FG News: Departamento de Santa Cruz recusa diálogo sem mediação da igreja

Postado em: 07-05-2008 Os líderes opositores da região boliviana de Santa Cruz anunciaram nesta terça-feira que não conversarão com o governo de Evo Morales sem a participação da Igreja Católica, após a rejeição do Executivo da mediação desta instituição.

Ap√≥s o referendo realizado em Santa Cruz e a proclama√ß√£o de um estatuto aut√īnomo que o governo n√£o reconhece, a aten√ß√£o na Bol√≠via se centra em saber o que acontecer√° com o novo apelo ao di√°logo do presidente Evo Morales para negociar uma sa√≠da para a crise que enfrenta com as regi√Ķes opositoras.

O governo diz que a igreja deve permanecer de fora da crise, pois sua maior autoridade, o cardeal Julio Terrazas, votou no domingo passado em Santa Cruz no referendo sobre o estatuto aut√īnomo deste departamento (estado).

A igreja, "por vontade própria, deu um passo para fora e corresponde ao governo, aos líderes regionais e à oposição assumirem a responsabilidade direta de conduzir o diálogo", afirmou o ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana.

Já a Conferência Episcopal disse em um comunicado que Terrazas é "um cidadão boliviano e de Santa Cruz" com "o legítimo direito de exercitar seu voto", o que não é incompatível com sua responsabilidade no comando da igreja, que "seguirá velando pela unidade e o bem comum".

Santa Cruz

Em Santa Cruz, seus representantes entendem que a participa√ß√£o da institui√ß√£o cat√≥lica na busca de solu√ß√Ķes para a crise √© uma "quest√£o de Estado" e requisito imprescind√≠vel para abrir um cen√°rio de acordo nacional.

"Caso a igreja não vá, nós não vamos", declarou hoje à agência Efe em Santa Cruz o secretário de Autonomias da Prefeitura (Governo) do departamento, Carlos Dabdoub.

Entretanto, além disso, Santa Cruz já não reivindica ao governo diálogo, mas "um acordo de reconciliação nacional", em palavras de Dabdoub.

O secret√°rio acrescentou que esta regi√£o n√£o se op√Ķe √† media√ß√£o da Organiza√ß√£o dos Estados Americanos (OEA), ap√≥s seu assessor pol√≠tico Dante Caputo reconhecer, segundo Dabdoub, que o movimento autonomista n√£o √© separatista e n√£o tenta desestabilizar nem a democracia ou o governo.

De qualquer forma, as possibilidades de diálogo na Bolívia parecem ainda distantes.

Na opinião do governo, os líderes regionais opositores optaram, após o dia 4 de maio, por uma linha "mais dura" ao atrasarem a eventual negociação até que sejam realizados os outros referendos autonomistas em Beni, Pando e Tarija.

Mais referendos

"Esta decis√£o desconsidera muito a sociedade. Os cidad√£os est√£o esperando minuto a minuto um desenlace positivo que cancele de uma vez o clima de incerteza e de aparente confronto", declarou hoje o ministro Quintana.

Caso comece uma negocia√ß√£o, Quintana acredita que primeiro √© necess√°rio tentar compatibilizar o projeto constitucional do governo com o regime aut√īnomo dos departamentos sem descartar modifica√ß√Ķes que, em √ļltima inst√Ęncia, deveriam ser aprovadas pela Assembl√©ia Constituinte.

Caso n√£o haja consenso, o ministro apontou o caminho do referendo sobre a nova Constitui√ß√£o que prop√Ķe Morales para "aquelas quest√Ķes controvertidas nas quais governo e oposi√ß√£o n√£o chegaram a acordo".

Sobre a situa√ß√£o que surge no pa√≠s ap√≥s a consulta de Santa Cruz tamb√©m se pronunciou hoje o defensor p√ļblico da Bol√≠via, Waldo Albarrac√≠n, que v√™ necess√°rio dar um palco constitucional para um processo aut√īnomo que qualificou de "leg√≠timo".

Para isto apelou para a vontade pol√≠tica e se mostrou em desacordo com o adiamento do di√°logo at√© que termine o ciclo de consultas aut√īnomas previstas em outros tr√™s departamentos.

"Isto é deixar que o tempo transcorra e abrir espaços para maior controvérsia e provavelmente para conflitos e até violência", afirmou.

Santa Cruz abriu uma nova etapa na crise que vive a Bolívia após o referendo sobre seu estatuto, que --segundo suas autoridades-- teve um apoio superior a 80%, enquanto para o governo foi um fracasso marcado pela alta abstenção.

O governo tacha de ilegais e separatistas o estatuto aut√īnomo de Santa Cruz e os que devem aprovar em junho os departamentos de Beni, Pando e Tarija.

Estes departamentos se op√Ķem √† nova Carta Magna proposta por Morales --pendente da ratifica√ß√£o em referendo-- pelas circunst√Ęncias em que foi aprovada pela Assembl√©ia Constituinte, em meio a dist√ļrbios que deixaram tr√™s mortos e mais de 300 feridos em Sucre e √† revelia da maior parte da oposi√ß√£o.

Fonte: EFE