Ci√™ncia & Sa√ļde: Aids chega aos 35 anos envolta em preconceito

Postado em: 05-12-2016 Imagem redimensionada

Quando descobriu estar infectado pelo v√≠rus da Aids, o educador Jos√© Ara√ļjo Lima, de 57 anos, n√£o temeu a morte, mas, sim, ver as pessoas que amava se afastarem. S√≥ abriu o diagn√≥stico para o primo, com quem dividia um quarto. A partir de ent√£o, o parente n√£o aceitou dormir no mesmo c√īmodo que ele. O resultado positivo para o exame de HIV tamb√©m fez o professor Bruno, de 23 anos, sentir-se exclu√≠do. Os amigos se afastaram e ele foi demitido do emprego quando o chefe descobriu a doen√ßa.

Lima se infectou em 1985. Bruno, em 2014. O tratamento disponível para a doença passou por uma revolução durante as quase três décadas que separam as duas histórias. O preconceito, no entanto, continua quase o mesmo.

"Naquela época, quem descobria ser soropositivo vivia na sombra. O preconceito era tão violento que você preferia a morte do que ter de lidar com ele. O tratamento evoluiu, mas a pessoa que descobre hoje o vírus tem os mesmos medos e as mesmas dores que eu carreguei em 1985. A principal delas é o terror do preconceito", conta Lima, hoje integrante do Movimento Paulistano de Luta contra a Aids (Mopaids).

Também com medo da discriminação, Bruno enfrentou todos os efeitos colaterais dos medicamentos antirretrovirais sozinho, sem a ajuda de parentes nem de amigos, que se afastaram. "Um dia fui a uma festa e percebi que algumas pessoas se afastavam, não conversavam direito. Um deles se aproximou e perguntou se era verdade o que estavam comentando. Até hoje, ninguém fala mais comigo", conta ele, que encontrou apoio em uma entidade que dá auxílio a jovens soropositivos, a Fundação Poder Jovem.

A maior dificuldade deles é lidar com a segregação. Reunimos jovens com e sem o vírus para participarem juntos dos projetos. Eles fazem palestras em escolas e acolhimento a adolescentes que acabaram de descobrir o diagnóstico ou que estão internados", conta Sandra Conceição dos Santos, de 48 anos, presidente da fundação.

√Č participando das atividades da entidade que Caliane Ara√ļjo da Silva, de 21 anos, tem tentado superar os traumas deixados pelo preconceito. Infectada pela m√£e durante o nascimento, ela √© uma das jovens que faz palestras e acolhimento. Cinco anos atr√°s, ela abandonou a escola justamente por sofrer bullying por causa da sua condi√ß√£o. "Quando vou para o acolhimento, temos uma troca de energia muito boa. Como eu j√° passei pelo que o jovem passa, tento mostrar que estamos juntos, que √© poss√≠vel conviver com isso de cabe√ßa erguida."

"S√≥ tem uma alternativa ao preconceito: a informa√ß√£o. A falta dela abre espa√ßo para qualquer pensamento e dificulta as a√ß√Ķes de preven√ß√£o", diz Luiz Carlos Pereira Junior, diretor do Instituto de Infectologia Em√≠lio Ribas. As informa√ß√Ķes s√£o do jornal "O Estado de S. Paulo".

Fonte: UOL