FG News: Para Bento 16, o recuo da fé é uma ameaça para o Ocidente

Postado em: 17-08-2006 Um papa na televis√£o conversando com diretores de canais... Eis um exerc√≠cio do qual Bento 16 parece gostar bastante. Assim como ele fizera antes da sua visita na Pol√īnia, em maio, ele concedeu uma entrevista, na noite de domingo (13/08) - um m√™s antes da sua viagem para a Bav√°ria (de 9 a 14 de setembro) -, a tr√™s televis√Ķes alem√£s (Bayerischer Rundfunk, ZDF e Deutsche Welle).

Tratou-se tanto de um "manifesto" quanto de uma entrevista, escreveu Mario Politi no di√°rio "La Repubblica" de 14 de agosto. Na ocasi√£o, o papa manifestou sua ansiedade diante do recuo da f√© crist√£ na Europa, e frente √† "polifonia" das culturas e das religi√Ķes. Mas ele descarta todo discurso crispado, tal como aquele que valia cr√≠ticas a Jo√£o Paulo 2¬ļ: "O cristianismo n√£o √© uma soma de proibi√ß√Ķes, e sim uma op√ß√£o positiva", afirmou. Essa reorienta√ß√£o j√° p√īde ser percebida durante as Jornadas mundiais da juventude em Col√īnia, um ano atr√°s, e, mais tarde, por ocasi√£o da sua visita a Val√™ncia (Espanha) em julho. Essa entrevista veio confirmar a nova abordagem do Vaticano.

Bento 16 reconhece que é "difícil acreditar em Deus", por causa da "onda drástica de secularização e de laicismo". Esta avaliação é particularmente acurada para o Ocidente, o qual se encontra ameaçado na sua identidade: "O Ocidente vem sendo fortemente questionado por outras culturas, nas quais o elemento religioso é muito marcado, e que se mostram horrorizadas com a frieza que elas constatam no Ocidente em relação a Deus". O papa não aponta nominalmente para o Islã, nem para as espiritualidades orientais, mas é fácil entender a deixa.

Ele procura tranq√ľilizar a si mesmo e aos fi√©is, constatando um "retorno" do religioso entre os jovens, muitos dos quais manifestam "a necessidade de algo maior" do que a sociedade material. Portanto, existe uma chance que deve ser agarrada, observa o papa: a Igreja precisa mudar a forma do seu discurso, enfatizando a "forma√ß√£o" e nem tanto a norma moral.

Por exemplo, a respeito da Aids, da contracep√ß√£o ou da explos√£o demogr√°fica - assuntos em rela√ß√£o aos quais a opini√£o s√≥ se lembra da condena√ß√£o do preservativo por Jo√£o Paulo 2¬ļ -, o sucessor do papa polon√™s explica: "Se for ensinada apenas a maneira de construir e de utilizar t√©cnicas - por exemplo as formas de utilizar contraceptivos -, ent√£o n√£o h√° por que ficar espantado ao deparar-se com mais guerras ou mais epidemias de Aids. √Č preciso, paralelamente, formar os cora√ß√Ķes, ou seja, permitir que o homem adquira refer√™ncias, e ensinar-lhe a empregar corretamente as t√©cnicas".

Segundo ele, surgiu uma outra chance que n√£o deve ser desperdi√ßada: a evolu√ß√£o da configura√ß√£o demogr√°fica do cristianismo (2 bilh√Ķes de fi√©is), e que passou a contar um maior n√ļmero de seguidores no hemisf√©rio Sul. "N√≥s n√£o devemos capitular nem nos queixar, reclamando que n√≥s n√£o passamos hoje de uma minoria", conclui Bento 16. "Vamos tentar proteger o nosso n√ļmero reduzido e estabelecer novas rela√ß√Ķes, de modo a receber dos outros, for√ßas novas. Um n√ļmero cada vez maior de padres indianos e africanos passou a atuar na Europa ou no Canad√°!"

Não ceder à tentação do encolhimento que estaria ameaçando os católicos: esta mensagem do papa constitui uma reviravolta.

Fonte: Le Monde