FG News: Pastores criam previd√™ncia privada para conquistar p√ļblico evang√©lico

Postado em: 18-06-2017

"Evangélicos são fiéis aos seus comandos. Não possuem vícios que os obrigam a consumir supérfluos como cigarros, bebidas e drogas. Esforçam-se para manter seus nomes em situação confortável nos cadastrados financeiros."

Ah, sim: e j√° s√£o 30% do pa√≠s,o que d√° mais de 60 milh√Ķes de brasileiros. N√£o d√° para ignorar um mercado fiel com esse.

Imagem redimensionadaO trocadilho √© por conta da casa ‚ÄĒnesse caso, o Ibemp (Instituto Brasileiro Evang√©lico de Mem√≥ria Pastoral), criado por Lemim Lemos, 74, para gerir o BemPrev, um fundo de pens√£o voltado a crist√£os.

Pastor da Igreja Batista, ele anuncia seu plano a outros líderes religiosos num prédio comercial do Rio, na segunda-feira (12): "Nossa intenção é virar o maior fundo de previdência privada do Brasil". Ouve-se um "amém!" na sala.

Vice-presidente do Ibemp e tamb√©m pastor, Fl√°vio Lima, 72, detalha a meta: "A previs√£o no primeiro semestre √© alcan√ßarmos 150 mil afiliados. A ideia √© ter, em dois anos, mais de um milh√£o". Hoje s√£o 13 milh√Ķes de brasileiros com alguma previd√™ncia complementar, segundo a Federa√ß√£o Nacional de Previd√™ncia Privada e Vida.

O BemPrev é um sonho antigo. E já naufragou ao menos duas vezes. Começou nos anos 1950, quando evangélicos não chegavam a 4% da população.

Está na pré-história do Ibemp: um líder batista se juntou a acionistas para comprar um banco e colocar parte da receita de sua igreja em fundo próprio. Mas a instituição pediu concordata, e o projeto foi a pique junto.

Em 2013, nova tentativa. J√° formado, o Instituto de Mem√≥ria Pastoral anunciou com alarde o BemPrev. Previa patrim√īnio de R$ 1 bilh√£o a ser aglutinado em meio ano.

Mais uma postergação, dessa vez por "dificuldades de natureza técnica", diz Lemos. A ideia inicial era ser um fundo fechado (comum a estatais, como Correios e Petrobras), sob fiscalização da Previc (Superintendência Nacional de Previdência Complementar).

O projeto, agora, está com a Susep (Superintendência de Seguros Privados), que gere previdências abertas a qualquer pessoa física ou jurídica.

Qualquer um mesmo, frisa o pastor, citando uma passagem b√≠blica ("o que vem a mim de maneira nenhuma o lan√ßarei fora"). At√© a Igreja Cat√≥lica aparece listada como potencial cliente no site do Ibemp, entre gigantes evang√©licas como Universal do Reino de Deus e Deus √Č Amor.

Ele diz que o presidente de uma associação espírita lhe sondou para saber se sua religião era bem-vinda no fundo. Respondeu que sim. "Mas disse que [o cliente espírita] receberia nossas matérias, que transmitem sempre uma convicção." O Ibemp distribuirá um jornal evangelizador a seus associados, e "um delta" das receitas será destinado a um fundo de amparo a pastores idosos, afirma Lemos.

O BemPrev não ter dado certo antes pode ter sido uma bênção, diz. "Achamos que o timing era exatamente esse."

Evang√©licos, afinal, s√£o mais jovens do que o padr√£o, com idade m√©dia de 37 anos, ante 40 dos brasileiros, segundo pesquisa Datafolha. E se tem algo que virou dor de cabe√ßa nacional, especialmente nos √ļltimos meses, √© a aposentadoria. A incerteza sobre a reforma previdenci√°ria deixou muitos fi√©is ressabiados, afirma o pastor.

A contribuição mensal mínima será de R$ 50, com "taxas de administração mais competitivas" do que as cobradas no meio, diz Gabriel Escabin, da Globus Seguros.

Com XP Investimentos e Azul Linhas Aéreas na clientela, a corretora comercializará os produtos previdenciários do Ibemp, que serão geridos pela Mapfre e por outras seguradoras.

O BemPrev pode ser a mais ambiciosa, mas n√£o √© a √ļnica iniciativa na √°rea. A Igreja de Confiss√£o Luterana no Brasil, por exemplo, patrocinou 24 anos atr√°s a privada Luterprev.

Lemos aponta um diferencial (e uma exigência): além da pensão, o Ibemp cobrará do beneficiário R$ 25 por mês, por um "cartão de vantagens" que dará descontos numa rede de lojas.

Parcerias fechadas por ora: 10 mil farmácias, uma ótica em Vitória (ES) e a empresa People Like, um "business shopping" que oferece linha própria de cosméticos, calçados, moda íntima e outros produtos.

O objetivo, afirma o líder religioso, é fornecer uma benesse "tão grande que a pessoa possa suportar a previdência".

"Uma pessoa da classe D que ganhe R$ 1.000, por exemplo, gasta todo o salário. Nosso cartão terá parcerias para atender 40% dessas despesas, com média de 15% em descontos. Se usá-lo, vai economizar R$ 60."

Lemos evoca a fábula da formiga que, a despeito da cigarra fanfarrona, poupa para o inverno ("a velhice da vida"). Conta que se interessou pelo tema por não conseguir equacionar a "alquimia inexplicável" que é a previdência no Brasil. "Meu pai contribuiu a vida toda com cinco salários mínimos, aposentou-se com três e deixou um para minha mãe, ao morrer."

Na segunda-feira (12), Dia dos Namorados, o site do Ibemp exibia um coração vermelho onde propunha "um relacionamento sério e duradouro".

Fonte: Folha de S√£o Paulo