FG News: Crescimento do uso de redes sociais pelos crentes aumenta risco de heresias

Postado em: 10-11-2014 O uso inadequado das redes sociais tem fortes ind√≠cios de liga√ß√Ķes com o decl√≠nio estat√≠stico na frequ√™ncia √†s igrejas, segundo estudo.

Um estudo recentemente publicado confirma o perigo de que muita gente j√° desconfiava, mas ao qual faltava fundamenta√ß√£o: o uso inadequado das redes sociais acompanha o decl√≠nio estat√≠stico na frequ√™ncia √†s igrejas. O cientista Allen Downey, da Olin College de Engenharia da Computa√ß√£o, em Massachussets (EUA), encontrou fortes ind√≠cios de que a queda na filia√ß√£o religiosa tem liga√ß√Ķes com o aumento do uso da internet e, particularmente, de ferramentas como Facebook e Twitter, que n√£o s√≥ tomam tempo excessivo das pessoas como as exp√Ķem a uma s√©rie de informa√ß√Ķes, conceitos e comportamentos prejudiciais √† f√© crist√£. "O aumento do uso da rede mundial nas √ļltimas duas d√©cadas causou grande impacto na filia√ß√£o religiosa", defende o pesquisador. Ele tra√ßou paralelos entre a import√Ęncia crescente das redes sociais no cotidiano das pessoas e a sua express√£o de f√© ‚Äď e a correla√ß√£o entre uma e outra ficou clara ‚Äď em alguns cruzamentos de dados, o absente√≠smo √† igreja, entre usu√°rios crist√£os ativos de redes sociais, beira os trinta por cento. "√Č f√°cil imaginar que uma pessoa que foi educada em uma determinada religi√£o possa se afastar dela, mas a propor√ß√£o atual foge das tend√™ncias ao longo da hist√≥ria", conclui Downey.

Isso √© apenas uma ponta do iceberg. Desde que as redes sociais entraram no ar para valer ‚Äď a maior delas, o Facebook, acaba de completar dez anos e j√° contabiliza 1,2 bilh√£o de usu√°rios ‚Äď, seu uso, para todos os fins, s√≥ faz crescer. Pesquisa da Intel mostrou que os brasileiros s√£o os que mais discutem religi√£o na internet m√≥vel e nas redes sociais. Tamanha multiplicidade de possibilidades tem tornado poss√≠veis mudan√ßas em diferentes aspectos relacionados √† vida humana ‚Äď inclusive, claro, a f√© e a espiritualidade. "J√° se pode falar em uma 'religiosidade cibern√©tica', formato para express√£o da f√© surgida com o avan√ßo da internet e das novas tecnologias", aponta a jornalista e doutora em Comunica√ß√£o Social Magali do Nascimento Cunha, membro da Igreja Metodista e professora do Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Comunica√ß√£o Social da Universidade Metodista de S√£o Paulo. Para ela, no ambiente virtual, isso significa uma nova dimens√£o no controle do sagrado e da doutrina, prerrogativa secularmente consolidada nas m√£os da institui√ß√£o religiosa e do l√≠der espiritual. "Basta ter uma conta sem custo nas mais populares redes sociais digitais, como Facebook ou Twitter, e o espa√ßo est√° garantido para a livre manifesta√ß√£o".

