Ci√™ncia & Sa√ļde: Ap√≥s batalha judicial, m√©dicos brit√Ęnicos s√£o autorizados a desligar aparelhos de beb√™ com doen√ßa incur√°vel

Postado em: 13-04-2017

A Justi√ßa brit√Ęnica autorizou, nesta ter√ßa-feira, os m√©dicos de um hospital de Londres a desligarem os aparelhos que mantinham o beb√™ rec√©m-nascido Charlie Gard vivo desde outubro do ano passado.

Em uma decisão que gerou polêmica no país - e que desagradou muito aos pais do garoto -, a corte do Reino Unido considerou a alegação do hospital Great Ormond Street de que Charlie tem um "dano irreversível no cérebro" e permitiu que os médicos responsáveis suspendessem o tratamento que o mantinha vivo desde que nasceu.

De acordo com um porta-voz do hospital, o bebê tem uma doença rara, complexa e incurável.

"Charlie estava muito mal quando foi internado no nosso hospital, onde vem recebendo cuidados 24 horas por dia na nossa unidade de terapia intensiva. Mas as condi√ß√Ķes dele continuaram piorando e agora acreditamos que j√° exaurimos todos os tratamentos dispon√≠veis", afirmou.

"Não podemos imaginar o quão angustiante é isso para a família. Continuamos a apoiá-los de todas as maneiras, enquanto defendemos o que acreditamos ser o melhor para Charlie."
Na decisão, o juiz Francis afirmou que julgou o caso com "um aperto enorme no peito", mas também com "plena convicção" que era o melhor a fazer pelo bem da criança. Ele também ressaltou o esforço dos pais do bebê por terem feito "uma bela campanha" para arrecadar fundos para o tratamento dele e por sua "total dedicação ao menino desde o dia em que ele nasceu".

Os pais de Charlie, porém, ficaram arrasados com a notícia. Quando a decisão foi anunciada na Corte, Chris Gard, pai do menino, não se conteve e gritou: "Não". Logo em seguida, ele e a esposa, Connie Yates, caíram em lágrimas.

Caso

Charlie, filho de Connie Yates e Chris Gard, nasceu saudável em agosto de 2016, mas começou a perder peso e força com seis semanas de vida. A condição piorou rapidamente e ele foi internado em outubro no Hospital Great Ormond Street, em Londres, depois de desenvolver pneumonia por aspiração.

O bebê foi diagnosticado com miopatia mitocondrial - uma doença que causa perda progressiva de força muscular.

Desde a internação, ele vinha recebendo tratamento 24 horas e, como a doença não tem cura, o hospital acredita que Charlie deveria ter o direito de morrer com dignidade.

A advogada de defesa do casal, Laura Hobey-Hamsher, afirmou que os pais n√£o conseguiram entender por que o juiz n√£o deu ao Charlie "pelo menos a chance do tratamento".

Ela disse ainda que eles vão refletir sobre o passo que darão a seguir - o casal ainda pode apelar da decisão -, mas que a prioridade agora é "passar o maior tempo possível com Charlie".

Os pais do bebê, que moram em Londres, querem levá-lo para os Estados Unidos, onde acreditavam que ele poderia ter uma chance de sobreviver se recebesse tratamentos pioneiros.

Segundo Kate Gollop, advogada que representa os m√©dicos do Hospital Great Osmond, os especialistas brit√Ęnicos j√° consideraram o tipo de tratamento que est√° dispon√≠vel nos EUA, mas decidiram n√£o aplic√°-lo no beb√™.

A m√£e lan√ßou uma campanha chamada #CharliesFight (#ALutadeCharlie), que arrecadou mais de 80 mil libras (R$ 320 mil) do total de 1 milh√£o de libras (R$ 4,6 milh√Ķes) que os pais acreditam ser necess√°rio para que o beb√™ receba o tratamento nos Estados Unidos.

Na primeira audiência do caso, o juiz responsável chegou a dizer que os pais de Charlie são "profundamente dedicados a ele".

"√Č uma situa√ß√£o tr√°gica", afirmou.

Decis√£o

Durante cinco dias de an√°lise das provas, o juiz Francis ouviu argumentos opostos sobre o que deveria acontecer a Charlie.

Debra Powell, representante dos chefes de hospitais, disse ao tribunal que vários especialistas de renome internacional concordaram que a criança não deveria seguir com o apoio dos aparelhos por muito tempo, porque sua "qualidade de vida já é muito precária".

A advogada Victoria Butler-Cole, que foi nomeada para representar o bebê de oito meses de idade, disse que o tratamento proposto nos Estados Unidos era "puramente experimental" e que continuar seu tratamento com aparelhos só "prolongaria o processo de morte" pelo qual ele estava passando.

Mas a advogada dos pais, Sophia Roper, argumentou que Charlie n√£o sofreria danos significativos se fosse levado para os Estados Unidos e que ele deveria ao menos ter uma chance de melhorar.

Ela também alegou que os desejos de seus pais deveriam ter "grande peso" na decisão.

Fonte: BBC Brasil via UOL