FG News: Estudo mostra que jovens brasileiros recorrem a religião para explicar a origem da espécie humana

Postado em: 10-11-2015

Um estudo que comparou o nível de conhecimento científico de alunos no Brasil e na Itália traz um panorama revelador sobre problemas no ensino da teoria da evolução e seu impacto na formação dos jovens brasileiros. O levantamento sugere que a precária formação científica dos estudantes de ensino médio do país os leva a recorrer a sua bagagem cultural e religiosa para explicar a evolução dos seres vivos e a origem da espécie humana, algo que não se observa entre os italianos, que recebem uma educação científica mais sólida.

O estudo envolveu as equipes de N√©lio Bizzo, professor da Faculdade de Educa√ß√£o da Universidade de S√£o Paulo (FE-USP), e de Giuseppe Pelegrini, docente da Universidade de P√°dua, na It√°lia, e baseou-se na aplica√ß√£o de um question√°rio padronizado respondido por estudantes de 15 anos de idade dos dois pa√≠ses. No Brasil, 2.404 alunos de 78 col√©gios p√ļblicos e privados de todos os estados brasileiros participaram do levantamento, sorteados aleatoriamente a partir de um plano com rigor estat√≠stico, compondo uma amostra de representa√ß√£o nacional e regional. Os resultados foram publicados na tese de doutorado de Graciela da Silva Oliveira, professora da Universidade Federal do Mato Grosso, que foi defendida em agosto no programa de p√≥s-gradua√ß√£o da FE-USP sob orienta√ß√£o de Bizzo.

O estudo mostra que h√° uma diferen√ßa clara na postura dos estudantes dos dois pa√≠ses frente a conceitos da teoria da evolu√ß√£o. Na It√°lia, um pa√≠s de forte tradi√ß√£o cat√≥lica, concep√ß√Ķes de mundo cient√≠ficas e religiosas coexistem no repert√≥rio dos estudantes e s√≥ eventualmente entram em conflito, com alguns exemplos de alunos que rejeitam a abordagem cient√≠fica sobre a origem dos seres humanos e das esp√©cies. Eles, por√©m, exibem familiaridade com conhecimentos cient√≠ficos e, se os rejeitam, isso n√£o pode ser explicado por falta de entendimento.

J√° no Brasil, a realidade √© distinta. Falta √† maioria dos jovens dom√≠nio sobre os conceitos. Por isso, muitos alunos responderam que "n√£o sabem" quando foram indagados se eram falsas ou verdadeiras afirma√ß√Ķes como a exist√™ncia de parentesco entre o ser humano e os outros primatas. "Eles consideram v√°lidas percep√ß√Ķes de compreens√£o mais simples, como a de que os seres vivos mudam ao longo do tempo e que a evolu√ß√£o biol√≥gica acontece na natureza, mas se confundem com temas relacionados √† ancestralidade comum e √† origem humana", diz Graciela.

A principal explica√ß√£o para o desempenho distante dos dois pa√≠ses tem rela√ß√£o com a educa√ß√£o cient√≠fica. "Na It√°lia, as primeiras no√ß√Ķes sobre a teoria evolutiva s√£o mostradas aos alunos nas s√©ries iniciais do ensino fundamental e se sofisticam no conte√ļdo das aulas ao longo da trajet√≥ria escolar", afirma Bizzo. "Desde os 9 anos de idade as crian√ßas italianas estudam a origem do Homo sapiens, e isso tanto nas aulas de ci√™ncias como nas de hist√≥ria." No m√™s passado, o Minist√©rio da Educa√ß√£o lan√ßou uma proposta de Base Nacional Comum Curricular (BNC) para o ensino b√°sico do Brasil que ser√° discutida nos pr√≥ximos meses.

"Essa proposta inclui no curr√≠culo do 6¬ļ ano do ensino fundamental a hist√≥ria evolutiva das esp√©cies. √Č um avan√ßo. Falta no curr√≠culo brasileiro a hist√≥ria da vida na Terra. Se, por exemplo, a paleontologia estivesse presente no curr√≠culo de ci√™ncias, a dificuldade dos estudantes seria menor", afirma Bizzo, que coordena o N√ļcleo de Pesquisa em Educa√ß√£o, Divulga√ß√£o e Epistemologia da Evolu√ß√£o (Edevo-Darwin), vinculado √† Pr√≥-reitoria de Pesquisa da USP, dentro do qual o levantamento binacional foi feito.