Nessa FaceChurch sem templo e sem p√ļlpito, prossegue Magali, as tradi√ß√Ķes teol√≥gicas passaram a ser relativizadas, bem como a autoridade dos l√≠deres cl√°ssicos. "Questionamentos s√£o feitos a todo tempo, doutrinas e posturas teol√≥gicas contr√°rios √†s perspectivas denominacionais s√£o pregadas". J√° √© poss√≠vel encontrar, por exemplo, comunidades virtuais como a Igreja Evang√©lica Virtual Deus Todo-poderoso, que oferece servi√ßos como pedido de ora√ß√£o e aconselhamento. Entre os cat√≥licos, qualquer fiel j√° pode realizar o sacramento da confiss√£o ou acender velas virtuais nas p√°ginas do Face, e que procura algo mais moderninho ‚Äď para dizer o m√≠nimo ‚Äď pode acessar a p√°gina do grupo Crist√£os Libertos, cujo objetivo, dizem os mantenedores, √© "demonstrar que o sexo antes e fora do casamento n√£o √© pecado". Nos coment√°rios, √© poss√≠vel encontrar coisas de todo tipo, desde acusa√ß√Ķes de pervers√£o sexual at√© elogios √† postura "ousada e libertadora" do grupo. CRISTIANISMO HOJE tentou contato com os respons√°veis pelo Crist√£os Libertos, mas n√£o obteve resposta. J√° o respons√°vel pela p√°gina da Igreja Evang√©lica Virtual, Dagoberto Prata, diz que realiza o trabalho sem nenhum interesse pessoal e que age sozinho, sem v√≠nculo com igreja ou religi√£o.

√Č claro que grande parte das pessoas que interage espiritualmente atrav√©s das redes sociais tem a melhor das inten√ß√Ķes e deseja, apenas, aprender mais sobre o Cristianismo e compartilhar a f√©, discutir temas ligados √† espiritualidade e manter contato com irm√£os de perto e de longe. A pesquisa da Intel revelou que 39% dos entrevistados afirmaram ter o h√°bito de tratar do tema religi√£o em celulares e tablets. Outro fator revelado pelo estudo √© o grande n√ļmero de brasileiros que admitem manter, no ambiente virtual, uma personalidade diferente daquela da vida real ‚Äď cerca de 33 por cento. E outros 23% admitem postar informa√ß√Ķes falsas nas redes sociais de que participam. "A falta de √©tica e respeito pelos valores crist√£os torna as redes sociais um caminho perigoso que pode levar at√© ao afastamento da f√© e √† apostasia", adverte o pastor e escritor Jo√£o Chinelatto, de Bras√≠lia, que faz de sua p√°gina no Face e do Twitter, no qual diz ter 75 mil seguidores, uma extens√£o de seu minist√©rio. "Existem obreiros fraudulentos, que usam essa ferramenta para enganar e se aproveitar da boa f√© de muitos evang√©licos."

BOATOS E HERESIAS

Segundo a Socialbakers, uma das maiores empresas de an√°lise de p√ļblico e tecnologia digital do mundo, o pa√≠s √© o vice-l√≠der em acessos no Facebook, reunindo quase 80 milh√Ķes de usu√°rios registrados na bilion√°ria rede social. L√≠deres evang√©licos j√° descobriram que as redes sociais s√£o uma extens√£o praticamente ilimitada de seus p√ļlpitos. Hoje, pastores j√° contabilizam milh√Ķes de seguidores no Twitter e t√™m suas p√°ginas no Face acessadas por multid√Ķes que jamais caberiam numa igreja. O pastor e conferencista Cl√°udio Duarte, conhecido por suas mensagens bem humoradas sobre vida crist√£ e sexualidade, tem quase 1,7 milh√£o de f√£s. Os pol√™micos bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, e pastor Silas Malafaia, da igreja Vit√≥ria em Cristo, tamb√©m arrastam multid√Ķes no Face e no Twitter. No microblog, tem aumentado exponencialmente as discuss√Ķes sobre religi√£o. A R18, empresa de monitoramento e an√°lise de dados sediada em S√£o Paulo, aferiu o pertencimento religioso de quem faz postagens desse tipo: 41% s√£o veiculadas por cat√≥licos e 28,7%, por evang√©licos, o que representa um aumento percentual ainda maior do segundo grupo.

