FG News: Papa Francisco está sofrendo oposição dos conservadores da Igreja Católica

Postado em: 27-03-2017 Imagem redimensionada

Ele é amado por muitos, mas não por todos - principalmente os conservadores.

A oposição ao papa Francisco se faz cada vez mais presente e visível. Há quem minimize esse movimento, mas outros acreditam que o papa possa estar no centro de uma trama política sofisticada com objetivo de enfraquecê-lo.

O episódio mais recente - e talvez o mais teatral - se deu no mês passado, quando bairros próximos ao Vaticano amanheceram tomados por cartazes apócrifos com críticas ao pontífice. Um jornal falso que zombava do pontífice também foi enviado a cardeais da cidade.

Os cartazes traziam uma foto do papa com expressão fechada, e textos com referências a problemas que Francisco teve com setores mais conservadores da Igreja Católica.

"Francisco, voc√™ destituiu os chefes das congrega√ß√Ķes, removeu sacerdotes, decapitou a Ordem de Malta e a dos Franciscanos da Imaculada, ignorou cardeais. Onde est√° sua miseric√≥rdia?", dizia o texto, coberto horas depois pela Prefeitura de Roma com a inscri√ß√£o "publicidade ilegal".

Na mesma √©poca, cardeais de Roma receberam uma vers√£o falsa do jornal do Vaticano, o L'Osservatore Romano. Na capa, em um ataque ir√īnico ao pont√≠fice, havia uma lista de perguntas ao papa feitas por cardeais conservadores em que a resposta era sempre sic et non (sim e n√£o).

Eleito em mar√ßo de 2013 ap√≥s esc√Ęndalos que abalaram a imagem do Vaticano, o papa tomou medidas e fez declara√ß√Ķes de impacto que polarizam opini√Ķes dentro e fora do mundo cat√≥lico.

Reestruturou, por exemplo, as confusas finan√ßas do Vaticano, criou comiss√£o para combater abuso sexual de crian√ßas na Igreja, fez duras cr√≠ticas ao capitalismo e ajudou a reaproximar Cuba e EUA. Tamb√©m chama a aten√ß√£o sua defesa de uma Igreja mais tolerante em quest√Ķes de fam√≠lia - j√° pediu a sacerdotes que n√£o tratem divorciados como excomungados e procurem acolher cat√≥licos homossexuais.

Para seus detratores, porém, ele age de forma autoritária e centralizadora.

"O Papa √© o vig√°rio de Cristo na Terra, mas n√£o √© Cristo. Pode errar, pecar e at√© ser corrigido. N√£o concordo com seu modo de governar. A Igreja est√° hoje imersa em confus√£o e desorienta√ß√£o: os fieis precisam de certezas, mas n√£o conseguem encontr√°-las. Corremos o risco de uma cis√£o", diz Roberto De Mattei, presidente da Funda√ß√£o Lepanto, que faz campanha pela "defesa dos princ√≠pios e institui√ß√Ķes da civiliza√ß√£o crist√£".

De Mattei e sua fundação sempre foram duros com o papa argentino, e chegaram a ser apontados como suspeitos de estar por trás da ideia dos cartazes - os responsáveis não foram identificados.

"Não sei quem são os autores (dos cartazes), mas não fomos nós. Em Roma você percebe um clima de medo, típico de regimes totalitários. Estamos diante de uma monarquia absoluta que usa a colaboração de cardeais e bispos, mas lhes dá pouca autonomia. O papa ama nomear comissários especiais para muitos assuntos, assim, ao final, ele sempre pode decidir", disse De Mattei à BBC Brasil.

Tipos de oposição

Para o historiador Massimo Faggioli, professor de Teologia na Villanova University (EUA), é possível identificar três tipos de oposição ao papa Francisco: teológica, institucional e política.

"A teol√≥gica parte de alguns setores na Igreja que acham que o papa √© muito moderno em quest√Ķes como casamento e fam√≠lia. √Č uma oposi√ß√£o pequena, que age de forma respeitosa", diz o professor.