O trabalho será complementado com estudos comparativos feitos com estudantes das ilhas Galápagos, no Pacífico, cuja observação inspirou Charles Darwin a formular a teoria da evolução. Os dados da equipe equatoriana farão parte de uma dissertação de mestrado, na Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (Flacso), e estão sendo analisados por Adrián Soria, sob orientação do professor Nicolás Cuvi. O processamento de dados, realizado na USP, revelou que a realidade dos jovens que vivem nas ilhas Galápagos, e que têm contato diário com a realidade que influenciou Darwin, está mais próxima daquela dos jovens brasileiros do que da dos italianos.

Para al√©m dos atritos entre o criacionismo, cren√ßa que atribui a cria√ß√£o dos seres vivos e da humanidade a um agente sobrenatural, e a teoria de Darwin, que prop√Ķe ancestralidade comum entre seres vivos e sua evolu√ß√£o por sele√ß√£o natural, existe uma dificuldade de compreens√£o de conceitos complexos que √© agravada pela forma√ß√£o escolar deficiente. "√Č comum que os alunos criem concep√ß√Ķes distorcidas. Muitos acham que as esp√©cies evolu√≠ram de forma r√°pida e que, de uma gera√ß√£o para outra, surgiram mudan√ßas significativas", comenta Marcelo Motokane, professor do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ci√™ncias e Letras da USP, especialista no ensino de biologia. "Tamb√©m t√™m dificuldade em compreender que as mudan√ßas acontecem em n√≠vel populacional e n√£o conseguem conceber escalas de tempo t√£o diferentes das que est√£o acostumados a lidar", explica.

Pergunta frequente

Vis√Ķes equivocadas sobre a evolu√ß√£o fazem parte do cotidiano do estudante de biologia Mois√©s Bezerra da Silva, de 28 anos, que trabalha como monitor da exposi√ß√£o permanente Do macaco ao homem, exibida no museu de ci√™ncias Catavento Cultural, em S√£o Paulo. Segundo Mois√©s, uma das perguntas mais frequentes feitas por estudantes que visitam o museu em caravanas e pelo p√ļblico de todas as idades que aparece nos fins de semana √©: se o homem vem do macaco, por que os macacos continuam a existir?

"Quando mostramos as réplicas dos fósseis dos ancestrais do Homo sapiens, como elas foram encontradas e a escala do tempo em que eles viveram, muitas pessoas ficam surpresas e fascinadas", diz Moisés, que sempre inicia a visita guiada de 50 minutos com um alerta. "Eu explico que a exposição é baseada no conhecimento científico sobre a origem das espécies e que o objetivo não é contestar a crença religiosa de ninguém. E, em tom de brincadeira, sugiro que me convidem para almoçar depois da apresentação se quiserem discutir fé e religião. Mas é comum que alguns argumentem que a evolução é uma farsa e que o homem é obra de Deus", afirma o monitor, que conhece bem os embates entre a ciência e a religião.

Criado numa fam√≠lia bastante religiosa, que sempre frequentou a igreja Assembleia de Deus, Mois√©s cresceu ouvindo as explica√ß√Ķes b√≠blicas para a origem do homem e s√≥ foi tomar contato com a teoria da evolu√ß√£o quando ingressou em um curso noturno de biologia de uma faculdade privada de S√£o Paulo, j√° que as escolas p√ļblicas de ensino fundamental e m√©dio que frequentou se eximiram de tratar do assunto. "O curso abriu novas perspectivas para mim", diz o estudante, que deve se formar no ano que vem. Para conduzir as visitas √† exposi√ß√£o, Mois√©s teve um treinamento com outros monitores e fez um curso de curta dura√ß√£o com o arque√≥logo e antrop√≥logo Walter Neves, idealizador da mostra.

Para o professor Marcelo Motokane, al√©m de refor√ßar o curr√≠culo √© preciso melhorar os cursos de licenciatura em ci√™ncias biol√≥gicas. "√Č comum que os professores n√£o entendam de forma adequada os conceitos da teoria da evolu√ß√£o. E, mesmo quando conhecem, muitos t√™m dificuldade em evitar que os alunos criem interpreta√ß√Ķes distorcidas", afirma. A pesquisa no ensino de ci√™ncias, segundo Motokane, tem apontado caminhos para enfrentar esses problemas, como o ensino por investiga√ß√£o, baseado no reconhecimento de um problema e a tentativa de solucion√°-lo utilizando o conhecimento cient√≠fico. "Mas ainda temos um ensino muito baseado na mera transmiss√£o de conceitos."

