada no site de Daily Beast, da revista Newsweek, a vice-presidente de seu fundo de educa√ß√£o, Rachel Lerner.

"Como muitos dos esfor√ßos para lidar com esta complexa situa√ß√£o, a carta n√£o consegue sopesar o comportamento de Israel com os argumentos apropriados, como, por exemplo, os foguetes lan√ßados desde Gaza sobre √°reas povoadas de Israel", ressaltou Lerner. "Tamb√©m questionamos o momento escolhido para enviar a carta, poucas semanas antes das elei√ß√Ķes, quando este assunto sens√≠vel se parece muito com um jogo de futebol", acrescentou.

O mesmo argumento foi apresentado por Abrams, o JCPA e a ADL. Entretanto, a carta das autoridades cristãs não pede redução nem condicionamento da ajuda, mas rever se a mesma atende a legislação norte-americana, como se costuma fazer frequentemente com a cooperação ao exterior. A carta menciona, ainda, várias das dificuldades que Israel atravessa, especialmente os foguetes lançados desde Gaza, e equipara de forma sistemática o sofrimento palestino e israelense.

"V√°rios membros do Congresso pediram ao Departamento de Estado que informe se alguns acidentes concretos constituem viola√ß√Ķes por parte de Israel da legisla√ß√£o norte-americana", disse √† IPS o diretor da Campanha para Terminar com a Ocupa√ß√£o Israelense, Joshua Ruebner. "O informe anual do Departamento de Estado sobre os direitos humanos nos territ√≥rios ocupados documenta abusos de forma regular, mas volta limpo. Embora a carta dos l√≠deres crist√£os pe√ßa uma revis√£o integral, o que nunca se fez, a resposta das organiza√ß√Ķes judias parece uma rea√ß√£o exagerada", pontuou.

Ruebner disse que desde 2001 os Estados Unidos reduziram ou revisaram a assist√™ncia a cinco pa√≠ses - Bahrein, Col√īmbia, Filipinas, Paquist√£o e Zimb√°bue -, por viola√ß√Ķes √† legisla√ß√£o nacional mediante armas fornecidas por Washington no contexto da ajuda militar. "Os Estados Unidos j√° sancionaram Israel e outros pa√≠ses por violarem a legisla√ß√£o norte-americana", explicou. "Contudo, apesar da sistem√°tica viola√ß√£o de direitos humanos de Israel nesse per√≠odo, nem uma s√≥ vez desde 2000 um governo dos Estados Unidos o responsabilizou formal e publicamente pelo uso de armas norte-americanas em viola√ß√£o das pr√≥prias leis nacionais", destacou Ruebner.

Os 15 signat√°rios da carta ao Congresso decidiram manter-se em sil√™ncio e nem responderam aos ataques nem se retrataram. Entretanto, nem tudo foi cr√≠tica dentro da comunidade judaica. A organiza√ß√£o Voz Judia pela Paz, e em especial o Conselho Rab√≠nico dos Estados Unidos, tornaram p√ļblico seu apoio. Na medida em que aumenta a consterna√ß√£o de cidad√£os norte-americanos com a ocupa√ß√£o por Israel de territ√≥rios palestinos e com sua intransig√™ncia nas negocia√ß√Ķes, √© poss√≠vel que esta carta marque o princ√≠pio de um amplo debate dentro das principais igrejas do pa√≠s sobre a pol√≠tica de Washington em rela√ß√£o ao conflito israelense-palestino.

Fonte: Vermelho.org