FG News: Crist√£os do Iraque, expulsos pelo Estado Isl√Ęmico, ainda temem voltar aos seus povoados

Postado em: 17-07-2017 Imagem redimensionada

"As pessoas t√™m medo de voltar". Assim, de forma direta, diz Zabeb Nuri, sentado em sua nov√≠ssima loja de ferramentas no centro de Qaraqosh, a cerca de quinze de quil√īmetros ao sudeste de Mosul. Quando o Ex√©rcito lan√ßou uma ofensiva contra o Estado Isl√Ęmico, no √ļltimo m√™s de outubro, Qaraqosh foi um dos primeiros locais liberados. No entanto, diferentemente de outras zonas recuperadas posteriormente e que j√° fervem com atividade, as ruas da maior cidade crist√£ do Iraque continuam quase desertas. Seus habitantes, como outras minorias, desconfiam.

A destrui√ß√£o n√£o √© total em Qaraqosh. A maioria das casas permanece em p√©, mas foram saqueadas, e muitas, queimadas. Embora os n√ļmeros sejam incertos, estima-se que 50.000 pessoas viviam na cidade antes da chegada do Estado Isl√Ęmico. Sua popula√ß√£o original era ass√≠ria, 70% dela seguidora da igreja cat√≥lica s√≠ria, e o resto da ortodoxa. A eles, somaram-se na √ļltima d√©cada refugiados caldeus cat√≥licos e da igreja ass√≠ria do Oriente por causa da viol√™ncia sect√°ria. Apenas algumas fam√≠lias eram mu√ßulmanas.

"No total, retornaram aproximadamente 150 pessoas", estima Nuri, diante da anu√™ncia de um par de vizinhos em busca de material para reformar suas casas. Ele tem um dos poucos neg√≥cios que foram abertos depois da liberta√ß√£o. "Meu objetivo √© ajudar as pessoas a voltar", explica este homem de 52 anos que, antes da ocupa√ß√£o, trabalhava com instala√ß√Ķes sanit√°rias. Mas ele pr√≥prio, como seus clientes, retorna todas as tardes a Erbil, a vizinha capital do Curdist√£o para a qual fugiram todos os habitantes de Qaraqosh (o nome turco popularizado fora do Iraque, mas que eles chamam de Baghdeda), depois da chegada dos barbudos.

Em Erbil, permanecem as famílias, e as crianças vão ao colégio. Todos louvam a proteção que recebem do governo regional do Curdistão, que se mostrou muito mais generoso com os desalojados cristãos e de outras minorias do que com os muçulmanos (apesar de os curdos serem majoritariamente muçulmanos). "Aqui, não estamos seguros", afirma um dos clientes da loja de ferramentas que prefere não dar o seu nome.

Qais Luis discorda. "H√° seguran√ßa. Desde que expulsamos o Estado Isl√Ęmico, est√° tudo tranquilo", afirma, embora tamb√©m durma em Erbil porque sua casa foi uma das destru√≠das (como mostra no celular) e est√° esperando ajuda oficial para reergu√™-la. Este eletricista uniu-se √†s Unidades de Prote√ß√£o da Plan√≠cie de N√≠nive (uma mil√≠cia ass√≠ria formada para fazer frente ao Estado Isl√Ęmico) e entrou com as tropas governamentais na cidade. Agora, convertido em vigilante, monta guarda diante da igreja de Mar Gorgis (S√£o Jorge).

O estado em que ficou esse templo, que nem √© o mais antigo, nem o mais distinto de Qaraqosh, explica sozinho os medos da popula√ß√£o. O campan√°rio derrubado, a cruz de ferro no ch√£o, o santu√°rio violado, o altar e os bancos onde se ajoelhavam os fi√©is destru√≠dos pelo fogo... Agora, apenas algumas cadeiras de pl√°stico permitem um momento de lembran√ßa entre os escombros. O resto das igrejas, inclusive a de Sarkis e Bakhos, cujas funda√ß√Ķes datam do s√©culo VII, tamb√©m foram objeto da depreda√ß√£o dos jihadistas. Algumas serviram como f√°bricas de explosivos.

"Sim, temos seguran√ßa nacional, mas precisamos de garantias internacionais", insiste Nuri. Pai de quatro filhas, a mais velha rec√©m-formada na universidade de Erbil, aos 25 anos, e a mais nova, com quatro anos, ele se preocupa com o futuro delas. "Com a expuls√£o do Estado Isl√Ęmico, n√£o se resolveu o problema porque embora os combatentes tenham sido expulsos, suas ideias continuam presentes", sublinha. "√Č uma quest√£o de cultura, de aceitar o outro, mesmo que ele seja diferente. A mudan√ßa vir√° pouco a pouco".

Seu vizinho e cliente tem d√ļvidas. Para ele, a raiz est√° no que "os √°rabes ensinam a seus filhos sobre vingan√ßa e amor √†s armas". Por "√°rabes" ele quer dizer mu√ßulmanos sunitas, mas todos evitam ser expl√≠citos. Ao mencion√°-los, eleva-se a tens√£o.

"Durante anos, vivemos com os muçulmanos como irmãos, as ideias sectárias vieram de fora", pondera o conciliador Nuri. Mais uma vez, ouço a justificativa de um culpado estrangeiro. Claramente, evita ferir susceptibilidades, mas isso também dificulta enfrentar os problemas de convivência do mosaico de comunidades iraquianas. O equilíbrio que era mantido sob a ditadura de Saddam Hussein não deixava de ser uma ficção na qual, como frequentemente acontece em países da região, quem não pertence à comunidade (étnica ou religiosa) do governante é relegado a cidadão de segunda classe. Agora, apesar da mudança depois da invasão dos Estados Unidos, muitos temem que a fórmula esteja sendo repetida, mas com os xiitas em vez dos sunitas.

OS V√ćDEOS DA VERGONHA

O grupo Human Rights Watch (HRW) condenou uma s√©rie de v√≠deos que mostram supostos membros das for√ßas iraquianas matando e golpeando suspeitos de serem combatentes do Estado Isl√Ęmico e que, desde a √ļltima ter√ßa-feira, est√£o circulando pelas redes sociais. Em um deles, cuja localiza√ß√£o foi determinada pela HRW, v√°rios homens de uniforme levam um indiv√≠duo √† borda de uma muralha sobre o Rio Tigre, onde muitos outros est√£o atirando em dois corpos que foram arremessados anteriormente. Ent√£o, empurram o primeiro e atiram. No fundo, v√™-se outro grupo fazendo o mesmo com um quarto indiv√≠duo.

"Nas √ļltimas semanas da batalha pelo oeste de Mosul, observei em primeira m√£o o desejo das For√ßas Armadas de acabar o quanto antes com a luta", declarou Belkis Wille, investigadora principal da HRW para o Iraque. Isso desembocou, em sua opini√£o, "no que parece ser um declive no seu respeito √†s leis da guerra". HRW pediu ao primeiro-ministro iraquiano, Haider al Abadi, que investigue os v√≠deos.

O governo iraquiano disse que est√° fazendo isso. Porta-vozes do Interior e da Defesa declararam que essas a√ß√Ķes s√£o intoler√°veis e, se provadas, seus respons√°veis devem ser julgados. No entanto, no que parece ser uma resposta √†s cr√≠ticas de uso excessivo de for√ßa lan√ßadas pela Anistia Internacional na √ļltima ter√ßa-feira, Al Abadi defendeu que as "heroicas For√ßas Armadas iraquianas s√£o as verdadeiras defensoras dos direitos humanos, ao dar suas vidas para proteger os civis".

Fonte: EL País