Tecnologia: Rosie não vai limpar sua casa tão cedo, dizem especialistas em robótica

Postado em: 09-01-2017 Imagem redimensionada

Afinal, cad√™ a rob√ī Rosie que nos foi prometida como algo do futuro no desenho animado "Os Jetsons", sucesso dos anos 60? Para quem n√£o sabe, Rosie √© uma empregada dom√©stica que limpa, cozinha e faz tarefas do lar, al√©m de ser educada e prestativa.

Décadas depois, o futuro parece ter chegado em muitas áreas, mas nada de a Rosie aparecer --nem mesmo na maior feira de tecnologia do mundo, a CES (Consumer Electronics Show), que aconteceu nesta semana em Las Vegas (EUA).

O que falta para termos um rob√ī assim?

Basicamente, falta a inteligência artificial chegar perto do nível de aprendizado do nosso cérebro.

Ainda que empresas do porte de Google, Apple, Amazon e Microsoft estejam investindo bastante nesse campo, tornando seus assistentes pessoais (Google Assistant, Siri, Alexa e Cortana, respectivamente) cada vez mais eficientes, ainda falta um bocado para chegarmos em Rosie.

As chances de a Siri ganhar um corpo aumentaram depois que a Apple anunciou, na semana passada, um investimento de US$ 1 bilh√£o na empresa japonesa de tecnologia SoftBank, especializada em rob√īs dom√©sticos humanoides, mesmo assim o rob√ī dom√©stico definitivo ainda √© um sonho.

Para ser eficiente no lar, a m√°quina precisa interagir com humanos, mapear ambientes, saber onde est√° e para onde vai, reconhecer fala e visual. Al√©m disso, precisa ser confi√°vel e pensar como humanos. Ou seja, rob√īs humanoides s√£o caros e complexos, por isso, por enquanto, √© mais eficiente e barato montar uma casa inteligente.

At√© quem est√° √† frente no mercado de rob√≥tica admite que o caminho para se fazer aut√īnomos que funcionem bem e de forma segura √© duro:

"N√£o, ainda n√£o temos uma Rosie e estamos longe disso", afirmou Chris Matthews, vice-presidente de marketing da Mayfield, dona do rob√ī Kuri.

"Mesmo quando voc√™ faz rob√īs para coisas simples, √© bem complicado de lev√°-lo a fazer isso com confian√ßa", diz o executivo.
Um exemplo dessa limita√ß√£o aparece quando usamos os assistentes de voz que j√° est√£o no mercado. N√£o s√£o raras as vezes que eles n√£o entendem algo que voc√™ quis dizer ou interpretam errado um comando. N√£o basta dizer: "coloque os itens da receita na lista de compras". O assistente provavelmente colocar√° "itens da receita" na lista de compras, em vez de ovo, farinha, etc... Imagine se um rob√ī-bab√° comete algum erro.

Para Matthews, hoje o que faz um rob√ī se diferenciar do outro √© a personalidade e a capacidade de engajamento que desperta. Foi pensando nisso que a empresa criou o Kuri e caprichou na fofura --seu designer, Doug Dooley, foi animador da Pixar por 13 anos, ent√£o n√£o √© coincid√™ncia que o robo pare√ßa o Wall-E.

O novo rob√ī foi o que mais chamou a aten√ß√£o de quem passou pela CES 2017. Ele tem olhos que expressam rea√ß√Ķes e √© capaz de realizar m√ļltiplas tarefas, especialmente aquelas que usam IFTTT, um dos padr√Ķes usados para deixar os aparelhos da casa inteligentes.

Menos carism√°tico, o rob√ī da LG, o Hub Robot, usa o assistente de voz da Amazon, o Alexa, por isso tamb√©m responde √† voz humana facilmente e executa tarefas do cotidiano, como tocar m√ļsica, controlar aparelhos da casa e dar informa√ß√Ķes como clima e tr√Ęnsito.

O que nenhum deles faz é arrasar nas tarefas braçais e intelectuais que você não quer mais fazer, tudo de uma vez.

Caro e limitado

Falta tecnologia e custo, explica Marco Antonio Meggiolaro, do departamento de Engenharia Mec√Ęnica da PUC-Rio. "A comunica√ß√£o [do rob√ī] com seres humanos tem se desenvolvido rapidamente, e a capacidade de se locomover e se localizar em ambientes novos tamb√©m. Mas ainda faltam habilidades motoras para desempenhar tarefas dom√©sticas", afirma.

"Várias destas tecnologias já estão disponíveis, porém juntar todas elas e a um baixo custo ainda é um desafio", concorda Fernando Osório, professor de robótica da USP São Carlos.

Segundo John Ostrem, cofundador da Avatarmind, empresa que faz rob√īs sociais como o iPal, que ajudam os pais a cuidarem de seus filhos √† dist√Ęncia, a intelig√™ncia artificial ainda n√£o superou barreiras importantes.

"√Č muito dif√≠cil para um rob√ī fazer erraticamente tarefas da vida cotidiana", disse ele ao UOL. "Atualmente estamos no est√°gio de criar rob√īs com tarefas bem espec√≠ficas e estruturais, como rob√īs informando aos consumidores sobre os produtos √† venda. De forma geral, criar instru√ß√Ķes para essas aplica√ß√Ķes ainda √© muito dif√≠cil para a intelig√™ncia artificial de agora."

Apesar da cara fofa, os olhos do iPal, por exemplo, s√£o c√Ęmeras integradas a um app de celular.

Ent√£o, por enquanto, dever√≠amos nos preocupar menos em ter a nossa pr√≥pria Rosie e mais em saber que tipos de rob√īs (sim, no plural) queremos nas nossas vidas. E, talvez, esquecer essa hist√≥ria de que rob√īs necessariamente precisam ser um corpo humano.

"Geralmente as pessoas assumem que devemos sempre fazer rob√īs cada vez mais humanos. A maioria n√£o tem certeza do por que, mas entende que os rob√īs n√£o costumam ser muito atraentes para interagir. Por padr√£o pensam que rob√īs devem ser mais como n√≥s. Isso √© compreens√≠vel, mas n√£o √© verdade", afirma Doug Dooley.

Fonte: M√°rcio Padr√£o Do UOL, em Las Vegas (EUA)
* O jornalista viajou a convite da Qualcomm