Entre esse setor est√£o quatro cardeais ultraconservadores que em setembro de 2016 pediram, em carta p√ļblica, que o papa corrija "erros doutrin√°rios" da enc√≠clica Amoris Laetitia (Alegria do Amor), um guia para a vida em fam√≠lia que prega a aceita√ß√£o, pela Igreja, de certas realidades da sociedade contempor√Ęnea.

Na oposição institucional, afirma Faggiolo, há pessoas que querem manter o status quo. "Alguns cardeais têm medo de perder privilégios ou da mudança de mecanismos para a nomeação dos bispos", diz.

O historiador v√™ a oposi√ß√£o pol√≠tica como a mais forte. "O papa fala sobre vivermos juntos, de construir pontes em vez de muros. S√£o quest√Ķes 'inconvenientes' para a pol√≠tica global da atualidade, pois contrastam com ideias da direita francesa, italiana e americana. S√£o tidas como uma amea√ßa. O papa pode lidar com as duas primeiras oposi√ß√Ķes, mas a pol√≠tica √© a mais dif√≠cil", afirma.

A reação contra o papa não se concentra apenas na Itália e na Europa. Autor do livro "Os inimigos de Francisco" (com lançamento previsto no Brasil para o segundo semestre), o jornalista italiano Nello Scavo diz que há grupos nos EUA que trabalham pelo enfraquecimento da liderança de Jorge Bergoglio, o nome de batismo do papa.

"H√° grupos financeiros, fabricantes de armas e multinacionais que querem que o papa perca poder. Sua ret√≥rica √© muito anti-establishment. Ele afirmou que a nossa economia mata, condenou o capitalismo e se fez escutar em quest√Ķes ecol√≥gicas", diz Scavo, citando cr√≠ticas √† Francisco feitas pelo centro de estudos conservador American Enterprise Institute (AEI).

O AEI conta em seus quadros com vários ex-integrantes do governo George W. Bush (2001-2008), entre eles o ex-vice-presidente Dick Cheney. "Cheney faz parte do AEI, foi membro do conselho da Lockheed Martin, principal fabricante de sistemas de defesa no mundo, e a AEI tem a Halliburton entre seus principais financiadores", afirma o jornaista, citando a multinacional de serviços para exploração de petróleo.

Jornalista da emissora católica canadense Salt and Light, Matteo Ciofi diz que a oposição teológica é, de fato, a que menos deve preocupar o papa. "Não é possível que um cardeal africano e um europeu possam ter a mesma visão sobre a família. Faz parte das diferenças culturais, é normal que haja críticas. O problema, dentro da Igreja, se concentra naqueles que não querem perder privilégios", diz.

Papa e política

Um dos cardeais que assinaram a carta p√ļblica contra a enc√≠clica Amoris Laetitia, o americano Raymond Leo Burke teve reuni√£o recente com Matteo Salvini, l√≠der do partido de extrema-direita italiano Liga do Norte.

Com discurso anti-imigração, Salvini fez duras críticas ao papa quando o pontífice visitou um campo de refugiados na ilha grega de Lesbos, em abril de 2016.

"Com todo o respeito, o papa está errado. Parece-me que a catástrofe ocorre na Itália, não na Grécia. Ele quer convidar outros milhares de imigrantes para a Itália? Uma coisa é acomodar os poucos que escaparam da guerra, outra é incentivar e financiar uma invasão sem precedentes. Tem pobres na Grécia, mas também a dois minutos do Vaticano", afirmou o político, que já foi fotografado usando camiseta com a frase "Meu papa é Bento", referência ao antecessor de Bergoglio.

Para Roberto De Mattei, da Funda√ß√£o Lepanto, n√£o √© a direita que se op√Ķe ao papa, mas √© a esquerda que quer torn√°-lo um s√≠mbolo. "Os movimentos de esquerda querem fazer dele um anti-(Donald)Trump porque n√£o disp√Ķem de outras pessoas carism√°ticas."

Fonte: BBC Brasil via UOL