No c√īmputo geral, 17% dos estudantes brasileiros afirmaram que "gostariam de ser cientistas" e 29% se disseram interessados em "trabalhar com a ci√™ncia". Segundo Graciela, h√° ind√≠cios de que o interesse dos alunos √© maior em escolas mais comprometidas com as aulas de ci√™ncias. Estudos qualitativos ir√£o investigar o tema em mais profundidade.

Um agravante captado pela pesquisa √© que a busca de conhecimento sobre ci√™ncias fora dos espa√ßos escolares √© rara no Brasil. "H√° poucos programas de televis√£o sobre temas cient√≠ficos e mesmo o h√°bito de pesquisar esses temas na internet n√£o √© muito difundido", afirma Graciela. Segundo a pesquisadora, n√£o se observa nas respostas da maioria dos estudantes brasileiros uma perspectiva dogm√°tica, em que a religi√£o muda radicalmente a percep√ß√£o dos jovens. Mas eles buscam na cultura aquilo que a escola n√£o fornece. "A religi√£o n√£o √© a √ļnica fonte de resist√™ncia. H√° fatores culturais e tamb√©m sociais, como a escolaridade das fam√≠lias, que influenciam a vis√£o de mundo dos estudantes", diz ela.

A ideia de que a religi√£o n√£o exerce influ√™ncia de forma isolada √© conhecida em outros estudos, mas o levantamento teve o m√©rito de mape√°-la dentro da realidade educacional brasileira. O n√≠vel socioecon√īmico e o acesso √† informa√ß√£o dentro de casa parecem ter alguma relev√Ęncia. Um exemplo: diante da afirma√ß√£o de que "os f√≥sseis s√£o evid√™ncias de seres vivos que viveram no passado", os estudantes que declararam ter mais livros em casa responderam "verdadeiro" com maior frequ√™ncia. Entre os que possuem uma biblioteca em casa com mais de 250 livros, o percentual chegou a 93,9%. Entre os que t√™m entre 10 e 250 livros, o √≠ndice oscilou entre 82% e 84%. J√° entre os que n√£o possuem nenhum livro foi de 71,6%, chegando a 79% entre os que t√™m entre 1 e 10 livros.

Formação do planeta

Da mesma forma, a escolaridade dos pais parece contribuir de alguma forma para o desempenho dos alunos. No item "A forma√ß√£o do planeta Terra se deu h√° cerca de 4,5 bilh√Ķes de anos", a distribui√ß√£o das respostas para a op√ß√£o "verdadeiro" variou de acordo com o n√≠vel de instru√ß√£o da m√£e. Se a m√£e n√£o tinha nenhuma escolariza√ß√£o, o √≠ndice foi de 34,6%; se tinha o ensino fundamental, 42,7%; ensino m√©dio, 47,9%; ensino superior, 53%. Em rela√ß√£o √† origem de plantas e animais a partir de esp√©cies presentes no passado, o √≠ndice de resposta "verdadeiro" foi de 54,6% para jovens cuja m√£e n√£o tinha escolariza√ß√£o e de 73,9% quando as m√£es tinham diploma universit√°rio.

E h√°, tamb√©m, a influ√™ncia da religi√£o, mas o tipo de credo faz bastante diferen√ßa. Na afirma√ß√£o "A esp√©cie humana descende de outra esp√©cie primata", os jovens cat√≥licos assinalaram com maior frequ√™ncia a op√ß√£o "verdadeiro" (47,6%). Significa que pouco menos da metade dos jovens que se declararam cat√≥licos rejeitam o criacionismo. Eles s√£o seguidos pelos sem religi√£o (47,4%) e os de outras religi√Ķes (35,5%). Quem mais rejeitou a afirma√ß√£o foram os evang√©licos pentecostais e os evang√©licos tradicionais (31,5% e 25,4% de op√ß√£o "verdadeiro", respectivamente), que tamb√©m apresentaram a maior frequ√™ncia na op√ß√£o "falso", com 48,1%.

"Os resultados indicam que, entre alguns jovens que n√£o reconhecem a mudan√ßa dos seres vivos ao longo do tempo, percebe-se com maior intensidade a religi√£o como um importante componente na sua vis√£o de mundo", diz Graciela. Para N√©lio Bizzo, ensino de ci√™ncias de qualidade ajudaria a evitar que esse contingente se amplie. "√Č preciso ficar alerta. H√° projetos de lei em tramita√ß√£o no Congresso que prop√Ķem tratar do criacionismo como conte√ļdo v√°lido nas aulas de ci√™ncias. Um dos objetivos do nosso n√ļcleo de pesquisa, que foi criado em 2012, era criar uma refer√™ncia cient√≠fica para discutir propostas desse tipo", diz.

Fonte: Revista Pesquisa Fapesp via UOL