Miss√Ķes: Guerra s√≠ria silencia idioma de Cristo

Postado em: 11-12-2013 Encravada em pared√Ķes de rocha e um dos √ļnicos lugares no mundo onde o aramaico - a l√≠ngua de Cristo - permanece vivo, a vila s√≠ria de Maaloula viu as palavras guerra e caos se incorporarem ao seu cotidiano desde setembro, quando virou palco de disputa entre rebeldes e for√ßas do regime de Bashar al-Assad.

A violência em uma das cidades mais cinematográficas da Síria e símbolo do cristianismo aumentou o temor dos fiéis pelo fim da religião no país, onde cerca de 10% da população é cristã. A dispersão dos moradores coloca em risco um idioma considerado pela Unesco ameaçado de extinção.

‚ÄúA l√≠ngua √© falada em Maaloula. N√£o √© escrita. O governo havia criado um programa em parceria com a Unesco para preservar o idioma por meio de aulas e estudos. Agora n√£o sei o que vai acontecer‚ÄĚ, lamentou a s√≠ria Najwa Safar Seif, residente no Brasil.

Os crist√£os na S√≠ria veem com preocupa√ß√£o o aumento da presen√ßa de extremistas isl√Ęmicos no front, em uma guerra que entrou em seu terceiro ano sem dar sinais de tr√©gua. O jornalista liban√™s em Damasco, Wissam Abdallah, cujo av√ī vivia em Maaloula e se refugiou na capital s√≠ria, n√£o sabe se a casa de sua fam√≠lia ainda pode ser chamada de lar. ‚ÄúA situa√ß√£o √© um muito triste. A nossa casa pode ter sido queimada ou saqueada‚ÄĚ, disse ele.

O medo est√° na radicaliza√ß√£o de uma guerra que atinge fam√≠lias inteiras sem distin√ß√£o. Os crist√£os n√£o temem cidad√£os mu√ßulmanos, mas extremistas de v√°rios pa√≠ses que se uniram aos rebeldes na luta contra o governo. ‚ÄúMu√ßulmanos de aldeias vizinhas abriram as portas de suas casas para proteger crist√£os que fugiram de Maaloula‚ÄĚ, contou Abdallah, que trabalha para o jornal Alakhbar, do L√≠bano.

Segundo Najwa, h√° relatos de que tr√™s jovens crist√£os foram assassinados durante a primeira invas√£o de insurgentes do Ex√©rcito Livre da S√≠ria e do grupo Frente al-Nursa ‚Äď ligado √† rede terrorista al-Qaeda ‚Äď , em 5 de setembro. Ap√≥s dias de combate contra as for√ßas leais ao regime, os rebeldes tomaram o controle da cidade na segunda-feira (02/12), sequestrando 12 freiras do Mosteiro Ortodoxo Santa Takla.

‚ÄúA cidade √© cercada por rochas e possui apenas duas entradas. Uma delas estava bloqueada pelo Ex√©rcito s√≠rio. Um insurgente explodiu a barreira com um carro-bomba, e dezenas de militantes entraram na vila, atacando, saqueando e incendiando casas e igrejas‚ÄĚ, disse Najwa.

Maaloula √© parte de uma luta mais ampla entre rebeldes e for√ßas do presidente para o controle da estrat√©gica rodovia central da S√≠ria. Situada a uma altitude de mais de 1.500 metros, se assemelha a Petra, na Jord√Ęnia, e significa ‚Äúentrada‚ÄĚ em aramaico.

Apesar do nome que leva na língua de Jesus, a aldeia virou porta de saída para os cristãos. Em Damasco, eles buscaram abrigo no bairro Bab Touma. Outros recorreram a parentes no Líbano. Em Maaloula, só ficaram muçulmanos.

Moeda de troca
O jornal do governo s√≠rio ‚Äúal-Watan‚ÄĚ acusou os rebeldes de sequestro e de usar as religiosas como moeda de troca, o que foi negado pelo Ex√©rcito Livre da S√≠ria. O grupo assegurou que as freiras est√£o seguras e se encontram na cidade de Yabrood, a cerca de 80 quil√īmetros ao norte de Damasco, sob a guarda de membros da mil√≠cia, e n√£o de extremistas.

O sequestro ganhou destaque na m√≠dia internacional, levando o Papa Francisco a fazer um apelo pela liberta√ß√£o das freiras na √ļltima quarta-feira. O arcebispo Atallah Hanna, de Sebastia Ortodoxa, na Cisjord√Ęnia, condenou o sequestro no que ele chamou de um ‚Äúato desumano por motivo de √≥dio‚ÄĚ.

Fonte: O Globo