"N√£o h√° nenhum outro grupo no Brasil com mais poder de mobiliza√ß√£o na rede social do que os evang√©licos", destaca o blogueiro Danilo Fernandes, editor do site Genizah, especializado em apolog√©tica e informa√ß√£o para o p√ļblico crist√£o. "H√° um enorme poder multiplicador, e as not√≠cias, entre n√≥s, se propagam rapidamente". De acordo com Danilo, isso acontece porque o crente, em geral, d√° muita credibilidade ao que outros evang√©licos dizem. Assim, uma not√≠cia, novidade ou simples boato pode ganhar for√ßa de verdade. Foi assim, por exemplo, quando correu no Facebook a not√≠cia de que o presidente americano, Barack Obama, teria anunciado que apenas as pessoas que tivessem implantado um microchip sob a pele teriam acesso a servi√ßos de sa√ļde no pa√≠s. Alardeado pelos crentes como a marca da besta, prevista no Apocalipse, o boato mobilizou as p√°ginas dos evang√©licos at√© sucumbir por falta de comprova√ß√£o. Muita gente tamb√©m postou retumbantes "gl√≥rias a Deus" ante a informa√ß√£o de que 16 pessoas mortas nas enchentes na Regi√£o Serrana do Rio de Janeiro, h√° tr√™s anos, haviam ressuscitado gra√ßas √†s ora√ß√Ķes das igrejas locais. Infelizmente, nem elas e nem nenhuma outra das quase mil v√≠timas fatais voltaram √† vida.

Para Danilo Fernandes, um dos maiores perigos dessa busca religiosa pelas redes sociais √© justamente a falta de controle e a dissemina√ß√£o de heresias. "Isso est√° em todo lugar. At√© gente com perfis fake atraem seguidores", aponta. Conhecido por sua mensagem radical, o blogueiro Julio Severo √© um desses livre-pensadores que exp√Ķem, na grande rede, as mais diversas ideias. Ningu√©m conhece seu verdadeiro nome, como se sustenta e como vive sua f√©. A prega√ß√£o furiosa contra o homossexualismo j√° lhe rendeu diversos problemas ‚Äď em entrevista a CRISTIANISMO HOJE, h√° cerca de cinco anos, ele se disse perseguido pelo governo brasileiro e amea√ßado de morte ‚Äď e sua homepage re√ļne os pr√≥prios textos, al√©m de colabora√ß√Ķes e cita√ß√Ķes de outros autores. "Ele √© o cara que ningu√©m sabe, ningu√©m viu, mas faz um barulho danado", brinca Danilo. Mesmo assim, tem muilhares de seguidores ‚Äď gente que n√£o s√≥ reproduz o que posta, criando verdadeiros virais, como defende com unhas e dentes.

"A grande quest√£o a ser considerada √© a motiva√ß√£o com que o internauta utiliza a rede social", pondera o te√≥logo Ricardo Agreste, mestre em Miss√Ķes Urbanas e pastor da Comunidade Presbiteriana Ch√°cara Primavera, em Campinas (SP). "E este √© o aspecto mais cr√≠tico e que precisa ser considerado com cuidado por todos que fazem uso dessas m√≠dias". Ativo no Facebook, Agreste observa que, neste verdadeiro big brother cotidiano, a √Ęnsia por ser notado e ouvido faz com que muitas pessoas se exponham demais. "O desejo de ser e fazer not√≠cia e saber acerca da intimidade alheia move milh√Ķes de usu√°rios das mais variadas faixas et√°rias, classes sociais e confiss√Ķes religiosas. No Facebook, qualquer indiv√≠duo pode deixar o anonimato, mostrando ao maior n√ļmero de pessoas o que faz, o que come, como se sente, o que veste e, na minoria das vezes, o que pensa".

Da√≠ para o exagero e o pecado √© um pulo, como adverte Augustus Nicodemus Lopes, ministro presbiteriano e professor de Teologia: "As mesmas pessoas que postam declara√ß√Ķes de f√© e amor a Jesus tamb√©m transmitem conte√ļdo com palavras chulas e palavr√Ķes do pior tipo ‚Äď at√© mesmo, fotos er√≥ticas", critica. Com mais de 3 mil amigos na sua rede social, mas acessado por muito mais gente que procura suas reflex√Ķes e artigos publicados, Nicodemus defende que essa vulgariza√ß√£o √© reflexo da superficialidade do Cristianismo brasileiro. "A pureza e a santidade requeridas na B√≠blia para os crist√£os abrangem n√£o somente seus atos como tamb√©m seus pensamentos e suas palavras."

"M√ĀS REFER√äNCIAS"

O professor Rafael Shoji, com p√≥s-doutorado em Ci√™ncias da Religi√£o, aponta especialmente os grupos neopentecostais como os que mais rapidamente t√™m se adaptado √†s redes. Pesquisador do Centro de Estudo de Religi√Ķes Alternativas (Ceral), entidade ligada √† Pontif√≠cia Universidade Cat√≥lica (PUC) de S√£o Paulo, ele frisa que o marketing tem migrado para a internet e existem v√°rias t√©cnicas de comunica√ß√£o espec√≠ficas desse meio, tanto do ponto de vista de produ√ß√£o da mensagem quanto do acompanhamento das rea√ß√Ķes, opini√Ķes e dos sentimentos provocados. "Qualquer um que queira ter um impacto social hoje tem de atuar tamb√©m no mundo digital", diz. O pastor Justin Vollmar √© um dos religiosos que tiveram impacto na vida de muitos crist√£os. Criador de uma p√°gina no Face intitulada Virtual Deaf Church ("Igreja virtual para surdos") e utilizando a linguagem de sinais, ele fazia prega√ß√Ķes, divulgava material de cunho teol√≥gico e ganhou enorme visibilidade. S√≥ que, recentemente, anunciou o fim de seu minist√©rio com uma justificativa bomb√°stica: tornou-se ateu. Em v√≠deo tamb√©m divulgado pela rede, Vollmar admite que n√£o cr√™ mais em Deus e que est√° abandonando tudo. "Minha mente mudou completamente para o outro lado", diz. "No final, eu estou completamente convencido de que n√£o h√° verdadeiramente nenhum Deus. √Č tudo bobagem".

"√Č preciso ter sinceridade de dizer que n√£o temos boas refer√™ncias produzidas pelos evang√©licos. Ent√£o, buscamos verificar as tend√™ncias das grandes marcas e ades√£o do p√ļblico, inclusive em √Ęmbito internacional, para assim incluir a Igreja em projetos que busquem sua relev√Ęncia no mundo, o que √© mais importante", defende o diretor de Comunica√ß√£o da Igreja Batista da √Āgua Branca, em S√£o Paulo, Thiago Crucitti. "√Č um erro ficar aderindo a todas as novidades que aparecem sem senso cr√≠tico". Um estudo publicado na revista Science confirma a tend√™ncia. Segundo os pesquisadores, um post que recebe aprova√ß√£o dos leitores tem muito mais chance de receber as chamadas curtidas de outras pessoas, independentemente do conte√ļdo. Mas h√° quem use a maior rede social do planeta para ganhar almas no mundo virtual e traz√™-las para a comunidade presencial. Uma das "manias" crist√£s dos √ļltimos tempos no Facebook √© a campanha intitulada Lan√ßai a Palavra. O desafio, lan√ßado no in√≠cio deste ano, tem feito milhares de internautas crist√£os ligarem a webcam e pegar a B√≠blia. "Em vez de ficar postando bobagens, os jovens est√£o compartilhando a Palavra de Deus", elogia o militar Phelippe da Silveira Knupp, crente batista de Campinas (SP). Entusiasmado com a proposta, Knupp faz pelo menos uma postagem por semana. Suas passagens favoritas s√£o extra√≠das dos evangelhos. "As pessoas ficam impressionadas quando leio alguma coisa sobre o serm√£o do monte ou os milagres que ele realizava". A iniciativa tem dado tantos resultados que Knupp j√° recebeu, em sua igreja, a visita, em carne e osso, de amigos virtuais que fez atrav√©s do Lan√ßai a Palavra. "Dois deles j√° manifestaram o desejo de seguir a Cristo", comemora.

Fonte: Cristianismo Hoje